<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="1252"%> Perto do Coração Selvagem
Perto do Coração Selvagem

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Sexta-feira, Abril 30, 2004




Alecrim, alecrim dourado
Que nasceu no campo
Sem ser semeado

Ai, meu amor
Quem te disse assim
Que a flor do campo
É o alecrim?


P.S.: lembra?

Coração na boca:

 

Quarta-feira, Abril 28, 2004


O susto e a calma

Eu poderia ficar horas e horas na frente desse monitor tentando encontrar as melhores palavras. Mas não vou fazer isso. Decididamente não hoje. Escrevi um texto enorme no final da tarde, sobre uma amiga suicida. Decidi não postar. Guardei, como tantos outros, dentro de um livro. Mania antiga: guardar textos e fotos queridas dentro de livros. Depois eles ficam esquecidos (esperando o tempo certo?) na estante e só quando prontos desabrocham de novo.

Show de Maria Bethânia no sábado. A voz abrindo espaço para o meu espanto. E eu só queria estar ali... observando de longe seu gosto pela poesia, seu cabelo inconfundível, suas contradições. Os últimos dias foram assim: marcados pela nobreza, pelos reencontros e também pelos momentos de profundo silêncio, nem sempre percebidos.

Também aconteceu o que eu já nem mais esperava. Um lampejo, um gosto diferente na boca: doçura? Magia? Procurei no dicionário o sentido exato da palavra encantamento. Mas não me convenceu. O que sinto agora não pode existir como linguagem, léxico, nexo... é meu, é íntimo e privado. É como música que se ouve sorrindo (e até chorando), doce que se come escondido, segredo que se move incólume através dos dias.

Mas o fato é simples, não histórico. Não merece manchetes de jornais ou teorias elaboradas. Respeita um tempo único, próprio dos recomeços. Desafia o espaço, o traçado preciso dos mapas, os limites territoriais. É capaz de provocar gemidos longos e até emoções desencontradas. Mas respeita uma lei universal. Não necessita de tradução, manual de instruções ou bússola. Carece apenas de um pouco de atenção, esmero ao passar uma camisa, cozinhar um alimento, acender uma vela.

O que começo a sentir agora desafia a linhagem de uma dinastia inteira. Atravessa istmos, rompe barreiras, funda civilizações. Não cabe em velhos navios nem no fundo dos oceanos. Mas pode ganhar abrigo numa caixa ricamente adornada, onde antigos amuletos repousam, guardando a memória do mundo. Chamam isso de muita coisa. Prefiro acreditar que tudo não passa de sentimento. Puro e cristalino como o susto e a calma.

Coração na boca:

 

Terça-feira, Abril 27, 2004




É tarde, é tarde...

... o coelho de Alice atravessa o quarto apressado... (a vida é tão rara)... pula na cama, pergunta sem fôlego: como faço para chegar à Escandinávia... e eu penso em fim do mundo, em perdição. É fácil... siga essa rua, depois vire à esquerda. A Escandinávia fica na esquina, perto de uma livraria pequena, quase-de-brinquedo. Ele não escuta, não vê, não percebe. Fixa o relógio que carrega nas mãos e dispara:

é tarde, é tarde.

Coração na boca:

 

Segunda-feira, Abril 26, 2004


Me fechei em copas depois de sua partida.
Quero sorrir, mas a dor não deixa!
Quero acalmar as batidas desse coração. Não consigo.

Ana C. me visita sorrateira na alta madrugada.
Depois me joga na cara coisas do tipo:
-cresça, termine seu mestrado, mude de emprego. Queira mais...

Mas tudo que tenho agora é a memória dos teus olhos e o cheiro nos lençóis.
Melhor não discutir a pertinência do destino.
A comida já não desce. A voz já não sai.

Não quero falar com ninguém.
Não quero acordar hoje.
Não quero.

P.S.: seu pedido aquece os dias frios. Eu disse sim! E isso significa tanta coisa...

Coração na boca:

 

Sexta-feira, Abril 23, 2004


Manhã de azul, azul... eu, ele e ele vamos buscar ela. Truffaut??? Elegia a algo que não se pega? Não se toca... a algo que só se imagina... nem os quatro sabem... só vendo... nas pickups?? Los Hermanos...

Coração na boca:

 

Quinta-feira, Abril 22, 2004


"O mundo é um moinho", ele disse.

Coração na boca:

 

Segunda-feira, Abril 19, 2004




"Se essa rua, se essa rua fosse minha,
eu mandava, eu mandava ladrilhar
com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
para o meu, para o meu amor passar..."


