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Quarta-feira, Abril 30, 2008
Costumo ser indulgente com certos sentimentos. E intolerante em relação a outros. Hoje acordei com vontade de tomar chá, metido num roupão de flanela, com meu sapatinho-de-frio (feito pra usar em casa). Mas não pude. Fiquei com raiva de ter que sair na rua, onde o frio de 15 graus desafiava meu humor e minha capacidade de ser generoso e bom às 8h da manhã.
...
Acabei de ler um livro que mistura discursos de Octávio Paz e Hannah Arendt. Gostei. Me fez pensar em temas menos mundanos (como a minha dor-de-cotovelo) e mais construtivos. Mesma sensação que senti ao ler a bela entrevista de Edgar Morin publicada na Folha de São Paulo, na última segunda-feira.
...
Coisas assim (e mais os dois CDs que baixei do Wilco e Billy Bragg cantando músicas com letras de Woody Guthrie) me fazem voltar a ter fé na vida. Guardo as mágoas numa caixinha e esqueço no fundo do armário. Junto com alguns sonhos que se perderam no caminho.
Coração
na boca:
Terça-feira, Abril 29, 2008
Como apagar alguém da memória? Como esquecer cenas inteiras de intimidade, de leveza e também de desencanto? Minhas mãos tremem desde ontem. Voltei a ter aquela respiração meio-ofegante e não me alimento desde que... será que vou adoecer de novo? Será que é assim, vai ser sempre assim?
Na mesma cidade. No mesmo bairro. No mesmo espaço. Com a distância calculada de algumas horas. O tempo. Será que só o tempo vai me curar de você de uma vez por todas? Porque simplesmente não te esqueço como você me esqueceu, mesmo sem dizer adeus?
O chão se abre e se fecha cada vez que penso em continuidade. Nunca fui bom com os finais. Lembra? Pra mim eles são sempre desiguais. E agora fico à mercê do tempo. Logo do tempo. E da misericórdia dos dias melhores que ainda virão.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Abril 24, 2008
Impossível ouvir uma música do passado e não lembrar de paisagens e pessoas que ficaram coladas na memória. Hoje não li no ônibus. Resolvi mergulhar na melodia sofrida do Elliott Smith. Mas não é desse bardo encantadoramente triste que eu queria falar. É de uma das músicas do disco A Beira e o Mar, da Bethânia, lançado em 1984. Falo disco porque a primeira versão que tive da obra foi um LP.
A música?
Chama: Pra Eu Parar de Me Doer, do Milton e do Fernando Brant. Como boa parte do repertório, veio de um show antológico da Bethânia chamado A Hora da Estrela, roteirizado e dirigido pelo Naum Alves de Souza. É impossível não enxergar Macabéa e Clarice ao ler a letra e ouvir a sentida melodia. Isso me lembra que eu conheci livro e canção sem saber da ligação entre ambos, tudo no mesmo ano, não é louco?
Ouvi de novo a música ontem, ao baixar o álbum pro iPod. Fiquei imaginando em como o mundo dá voltas e acaba por não sair do lugar. Em como sou o mesmo garoto perdido daquele outro tempo, entre serras e noites de lua cheia. Sonhando em acordar uma madrugada e, pulando a janela do quarto, dar de cara com um mundo diferente. Inventado, imaginado.
Mas aprendi que a única forma de criar um mundo novo é dar tempo ao tempo.
Pra Eu Parar de Me Doer
(Milton Nascimento-Fernando Brant)
Mais que a dor do amor
Viver a dor, me doeu
Eu quero mesmo é ser feliz
Amar, amor
Quem não semear,
Não vai colher
Ai, de quem é um
E nunca será dois
Por não saber...
Quem irá me valer?
São pessoas, é a caminhada
Quem irá me valer?
São meus sonhos no pó da estrada
Quem irá me valer?
É o sorriso que guardo comigo
Quem irá me valer?
É o segredo de fazer amigos...
Coração
na boca:
Quarta-feira, Abril 23, 2008
My Blueberry Nights
Não desfez as malas, nem arrumou a cama como sempre fazia. O cheiro ainda estava forte no quartinho apertado. Quando, finalmente, encontraria um teto seu? Quando teria um amor que durasse mais que algumas horas? Entrou no box com raiva, olhando as marcas pelo corpo. Teve ódio da amnésia alcoólica. Queria lembrar o rosto. Queria tirar o gosto da boca. Um gesto... tantos comentários maldosos. A memória do beijo se perdeu em meio ao caos que tomou conta do lado de dentro.
