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Segunda-feira, Maio 31, 2004
Pale Blue Eyes
(The Velvet Underground)
Sometimes I feel so happy
sometimes I feel so sad*
Sometimes I feel so happy
but mostly you just make me mad
Baby, you just make me mad
Linger on your pale blue eyes
Linger on your pale blue eyes
Thought of you as my mountain top
thought of you as my peak
Thought of you as everything
I've had but couldn't keep
I've had but couldn't keep
Linger on your pale blue eyes
Linger on your pale blue eyes
If I could make the world as pure
and strange as what I see
I'd put you in a mirror
I put in front of me
I put in front of me
Linger on your pale blue eyes
Linger on your pale blue eyes
Skip a life completely
stuff it in a cup
She said money is like us in time
it lies but can't stand up
Down for you is up
Linger on your pale blue eyes
Linger on your pale blue eyes
It was good what we did yesterday
and I'd do it once again
The fact that you are married
only proves you're my best friend
But it's truly, truly a sin
Linger on your pale blue eyes
Linger on your pale blue eyes
P.S.: pq tem dias, como os de chuva, que vc se vê perdido numa aléia de Hanói. Sonhando-acordado com outra vida. Tão contraditória e trágica quanto a que vc já tem. Só que real. Sim... e com a delicadeza da flor de lótus.
*O grifo é pra lembrar que sou assim. Serei sempre assim! Não adianta...
Coração na boca:
Sábado, Maio 29, 2004
O lombo de cordeiro marinou desde ontem num leito de vinho tinto encorpado, gengibre, canela, alho e alecrim. Hoje ganhou forno por horas e horas e mel. O arroz com hortelã e nozes. As batatas... sim, as batatas coradas no hálito do manjericão. É isso... transformar melancolia em boa comida... torta de chocolate com creme-chantilly-bem-batido... calda de frutas vermelhas. Transformar a espera em possibilidade de cura. Sabe quando todos os caminhos te escapam e só resta imaginar o corpo como leito de rio onde a vida corre sem cessar, como queria Clarice?
Penso também que escrever é como perder por instantes a razão. Privar-se da busca por respostas em nome do mistério. O cheiro que vem da cozinha, a lembrança de Joana... o devaneio... será que Joana já adivinhava Ana, Angela, Lóri, GH, Macabéa... será que Joana era ela? A cozinha também guarda mistérios de Clarice... e é pra lá que volto agora! Quem sabe?
P.S.: enquanto isso, o telefone toca. É você... que parece adivinhar meus pensamentos de solidão, mesmo longe... compartilhando antigos sambas. Ouvir você já me valeu o dia... sim!
Coração na boca:
Quinta-feira, Maio 27, 2004
- Você sabe se a gente pode comprar um buraco?
- Olhe, você não reparou até agora, não desconfia
que tudo que você pergunta não tem resposta?
(Clarice Lispector/A Hora da Estrela)
Coração na boca:
"Não, eu não posso lembrar que te amei..."
(Herivelto Martins, na música Caminhemos)
Coração na boca:
Quarta-feira, Maio 26, 2004
"Quem é mais sentimental que eu?!!..."
(Rodrigo Amarante, na música Sentimental)
Coração na boca:
Terça-feira, Maio 25, 2004
Delírios de uma tarde de muita febre
Eu passo quase o tempo inteiro escrevendo. Trabalho com a tal da escrita por quase dez horas, todo santo dia. Escrevo em casa enquanto beberico um chá ou café e ainda nos talões de cheque e ingressos de cinema, na penumbra da sala escura, sempre que uma nova emoção sai da retina direto pra imaginação.
Agora voltei a escrever à mão, antes de dormir, como fazia nos anos 80, preenchendo agendas e cadernos sentimentais. A palavra me governa. É intransigente e mandona, vez-em-quando. Chega a ser violenta quando tenta impor sua vontade e pode ser ainda arrebatadora, como um jovem enamorado.