P.S.: ele lembrou da velha canção da infância na voz da mãe, quase audível... e aí viu o anjo!

Coração na boca:

 

Quinta-feira, Abril 15, 2004




- Eu não conheço a Costa do Pacífico... falou e foi andando em direção ao carro, descartando parte do mapa que traçava os caminhos já percorridos.

- E você não me faz tão bem quanto pensa.

Ele não disse nada. Mirava além da paisagem. Lembrou de outros tempos, quando sua grande preocupação era ferver a água para o chá, escolher o próximo livro e ainda a melhor posição pra ficar horas e horas na velha poltrona de forro puído.

Quando decidiu que não teria mais insônia? Não recorda. Apenas obedeceu ao instinto, criou músculos, voltou a beber e a sonhar. Naquela tarde em que deixou a casa e caiu na estrada, não pensou em destino. A companhia veio quase como conseqüência da liberdade. É que vez-em-quando devemos deixar de ter tanto cuidado com o que amamos. Deixar partir?

P.S.: ecos de Neal Cassady e Jack Kerouac que um dia, do nada, optaram por ser livres. E rebeldes.

Sim. "Secretamente, lanço encantamentos para o futuro..."

Coração na boca:

 

Terça-feira, Abril 13, 2004




Dear,

amorosamente te escrevo para dizer que o pequeno corte no dedo cicatrizou. Não. Não é bem isso que quero dizer nesse primeiro contato após a guerra. Depois que os caminhos foram reabertos, pensei em visitar você. Mas tive medo de encontrar a porta trancada e uma coroa de flores anunciando que... mas não vamos falar de coisas tristes, combinado? Olha... eu até emagreci. Pois é... alguns dizem que foi o sofrimento. Eu prefiro pensar que foi força de vontade mesmo. Sempre desejei um corpo mais esguio, onde as roupas não se sentissem intrusas, mas parte harmoniosa do conjunto.

Ontem fui ao cinema. Lembrei de você, embora o filme tenha me parecido açucarado, com gosto de propaganda norte-americana. Tempos estranhos esses. Sombrios. Querem nos fazer acreditar num mundo novo, mas esse fim de década me cheira azedo, nauseabundo. É como se eu tivesse atravessado colinas inteiras para encontrar algo que nunca existiu. Sabe aquela sensação de perda de tempo? Pois é... a outra novidade é que agora temos um rádio. É bom ouvir música e tirar o pé do chão. Você sabe que sempre tive vocação para o sonho acordado... mesmo em tempos assim, como já disse, sem muita luz e desejo e...

Também fui a uma loja sofisticada que abriram no "novo bairro" (é como chamam o outro lado dessa cidade perdida que agora vira as costas para o centro velho, como se tivesse vergonha do próprio passado). A loja é ampla, bem iluminada, decorada com brocados de gosto duvidoso e pesados tapetes verde-musgo. A palavra que mais se ouve agora é "tendedência", como se isso significasse muita coisa.

Eu? Continuo só, acreditando em possíveis promessas de felicidade. Ontem mesmo escrevi isso naquele caderno gasto que você conhece tão bem. Sempre escrevo o que não digo. Na verdade, sou muito melhor escrevendo que falando. Talvez tenha a ver com o signo, como está na moda dizer. No mais, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Espero que você me responda. Não. Espero que você leia essa carta. A resposta vai surgir em pensamento, assim, como deve ser.

um afago,

P.S.: nunca reclamo da falta de atenção. Mas o mistério das coisas reside em compartilhar. Até segredo, pra que assim seja, precisa do ocultamento visível, ou não existe. Portanto, abrindo as gavetas de guardados, me deparei com a antiga fotografia. E sofri com a falta que você faz em mim. É isso.

Coração na boca:

 

Segunda-feira, Abril 12, 2004




Tributo

Foi assim, quase acontecendo, que ele disse:

-ah, se eu pudesse...

E tratou de continuar caminhando, ao longo da vereda, tentando adivinhar o destino. Mais adiante, fumaça nos olhos e um cheiro de perfume barato, comprado no camelô. Ela estava parada, meio velha, meio pálida. Em seguida veio no seu passo trôpego, querendo de algum modo ser salva.

Ele fez que não viu aquela pouca vida se arrastando pela calçada. Continuou a pensar alto em como seria diferente se ele pudesse. Livro de bolso, agonia, porta aberta.

Ana C. e suas frases:

"Que lugar ocupa este desejo de frutas?"

A eterna predileção pelas autoras se transforma em ninho que o protege do frio de uma outra noite. Remoto é o mesmo que distante? Indefinições de um vocabulário subjetivo... e lembrou do valor estético da pontuação, da estilística dos novos autores, da revolução dos bichos.