Na primeira manhã em que se viu sozinho, decidiu que já não queria a companhia de quase ninguém.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Abril 17, 2008
Dor elegante
Queria ter sido com você o que não fui com mais ninguém. Mas não deu. Talvez nosso encontro deva ser assim, na exata medida do descompromisso. É que você não é a pessoa mais delicada do mundo, embora pareça. Sua secura muitas vezes me deixa fora do eixo. É quando fico me perguntando o que ainda nos une. Mas aí vem o jantar preparado a quatro mãos, o pedido pra ficar mais "cinco minutos" na cama... abraçados, corações aos saltos, antes de levantar pra encarar o dia e o mundo de verdade fora do quartinho. Aí percebo que nossa relação é maior que os clichês. E como você diz, quando ficamos juntos é em nome da liberdade, não da obrigação.
Coração
na boca:
Terça-feira, Abril 08, 2008
Numa manhã cinza de abril...
Acordo cedo. Banho longo. Saio sem café. Ônibus. Trilha de Once no iPod. Primeiro ponto, segundo... - oi, lembra de mim?
Pois é, amigos queridos, o que era pra ser mais um trajeto de bocejos sonolentos e música melancólica, virou um reencontro inusitado, com direito a troca de olhares, palavras doces e um indisfarçável desejo de repetir o beijo na boca... ali mesmo, em pleno Butantã-USP (a linha mais cool de São Paulo) quase lotado.
Vocês acreditam em destino, o lugar-comum-razão-de-ser das comédias românticas? Eu já não tenho tanta certeza. Juro que esse encontro ao acaso me deixou com uma sensação estranha de que o Gil é que está certo quando canta: -mistério sempre há de pintar por aí...
P.S.: há quem diga que, com o outono, eu me torno previsível e excessivamente romântico, mas vai dizer que um fato assim não é inspirador?
Coração
na boca:
Quarta-feira, Março 26, 2008
É assim: dois personagens sem nome são unidos ao acaso pela música e pela solidão. Estamos em Dublin. Faz frio. Ele vem de uma desilusão amorosa, ela de um casamento infeliz. Ambos fazem parte de uma Europa que não estamos habituados a ver nos filmes comerciais ou cartões postais. A história dos dois teria tudo pra ser de amor. E é. Mas não o amor esperado. Talvez o olhar perdido da personagem, captado no final pela câmera, seja indicial desse fragmento de discurso amoroso que, de tão único, nos deixa irremediavelmente tocados.
*O filme em questão chama-se ONCE, uma fita "independente" da Irlanda que ganhou o oscar de melhor canção esse ano. As canções, inclusive, dispensam comentários. Baixem já, eu garanto!
P.S.: queridos amigos que por aqui passam vez-em-quando, vocês já tiveram encontros assim? Já se apaixonaram por alguém que sequer tocou? Já perguntou como se diz: -eu te amo- em tcheco? Já recebeu como possível resposta um -eu te amo também- mesmo não entendendo o que isso significa? Pois bem, eu já. Me vi dedicado por inteiro a um amor assim, cheio de cuidados. Mas nem por isso concretizado. Tristes os que não têm histórias para lembrar, dos que não têm um passado. Viver um amor (e até suas possíveis cicatrizes) acaba por dar mais sentido a todo esse mistério. Mesmo entre os que não costumam ser fiéis aos acontecimentos biográficos.
Coração
na boca:
Sábado, Março 22, 2008
Mudança dos Ventos
O que dizer agora? Você vem, pinta e borda comigo, me revista, me excita... o seu cheiro impregnou meus lençóis, isso sim. E é assim, Takai cantando Nara, eu sonhando com outros tempos. Vai... do jeito que imagino, me tira essa vergonha, me mostre, me exponha. Me tira uns 20 anos? Nossos abraços. Talvez seja apenas isso. A memória do beijo. O aconchego de há pouco. Queria parar o mundo. E trazer você de volta... trazer você pra perto. Deixa eu causar inveja? Deixa eu causar remorsos? Nos seus, nos meus, nos nossos...
Coração
na boca:
Quarta-feira, Março 19, 2008
Julie Delpy tem a minha idade. E as coincidências entre nós dois param por aí. Mas ontem, como diretora e atriz (do belo Dois Dias em Paris), ela deu o recado que eu queria nos minutos finais do seu filme. Em off, resumia a discussão que estava tendo com seu companheiro (o ótimo Adam Goldberg). Entre muitas frases simples, mas precisas, ela dispara:
- "Sempre me surpreendo como duas pessoas passam,
de uma hora para outra, do amor incondicional pro vazio absoluto".
Não namoro oficialmente desde meados de 2005 (e foi por período curtíssimo, apesar de intenso). Antes disso, tive uma história que mesclou clichês-românticos, momentos de rara poesia e certa dor (quase escrevi a palavra mágoa, ato-falho).