Quando não sai da minha mão, a palavra entra pelos olhos de tantas formas. Pela paixão desmedida da leitura. Vai se enfronhando feito amante ladina, descobrindo escaninhos confortáveis na alma. Uma vez instalada, a palavra se insinua voluptuosa e também dá pistas falsas. Conduz por labirintos que (nem suspeitamos!) podem nos guardar desgraças, finais trágicos, lâminas de punhal.
Mas ela também salva, feito fada travestida de moça sincera. Lança cordas em abismos cavados pelo ressentimento. A palavra também fideliza sua corte através de pactos silenciosos. Aguardamos pois, sua ordem para expressar nosso susto (única possibilidade de libertação, embora sempre parcial). No susto fundamos novos territórios com nossas naus fabulosas. Criamos tempo, espaço, desejo. Reinventamos delicadezas.
E depois caímos mortos, petrificados por seu poder de síntese, de repulsa... tememos a reprovação, mas nada podemos fazer, seduzidos que somos pelo canto da sereia mais bonita... a dita linguagem!
A partir de hoje não será mais permitido aos homens dessa terra: abrir janelas e portas em meio ao muro do passado, soluçar diante de túmulos ou sonhar com a vida eterna. Fechem seus livros, refaçam antigos cálculos e tentem não adivinhar o futuro.
O que mais temo? Não entrar em contato com tudo que já foi pensado antes de mim e depois de mim... e mais as viagens absurdas pelos tantos continentes. Já sei, já sei... por hora me calo, tal a desordem desse mundo. Mas prometi voltar. Um dia eu volto!
P.S.: tudo isso por tentar dizer a ele que ainda tenho pavor de falhar com as palavras e acalento o desejo de ganhar de presente uma outra vida. Mas ele não me ouve. Nunca!
Coração na boca:
Segunda-feira, Maio 24, 2004
Happy Together
Hoje faz um mês! Sim...
quando você me perguntou
na frente do portão daquele
jardim secreto.
(-Você anda vendo filmes demais, já disse!)
Tocamos de perto, em tempos distintos,
a mesma rosa selvagem
daquele drama autobiográfico francês.
E outra vez a voz lembrava que você
havia encontrado a chave...
Sim. Felizes juntos.
Conquista ampla de territórios.
Teu novo reino... (e)terno blue...
(Hoje... eu quero a rosa mais linda que houver... e a primeira estrela
que vier... para enfeitar a noite do meu bem...)
Coração na boca:
Domingo, Maio 23, 2004
Às vezes me vejo como um segredo guardado a sete chaves. Choro sozinho no cinema escuro, com vontade de pegar a mão de alguém e pedir um perdão sentido, desses imensos... sim, eu costumo chorar no cinema com filmes bobos, desses açucarados. Por isso, em meio ao mistério, também posso ser previsível. Mas preciso de bússola, mapas de navegação, um norte qualquer que me dê direção, que não me deixe perder a rota e cair em tentações vazias. Sou tudo isso e sinto que muitas vezes posso doer, de tão grave. Posso sentir desejos colossais, que provocam febre, calafrios...
Posso perguntar uma coisa? Que horas são, agora? Você já pegou as crianças na escola? Não existe nada pior do que ficar esperando pai e mãe que não vêm... ainda mais no frio. Você já notou como as crianças podem ser criaturas tristes? Já parou pra pensar que nem tudo nessa vida fica tão bem explicado quanto deveria?
Pois é... receio que não haja mais tempestades no meio tarde. Cinzas e outros tons pontuando uma paisagem interna. Um desvão. Me falaram que as passagens para Europa estão mais baratas, me falaram que podem ser parceladas em "n" vezes, me falaram... mas eu sempre tive medo de me perder num país estranho. Sempre tive pavor de uma dor-de-dente em Trafalgar Square, sem grana pro dentista que, não tendo condições de entender meu lamento em português, falaria em tom blasé pra eu me acalmar... e eu ficaria com mais dó de mim ainda...