Continuou a leitura do livro de Ana, uma compilação para iniciantes, recém-lançado:

"Por que a falta de concentração?
Se você me ama, por que não se concentra?"

Nessa hora, uma quase-amiga desavisada lê o pedaço de papel rascunhado e exclama:

-você e ela escrevem assim... com tanto esforço. Acho que não gosto!

Dá de ombros, recorda mais uma vez os olhos de Ana e tenta desaparecer, como ela. Não consegue:

-a vida vivida merece mesmo ser reinventada.

Coração na boca:

 

Quinta-feira, Abril 08, 2004




Dentro da redoma

A vida de Esther Greenwood tomava conta da vida dele. Estranha atração. Um, dois, três, todos os capítulos pareciam espelho fiel dos últimos tempos (quando a loucura é apenas desculpa para a lucidez aflorar sem narcisismo). Depois de muito pensar com os olhos fixados no teto, concluiu:

-cada um tem o Buddy Willard que merece!

P.S: Sylvia Plath entrou na vida dele de forma estranha, num dezembro perdido da década de 80. Ele ainda não era fã incondicional dos Smiths e nem tinha provado qualquer aditivo (físico ou químico) para ficar feliz mesmo estando triste.

Coração na boca:

 

Terça-feira, Abril 06, 2004


Tudo está por acontecer...

Era uma reunião de sentimentos bobos (todos os sentimentos bobos do planeta). Era a fila do supermercado, as contas a pagar e a constatação de que Clarice esteve o tempo todo certa. Para Lóri, personagem central de Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, tudo está sempre por acontecer. E era exatamente assim que ele sentia, naquele fim de noite ouvindo a voz dela: meio-soul, meio-blues.

Vazamento d'água na área de serviço (ecos de GH?) e a eterna inquietação: de onde vinha tanto descaminho? Pensou enquanto dobrava as roupas que se avolumavam na cadeira da escrivaninha. Pensou ainda enquanto tomava mais uma xícara de chá adoçado com mel. Por hora, a única certeza era voltar pro quarto, apagar a luz e acatar a ausência de solução para tantos enigmas: tudo está por acontecer...

Coração na boca:

 

Segunda-feira, Abril 05, 2004


A dor... sem enxergar...

Miss Hecker surfa sobre a dor
numa ponte aérea imaginária... suave como a bruma.
A voz no telefone, a sobremesa no Ritz e o vazio.
Ele achou que tinha preenchido todas as lacunas, num tempo anterior.
Se enganou...

Coração na boca:

 

Sábado, Abril 03, 2004


"E se eu me interessar por alguém?"

Ela diz: você se veste bem, é sofisticado.
Ele pensa: nem falei de jazz...
Caminham juntos sem mirar os olhos.
Nem sabem...
Se perderam...

Coração na boca:

 

Sexta-feira, Abril 02, 2004


Attraction, by Lancôme

Lírio e patchouli, num pequeno frasco. E a dança sinuosa ocupa os espaços. Mais uma taça de champagne, por favor. O olho vem no olho na exata medida da perdição. E de novo aquele sem-lugar toma conta dele: apenas os sentidos... oh, yeah... os sentidos. Toque, cheiro, gosto... o som e a fúria como no livro de Faulkner. É tudo tão completamente amplo, no quarto escuro, perto das janelas e das dobras.

Orvalho, terra molhada, saudade.

Beijou em pensamento a testa da mãe, a mão reinventada do pai e foi deitar. Pronto pra sonhar tudo de novo.

Coração na boca:

 

Quinta-feira, Abril 01, 2004


Conteúdo do primeiro bilhete amassado

Tudo começa (ou recomeça?) meio sem foco, entre os lençóis. A luz no quarto é difusa, como os pensamentos. Voltar... pensa em voz alta. Voltar é um ato de coragem? Não responde, escova os dentes, toma uma ducha, escolhe a roupa. Sim, personagem. Discute amigavelmente com o zelador, tenta entender o diálogo em idiche na porta do prédio. Anda como-que-sem-eira-nem-beira, seguindo o fluxo da calçada. Pausa, espera, revoada de pássaros em plena selva de pedra. Seria isso epifania? Desce ladeiras, dobra esquinas, chega ao platô exausto e olha o infinito rogando uma misericórdia qualquer pra continuar acreditando que vale a pena... todos os dias...

P.S.: "o poder é precisamente o elemento informal que passa entre as formas do saber, ou por baixo delas". (Gilles Deleuze - Conversações).

Coração na boca:

 

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