Desde então vivo histórias mais ou menos fugazes. Pessoas que passaram a ser importantes (outras nem tanto), corpos quase-anônimos, beijos roubados, rubor de faces nas estações de metrô... no meio de tudo isso, há dois anos, pintou uma "relação aberta" (na medida do impossível), com alguém que conheço desde 1998 (putz, dez anos).
Tudo isso nem chega perto de resumir minha confusa-vida-sentimental. Tenho arroubos de saudade, misturo cenas e personagens, sou puro simulacro. E ainda tem a vida real: prática, cotidiana, que exige lucidez, serenidade, MATURIDADE.
E assim caminha nossa frágil humanidade. Sim, por que a vida nada mais é que essa sucessão de perguntas sem resposta, de emoções desencontradas, de momentos felizes e outros nem tanto. Tudo com seu devido princípio e fim. E como eu sempre digo: os finais são sempre desiguais.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Março 17, 2008
O sol cedeu lugar à chuva. Tudo cinza e frio. Mas isso bem que me agrada. Depois de uma viagem rápida a Rio Preto (sim, de avião, para desespero pessoal), estou de volta à rotina. Um fim de semana fora de Sampa nos faz perceber outros tons no céu. Isso é bom.
...
Fico me perguntando agora o que quero, de fato, da vida? Estabilidade? Fortes emoções? Respostas francas? Evasivas? Sei que sou sim, cheio de subterfúgios... mas uma hora cansa. Não seria mais fácil definir papéis? Cumprir certo roteiro? Pensar num final feliz?
...
Você diz que sou romântico. Eu me acho cada vez mais dissimulado em matéria de amor!
Coração
na boca:
Segunda-feira, Março 10, 2008
Fazer filme, fazer cena. Te ligo de madrugada, desligo, volto a ligar.
Corta.
Março chegou ensolarado e eu só penso em contar tatuagens. Na altura das costas umedeço os lábios e beijo meu desejo, geografia íntima descrita pelo toque dos dedos.
Um, dois, três passos. Limites de um continente inteiro refletem na retina. Tuas pernas, teus braços coloridos com simbólicas aquarelas.
E tudo que eu quero agora é ar refrigerado e trem bala sobre as avenidas lotadas de carros e gente.
Tirando a roupa, lentamente, abrimos a janela pro mundo, pra rua, pros outros.
De que forma nos aproximamos mais e mais dos começos?
Digressão.
Podia ser outro, o corpo. Mas era o teu.
Solidão por falta de cuidado.
Nem sente culpa por nos fazer infelizes assim.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008
Se Annie Hall e Alvy Singer existissem na vida real seriam os meus melhores amigos (rsrsrs). Exagero à parte, devo confessar que essa comédia romântica (sim, é desse jeito que classifico esse, que é um dos filmes da minha vida, até porque ADORO comédias românticas e não me importo nem um pouco pra quem torce o nariz pro gênero) passou a fazer parte de mim, desde os anos 80, quando assisti pela primeira vez.
Desde então, Diane Keaton virou minha musa de qualquer estação e, sempre que posso, revejo entre risos e lágrimas esse clássico de Nova York, com seu cinza e seu charme, seu jazz e sua bossa tão característicos. Foi o que aconteceu ontem, domingo chuvoso em Sampa. Zapeava a TV em busca de um sopro de vida e eis que surgem Annie e Alvy prontos a me resgatar do limbo.
Não sei dizer exatamente o que tanto me encanta nesse filme. Acho, por exemplo, Manhattan, do mesmo diretor, estupendo. Mas nada se compara à graça indiscreta de Annie. Suas trapalhadas e suas tentativas de felicidade em meio à neurose contemporânea. Minha identificação com ela é tamanha, que chego a temer por meus relacionamentos (rsrsrs). Afinal, o que está ruim sempre pode ficar pior, não é mesmo?
O que mais me delicia em Annie Hall, no entanto, é a sua atualidade. Tudo que o casal de protagonistas aborda durante o filme é tão presente em nossas vidas, como há 30 anos. Vejo o filme e reconheço nele todas as minhas paranóias, a eterna desconfiança em relação ao afeto do outro, a pouca credibilidade em si mesmo diante de situação banais, corriqueiras. Por tudo isso, sempre vou amar assistir de novo e sempre as agruras de Annie e Alvy, encontrando ali a humanidade necessária para continuar acreditando sempre, mesmo desconfiando tanto.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008
“Qual é mesmo a palavra secreta?”
Clarice escrevia para entender. Ela precisava se expressar através das palavras para não enlouquecer de vez.
Descobri que às vezes é preciso dizer adeus para finalizar uma história (de amor?). Digo isso porque me ressinto até hoje com uma não-despedida.
Era tarde, era abril, chovia? Já não sei. A memória me trai o tempo todo. São Paulo é cinza quase o ano inteiro, portanto, vamos esquecer o calendário.