Não gosto de sentir pena de mim mesmo. Sempre fui forte o bastante pra tentar pagar minhas contas todas em dia. Sem depender de ninguém. Nem de você. Sempre disse pra mim mesmo: sobreviva!
Hããã???
É que tenho uma facilidade imensa pra digressões... falo em línguas estranhas, que nem eu entendo... e penso que posso salvar o mundo. Pelo menos o meu, que nem é tão fechado, apesar daquele mistério. Daquele segredo guardado a sete chaves.
Durma agora. Seu marido já foi.
Acho que você não entende nada do que escrevo aqui, não é mesmo? Nada do que escrevo aqui tem a ver com a minha história. Por isso vou repetir com calma: antes eu havia me preparado pra gostar de você. Agora não mais. Pensar que você não vinha no fim da tarde fazia meu corpo doer. Agora não mais.
Porque tudo isso? Porque você não me surpreende mais... não tenta, como fazia antes, adivinhar meus desejos. Ontem, depois que você foi embora sem se despedir, no meio do sonho, reguei as plantas e tomei um copo d'água. Observei as crianças dormindo e olhei pra elas com uma ternura imensa, devotada. Fechei com cuidado a porta e decidi: ninguém pode morrer sem regalias, sem um minuto que seja de felicidade plena!
Por isso resolvi voltar. Me espere. Eu volto...
Coração na boca:
Quinta-feira, Maio 20, 2004
Na galeria
Se uma amazona frágil e tísica fosse impelida meses sem interrupção em círculos ao redor do picadeiro sobre o cavalo oscilante diante de um público infatigável pelo diretor de circo impiedoso de chicote na mão, sibilando em cima do cavalo, atirando beijos, equilibrando-se na cintura, e se esse espetáculo prosseguisse pelo futuro que se vai abrindo à frente sempre cinzento sob o bramido incessante da orquestra e dos ventiladores, acompanhado pelo aplauso que se esvai e outra vez se avoluma das mãos que na verdade são martelos a vapor - talvez então um jovem espectador da galeria descesse às pressas a longa escada através de todas as filas, se arrojasse no picadeiro e bradasse o basta! Em meio às fanfarras da orquestra sempre pronta a se ajustar às situações.
Mas uma vez que não é assim, uma bela dama em branco e vermelho entra voando por entre as cortinas que os orgulhosos criados de libré abrem diante dela; o diretor, buscando abnegadamente os seus olhos respira voltado para ela numa postura de animal fiel; ergue-a cauteloso sobre o alazão como se fosse a neta amada acima de tudo que parte para uma viagem perigosa; não consegue se decidir a dar o sinal com o chicote; afinal dominando-se ele o dá com um estalo; corre de boca aberta ao lado do cavalo; segue com olhar agudo os saltos da amazona; mal pode entender sua destreza; procura adverti-la com exclamações em inglês; furioso exorta os palafreneiros que seguram os arcos à atenção mais minuciosa; as mãos levantadas, implora à orquestra para que faça silêncio antes do salto mortal; finalmente alça a pequena do cavalo trêmulo, beija-a nas duas faces e não considera suficiente nenhuma homenagem do público; enquanto ela própria, sustentada por ele, na ponta dos pés, envolta pela poeira, de braços estendidos, a cabecinha inclinada para trás, quer partilhar sua felicidade com o circo inteiro - uma vez que é assim o espectador da galeria apóia o rosto sobre o parapeito e, afundando na marcha final como num sonho pesado, chora sem o saber.
Franz Kafka, numa tradução de Modesto Carone
P.S.: os grifos são meus! O texto? É uma das narrativas curtas mais poderosas da história da literatura!