De uma lembrança ancestral, porém, nunca me livrei: o medo do escuro. Por isso penso que chorei o suficiente na infância, antes do sono, no escuro do quarto.
Nessas horas qualquer alegria ficava triste. Ainda sinto isso. Quando algo como a felicidade me ronda e eu não consigo alcançar. Desejos apressados (quase raros).
(...)
Não devemos dar margem aos devaneios. É que ando solto e frágil feito papel em ventania. Não tenho porto, parada, não tenho ânimo.
Estou quase um verso soprado.
Já não imagino "dois" como antes. Desde aquele abril, agosto ou será que foi um dezembro? Sem paciência para escrever, desencano das possibilidades de entendimento.
Prefiro concentrar minhas forças na perdição, transformando em parceiro o velho medo do escuro, renovando por dentro os votos de que não preciso mais de nós.
Nem do adeus para chegar ao fim da história.
P.S.: a imagem de Clarice escrevendo me deixou mudo (numa felicidade clandestina).
Coração
na boca:
Terça-feira, Janeiro 29, 2008
Clarice, my dear
Caio Fernando Abreu dizia que tinha vocação para magoar os outros e a si mesmo. Comigo invariavelmente acontece a mesma coisa. Chove a cântaros na cidade de São Paulo. O trabalho continua monótono e eu louco por outra vida. Mas é sempre assim. Deve ser signo, sina. Sagitariano parece nunca estar satisfeito com nada. Você sabe disso, já que nasceu no mesmo dia que eu.
Tenho tentado reclamar menos. Já não me lamento como antes. Mas querer dias diferentes e um cotidiano menos maçante é o mínimo que posso pedir. Mas a quem? Aos céus? Ontem retomei a releitura de “A Invenção de Morel”. Amo esse livro. É de uma angústia criativa que nos impele a sair do canto, largar a inércia e tentar mais. Nem que seja alimentando o plano imaginário (coisa que faço tão bem).
Ousadia. Foi isso que pensei no dia que decidi largar tudo e vir morar nessa cidade. Era 1990. Desde então fiz tanta coisa. E isso ninguém me tira. Ter um passado, contar a própria história, tocar nos fatos através de fotografias, cartas, bilhetes, pequenos fragmentos que enchem agendas, caixas, páginas marcadas de livros. E música. Não existe nada que evoque mais a memória afetiva que os fundos musicais que formam a trilha sonora da nossa vida.
Vou me embrulhar ao chegar em casa nesse dia de chuva e certo frio. Fazer cabaninha com o edredom e ouvir músicas antigas. Sozinho, mas, dentro do possível, feliz.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Janeiro 14, 2008
Caríssima,
como te disse uma vez, vivo de presságios. As primeiras semanas de 2008 têm sido corridas, com muita coisa acontecendo. Mas ainda teimo em arranjar tempo de olhar pro céu. E o céu acaba nos contando tantas coisas. Hoje mesmo saí antes das sete da manhã de casa. Céu cinza, nuvens descuidadas.
Em dias assim vêm à cabeça pensamentos esquecidos. Vontade de retomar planos, juntar palavras de dentro e de fora, buscar simplicidade. Não temer as frases feitas nem os sentimentos desencontrados.
Já se permitiu desejos assim, Clarice? De voltar no tempo e aproveitar dele só as coisas boas? De adiantar o tempo e viver nele tudo que for realmente significativo? Olhar para o presente e lembrar de agradecer tudo: plenitude, serenidade, harmonia.
Ando assim. Como esses trovões e relâmpagos do meio da tarde. Tentando lembrar a última vez que me senti realmente amado, desejado, querido. Tentando colar todos os fragmentos e reunir minha história num único enredo: feliz, raro, meu de fato.
Coração
na boca:
Sábado, Janeiro 05, 2008
Oi Clarice,
há tempos não te escrevo. Pelo menos assim, desse modo despudorado e íntimo. São reflexos dos primeiros dias de 2008, calmos, sem grandes alardes. Alguns rompimentos de contratos, assinatura de outros. Voltei a morar num antigo apartamento de enormes janelas, de onde posso ver o céu entrecortado por outros prédios maiores e menores e isso, de algum modo, me lembra você e suas paisagens.
Ando amplo, sem vontade de grandes lamentações ou autopiedade. O meu tempo é hoje, embora continue com a mania de olhar através de frestas. Nesse outro tempo, revejo de soslaio antigos sorrisos e me alegro com belezas que um dia visitaram meu quarto, minha cama, minha vida.
Mas tudo isso também faz parte. Não é assim que acabamos por guardar as memórias mais significativas? Não é por isso que fazemos compotas de frutas raras, que ficam escassas em determinadas estações?
P.S.: terminei um livro leve e sem afetações, baseado num blog. Conversando com D., meu novo e querido flatmate, sobre as histórias de Julie Powell despertei para algo que nunca havia pensado. Lembrei que mantenho o Perto do Coração Selvagem há mais de cinco anos. Por aqui já passaram muitos leitores. Alguns viraram amigos, outros desapareceram sem que eu jamais os tivesse visto, conhecido. Outros tantos continuam surgindo. Alguns deixam rastros, outros apenas participam calados dessa minha aventura diária. Mas quem de fato está do outro lado da tela? Quem são meus duplos nesse espelho?
Coração
na boca:
Segunda-feira, Dezembro 31, 2007
Quando tudo faz lembrar. Quando tudo faz ficar. Aí vem a sensação de que os caminhos não se cruzam ou entrecruzam por acaso. Te disse que a fantasia entre nós se rompeu. Outras fantasias entre nós se farão. E é disso que é feita a vida. De eternos retornos.
Último dia de 2007, um ano de muitas dores e alguns amores. O que fica é a vontade de amanhecer junto com o sol de manhã. Renascer com um desejo novo e nenhum peso no peito. Estou em São José do Rio Preto, noroeste do Estado de São Paulo. Reconheço a casa, o banheiro, o cheiro, a comida japonesa feita por sua mãe e agradeço a enorme paciência comigo.
Juntos há dez anos, mas sempre tão separados. Dessa vez estamos acertando a mão na tal abertura de sentimentos pro mundo, pra vida. Não, não, nossa história não terminou (seja ao som do piano ou do violão). Ela se refaz, como cada ano, um após o outro.
Como 2007 acaba para dar lugar a 2008, um ano cabalístico para mim. O ano dos 40, o ano dos 10. Um ano que promete ser de recomeços, amores lançados (de outras bases) para espaços siderais. Adoro a idéia de saturno ter anéis, de termos iniciado a vida no fundo dos oceanos. Adoro acordar de noite com medo e sentir que você está ao lado. No escuro e vendo.
Não sei, amigos queridos, o que nos espera dobrando a esquina do tempo. Espero que seja mais aceitação, mais paz por dentro, mais amor para os olhos, corpo e alma. Não quero hoje fazer balanços ou planos. Quero continuar tentando. Quero não ter medo de gritar quando sentir vontade, de beijar quando tiver desejo, de desistir quando tudo mais já não valer a pena. Como diz a musa desse blog, desistir é também uma forma de começar tudo de novo.
Que venha 2008... vou deixar a porta aberta!
Coração
na boca:
Terça-feira, Dezembro 18, 2007
Acabou Chorare
Quando você me deixou e disse pra eu ser feliz, quase acreditei que seria. Desde então presumo que você fala pra todo mundo que me conhece. Que sabe de cor todas as minhas dobras, esquinas, meu subtexto, centro e periferia. Mas não se engane, baby.
Nos conhecemos desde quando? Desde sempre? Desde o começo? Parece que sim. Sempre que abro uma velha caixa esquecida de fotografias, estamos ali, colados, flagrados em harmonia, loucos para que a vida não separe, para que o gosto nunca mude ou a vontade de um pelo outro sempre prevaleça.
Só que a vida veio e levou quase tudo que havia entre nós. A confiança mútua, o respeito pelas lágrimas secretas vertidas na solidão dos travesseiros ou até a risada escandalosa no meio do mundo, que muito incomodava, depois das tantas cervejas.
Reforço que o rompimento não foi seco, rápido e indolor. Começou lá, bem no tempo em que a gente ainda acreditava num "pra sempre". Mas tudo acaba, como já disseram. A alegria, a tristeza, a saudade, os desejos.
Tudo isso vai embora. Assim como você fez quando nos deixou para trás em busca de outros sentidos. Tem dias em que até eu sinto. Mas é pra dentro, embotado, como se fizesse um bordado invisível aos olhos alheios.
Hoje você escreveu apenas uma linha. Lá no distante. Lá no exílio. E lembrou apenas de maldizer nossos dias. Sua generosidade se foi, como folha morta na ventania. Esqueceu de nós pacificados, plenos, abertos diante daquele mar imenso de possibilidades.
Não voltarei a ler a tal única frase. Palavra corta feito navalha. A sua tirou sangue, estancou meu riso que ficou suspenso, assombrado nos lábios. O pouco que havia talvez agora já não diga mais nada.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Dezembro 13, 2007
Ok, quem me conhece sabe, adoro um drama. Nessas horas sou superlativo, exagerado mesmo. Mas desde ontem, quando comecei a ler Julie & Julia, livro baseado no blog em que Julie Powell conta as peripécias de experimentar 524 receitas, em 365 dias, numa cozinha apertada de Nova York, tenho achado meu melodrama coisa de amador.
A leitura é deliciosa e o livro eu conheci após ler uma crítica simpática, muito bem escrita pela Nina Horta (que eu amo de paixão e respeito muitíssimo). Pois bem, a autora se dedicou durante um ano inteiro a desvendar os mistérios de um clássico da cozinha norte-americana Mastering the Art of French Cooking, de Julia Child, espécie de Ofélia dos gringos, que também mantinha programas culinários emblemáticos da TV.
Como se não bastasse tudo isso, Julie permeia a saga gastronômica com histórias pessoais (bem ao gosto dos blogueiros), o que confere à narrativa um ar confessional que muito me agrada. Foi num desses rasgados desabafos que me identifiquei totalmente com suas frustrações diante do mundo (só que, no seu caso, aos 29 anos de idade).
A moça chega à conclusão que tudo que fez contraria o curso natural de vida da maioria das pessoas e começa a enumerar o que seria normal fazer entre os 20 e 30 anos. Não preciso dizer que fiz o mesmo em relação a mim e eis aqui a reflexão completa:
Aos 20 e poucos anos deveria ter terminado o curso médico, entrado numa residência respeitada e começado a clinicar em seguida, me transformando em competente profissional da área de saúde entre os 30 e 40. Em vez disso, larguei o curso, mudei para São Paulo e entrei na faculdade de Jornalismo (essa, pelo menos, terminei)... não satisfeito, troquei várias vezes de cidade, fui sócio da minha mãe numa loja de roupas, professor universitário... até voltar a ficar insatisfeito e partir pro mundo novamente, recomeçando tudo aos 30 e poucos.
Agora, pertinho de completar 40 anos, sou o mesmo lost boy de outrora, mergulhado em crises existenciais, num trabalho (temporário – aleluia) chato e cercado por pessoas que mal entendem o que falo (e pq falo). Louco para uma nova fuga estratégica para outra dimensão (feito um personagem do Murakami), mas ainda assim acreditando. E sabe qual a lição que tiro de tudo isso? Como numa receita tradicional francesa, o que vale nessa vida é escolher bem os melhores ingredientes, seguir o modo de fazer de maneira inequívoca, mas nunca esquecer de ousar no toque pessoal. O melhor alimento para a alma é aquele cozido em fogo lento, regado com certo mistério e, acima de tudo, degustado como se feito pelos deuses.
Coração
na boca:
Quarta-feira, Dezembro 12, 2007
Ontem, primeiro dia de idade nova, meu mundo caiu. Sabe quando acontece uma sucessão de pequenos incidentes, que vão ganhando dimensão de tragédia pessoal quando alinhados pelo pensamento angustiado? Pois é... e ainda escrevi um post imenso que o blogger engoliu. Mas nada como um dia atrás do outro. Hoje começo a analisar que, se não tomei decisões drásticas no calor dos acontecimentos, vou tomá-las a frio. Ninguém vai me acusar de cabeça-quente, intempestivo ou qualquer outro (des)qualificativo que o valha. Mas o que fica é uma enorme sensação de desconhecimento diante da vida. E assim vamos levando...
Coração
na boca:
Sábado, Dezembro 08, 2007
"Faça fazer sentido"
Hoje acordei com vontade de chorar baixinho, ouvindo música velha e esquecendo o tempo. Memória de imagens bonitas e corriqueiras, daquelas pequeninas, que não valem um solo de guitarra. Não tenho a facilidade de antes para escrever aqui ou em qualquer lugar. Ando, como sempre, vivendo um tempo de bagunça organizada, onde os fatos se sucedem sem muita lógica ou razão de ser. Apenas um dia após o outro e algumas emoções no meio deles. Mas o inferno astral está acabando. Aniversário e virada de ano se aproximam. Quero de volta minha felicidade clandestina.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Novembro 26, 2007
E aí você chegou com tantos carinhos que deixou aquela noite mais aconchegante. Eu já disse que adoro quem sorri com naturalidade? Pois é... quando o rosto se ilumina de forma sincera, tudo fica transparente, límpido. Não que eu esconda a melancolia. Os momentos de tristeza devem ser vividos até que estanquem, saciados.
Tenho profundo respeito pelas minhas lágrimas mas, como diz Caetano, minha risada é ainda mais reverenciada.
Hoje não quero lembrar da falta de generosidade da minha chefe, do humor atravessado de alguns colegas de trabalho, nem do dente que ainda dói depois da cirurgia na sexta. Quero dizer sim ao riso farto, à capacidade de ser solar, apesar das nuvens escuras que rondam nosso céu.
Dezembro está quase chegando e é um mês revelador. Acreditem.
Coração
na boca:
Quarta-feira, Novembro 21, 2007
Livros, memórias e declarações de amor...
Quem me conhece sabe que sou fascinado por livros. A leitura consegue aliviar meu estado de espírito contraditório, me acalma antes de dormir, me faz companhia. Hoje fui almoçar no prédio do curso de História da USP onde, anualmente, acontece uma feira de livros a preços realmente honestos (quase tudo com 50% de desconto). Pra variar, caí na tentação e me esbaldei.
O clima no local também me despertou recordações de outros tempos, outras feiras de livros, beijos, abraços e singelas declarações de amor. Jurei que evitaria ser piegas aqui no blog. Mas é assim que sou e acho que não quero mudar. Faz parte de mim, como gostar de antigas canções do Roberto Carlos, comer brigadeiro de colher e viajar sempre na janela, seja do ônibus, do metrô ou do avião.
Tudo que precisamos vez-em-quando nessa vida é desse tipo de emoção barata, sem grandes elaborações, sem necessidade de explicações. E nesses dias ando precisando me aliviar de certo peso no peito, desse ardido sem nome que chega sem avisar e nos enche de inquietação. Uns dizem que é o tal do inferno astral. Eu prefiro chamar de desejo por revolução.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Novembro 08, 2007
E hoje ainda é quinta e não sexta. Apesar do mês ser mais curto por conta dos feriados, continuo achando insuportável cortar a cidade para vir trabalhar nesse fim de mundo. A dor de dente voltou, a vontade de mudar de personagem também. Mas a novela mal começou... pois é.
Depois que vendi o ap das Perdizes e voltei pro entorno da Paulista, achei que tudo ia melhorar... até parece... a única coisa boa (sim, você sabe que foi) aconteceu no fim de semana. Aconchego, cuidado, beijo na boca e aquela sensação tranqüila de afeto compartilhado.
E olha que ainda não falei da loucura em casa: caixas, caixas e caixas. Até agora não fiz nada na cozinha gigante, nem água eu fervi. Troca de empregada, muita roupa suja e pouca vontade de lavar, muita roupa limpa e pouca vontade de passar. Vixi... isso aqui tá parecendo checklist de dona-de-casa...
Vou lá fora procurar paciência... volto já.
Coração
na boca:
Sexta-feira, Outubro 26, 2007
“...Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz.”
A História de Lily Braun, Edu Lobo e Chico Buarque
Sempre me fascinou a forma como Chico e Edu deram vida aos personagens do poema O Grande Circo Místico, de Jorge de Lima, para trilha homônima de um espetáculo do Balé Teatro Guaíra, no início dos anos 80. Cada canção encerra uma trama, formando uma das narrativas mais felizes da arte contemporânea brasileira, que reuniu poesia, dança, dramaturgia e vida, conquistando milhares de fãs aqui e no além-mar.
Mas não é sobre essa obra-prima que quero falar. É sobre os últimos dias, típicos de Lily Braun. Chove em São Paulo. As árvores no entorno do parque cedem pequenas flores roxas e amarelas ao chão de terra preta. O tapete que se forma é de arrepiar.
Dias estranhos os últimos dias. De tropeço e de preguiça. Em dias assim, não adianta traçar grandes planos, desejar outros destinos, pensar em amor. São dias de pura reflexão. Não têm dor nem agonia, não têm sofrimento. São dias de-ver-passar-o-dia, mas sem esperar muito dele.
Lily, ouça o que digo: aprender a dizer não pode ser o começo da nossa alegria.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Outubro 15, 2007
A Juli me passou a "correntinha literária", e como eu também gostei da proposta, tratei de seguir as instruções. No fim, o resultado:
1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abrir na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.
"Gostaria de saber a história, eu disse, implorando".
(Minha Querida Sputnik, Haruki Murakami)
Eu mandei para os seguintes amantes de livros, como eu: Tita, Lemu, Gabs, Fao e Carol.
Coração
na boca:
Sexta-feira, Outubro 05, 2007
Em certas coisas eu nunca penso. Outras me tomam de assalto, quando menos espero. E se... detesto quando o devaneio começa assim. Mas já havia se instalado. O desejo de saber o que teria acontecido se... eu não tivesse largado a Medicina, por exemplo. Estaria com mais grana? Estaria mais feliz? O vento que entra pela janela aberta do ônibus me faz olhar a paisagem paulistana, rio fedido, prédios, prédios e prédios (o verdadeiro mar de concreto, como já disseram alguns) e aquele céu num tom completamente ausente de sentido (sim, porque até o cinza faz sentido, mas há dias em que o céu de São Paulo assume uma não-cor).
Voltei à realidade. Lembrei que não era médico por opção. Eu quis assim. Ser jornalista, escrever para viver, dar aulas, me apaixonar por cada projeto novo que surge foram alguns dos motivos da virada. Eu queria ser menos sério aos 20 e caí no mundo. Liberdade. Mas, e agora? E se... eu largar tudo de novo e empreender outros desejos antigos: viajar pelo mundo sem eira ou beira, tentar um novo amor, um novo começo pra minha história.
O ônibus pára. Tenho a sensação de quem está parado sou eu. Desço no meio da Augusta. Vou continuar meu caminho a pé. Vou em outra direção, entro numa loja, esbarro numa calça linda, com cara de velha. Compro. Largar sempre o que começo é tudo que faço, desde a primeira faculdade. Mas a vida é assim mesmo, penso quase alto. E quem fica parado é poste. Vou mudar de ap em uma semana. De bairro, de trajetos, de paisagens. Essa é também uma forma de experimentar a tal da liberdade. Nunca achar que é pra sempre. Aliás, jamais dizer NUNCA. Hoje mesmo me apaixonei na rua umas três vezes... (rsrsrs)... e aí percebo que sou mesmo assim: alguém que precisa arriscar, sorrir, chorar, ficar triste um dia e alegre outro.
Tudo pra continuar humano.
Coração
na boca:
Terça-feira, Outubro 02, 2007
"Gosto muito de te ver (...)
(...)
Gosto muito de você (...)
Para desentristecer (...)
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você (...)
(...)
Arrastando o meu olhar como um ímã
(...)
(...)
Gosto de te ver ao sol (...)
De te ver entrar no mar
(...)
(...)
(...)
De estar perto de você e entrar numa"
É assim que tô cantando O Leãozinho do Caetano, hoje. Comendo palavras e versos inteiros, deixando só o que me apetece. Ando fazendo isso com as coisas, cada vez mais freqüentemente. Eclipsando (será que existe essa palavra?) parte daquilo que não quero ver, ler, sentir, tocar. Os astros falam em contradição em todos os horóscopos que tenho lido.
Hoje não tô ligando para o que dizem os astros. Tô com saudade, só isso. Aquilo que vai tomando conta da gente sem alarde, mas com força. Senti o cheiro desde cedo, ao acordar. E prometi a mim mesmo trocar a fronha (mesmo limpa) do travesseiro, assim que chegar em casa. Eu sei. Você nunca deitou nessa cama atual, nem usou a tal fronha ou o travesseiro.
Mas o sonho deve ter passado dos olhos fechados pro tecido, impregnando ele de você. E não quero que você volte hoje novamente. Não quero que chegue devagar, enquanto durmo. Quase sinto sua mão acariciando “minha pele ao léu”. Por isso não quero você nos meus sonhos. Acaba saindo da madrugada, ganhando o dia. Toma conta do meu pensamento e das minhas ações, escolhe até as músicas que vou ouvir como que por telepatia.
E você nem pensa mais em mim, eu sei. Não lembra das tantas risadas e de alguma lágrima. Da rima, da língua, do pedaço de queijo brie com geléia de amora que adoçava tardes de sábado. Não lembra da última tentativa que fiz de reter você em mim, prometendo que mudaria. Sim, eu mudaria em seu nome.
A verdade é que nunca tivemos o tempo do adeus. Talvez por isso você volte nesses sonhos.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Setembro 24, 2007
Alice
Pensou que seria rápido e sem sangue. Pensou que ia ser apenas um machucado, com direito a roxo no final. Pensou que não sofreria tanto. Mas só pensou. Ensaiou duas vezes o discurso. Diria assim: quero-de-novo-acordar-com-um-compromisso. Mas esqueceu pra quem deveria repetir isso tantas e tantas vezes até que bastasse. Tinha medo de acordar de novo com aquela sensação desesperada de erro e acerto e erro de novo. Queria geléia de goiaba com queijo. E não mais ouvir a mãe chorando ao telefone. Queria ficar com ela mais tempo, viver mais perto o quanto antes. Mas não gosta de sol. Tem medo de ficar só pra sempre, mesmo lembrando que o tal pra-sempre-também-acaba. Hoje já é primavera. Mas ela não veio.
P.S. Importante:
Aí Alice encontra o gato:
"- O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?"
E ele:
"- Isso depende muito para onde você quer ir."
Coração
na boca:
Quinta-feira, Setembro 20, 2007
Astrud Gilberto e Tom Jobim... puro encantamento
Desafinado
Antonio Carlos Jobim/Newton Mendonça
(1958)
Quando eu vou cantar você não deixa
E sempre vem a mesma queixa
Diz que eu desafino, que eu não sei cantar
Você é tão bonita
Mas toda beleza
Também pode se acabar
Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de antimusical
Eu, mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é bossa nova
Que isto é muito natural
O que você não sabe, nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração
Fotografei você na minha Rolleiflex
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar, viu...
Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados
Também bate um coração
Coração
na boca:
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