Coração na boca:
Quarta-feira, Maio 19, 2004

Em suas poltronas, Virgínia e Bridget esperam o tempo passar: uma com um livro na mão, a outra na televisão
Desabafo com humor
Definitivamente frio intenso não combina com dieta. Bolo quente, café fresquinho, pão de queijo... e como fica o corpo, a mente, a alma depois de tanto descontrole? Ontem, pizza e carinhos-sem-ter-fim... amizade é algo que nos deixa a imaginar céus-estrelados...e ainda mais: afeto pelos mesmos temas, autores, pela mesma arte e visão de mundo. Quero Bergman desenhando uma nova cena repleta de palavras, quero grito, sussurro e aquele olhar complacente de quem entende a ausência de certos códigos fundamentais (vocês são o máximo e os amo por toda a vida)...
Voltando aos problemas com a gula: São Paulo mergulhada na bruma gélida convida você para um passeio contra a balança... e contra o bom senso também. Nessas horas entendo Bridget Jones... e Carrie Bradshaw e todos os personagens mundanos que se matam internamente pela falta de compreensão do mundo.
Mudando de assunto para um parênteses: leio Flush, da Woolf. Vontade de ser cachorro e passear na sala de Robert Browning e Elizabeth Barret Browning, embora continue com minha predileção por gatos e cavalos...
Ontem também teve um momento desconcertante: ouvi uma crítica quase-calado (quase pq nunca consigo ficar totalmente mudo nessas ocasiões) sobre minha "capacidade de transitar entre o trash-pop-cult com a mesma desenvoltura"... pode? Pode sim, e não foi elogio como pensei logo que ouvi a frase, já que depois foi ela complementada com a seguinte pérola: "é incrível como você conversa com todo mundo, gosta de todo mundo e isso acaba jogando todos nós no mesmo 'balaio', sem qualquer distinção"...
A figura que me falou isso é daquelas que acham que, por ler Proust no original, não pode assistir Tróia e ser fã de Sex and The City. Não... eu não leio o autor de Recherche em francês, até pq não passei do primeiro ano de estudo desse idioma. Em compensação aprecio muito estar aberto a tudo que me surge diante dos olhos, seja trash, pop ou cult. Só tenho um grande preconceito: não suporto pessoas preconceituosas sejam elas trash, pop ou cult. E tenho dito!
P.S.: e tudo isso começou pq ganhei dois quilos nas últimas duas semanas...
Coração na boca:
Domingo, Maio 16, 2004
Imagem: Paula Rego
Talvez por ser domingo e os domingos frios quase sempre vêm acompanhados de saudade. Talvez por estar longe de casa, da mãe, do fogo... talvez ainda por sentir saudades do Rio (e de quem está no Rio). O fato é que acordou disposto a arrumar a casa, o quarto, os armários do quarto, a vida. O primo voltou, com seu sorriso amigo e sincero. Jantar na mesa bem posta, comes e bebes, sorrisos afetuosos. Todos cúmplices nessa mania de acreditar na beleza, na transcendência da alma, na remissão de todo e qualquer pecado...
Comida japonesa, capuccino, livraria (ele adora sentar no chão das livrarias e perder-se no tempo do sem tempo provocado pelo cheiro dos livros)... mansidão. É assim, a vida voltando pro eixo, assumindo nova fase, querendo alegria, querendo ser anjo de procissão do interior... querendo o céu aqui na terra...ser feliz!
Coração na boca:
Sexta-feira, Maio 14, 2004
Imagem: Leonilson, que parece desnudar meu coração...
"Eu que já não sou assim
muito de ganhar
junto as mãos ao meu redor
Faço o melhor que sou capaz
só pra viver em paz."
Marcelo Camelo
P.S.: a manhã foi gris, porque o dia se anunciava assim... antes das 5h da manhã, coração apertado, nó no peito... choro travado... até que aos poucos as nuvens foram passando e a tristeza sem nome ou explicação cedeu espaço para a melancolia sentida, para o mundo de dentro que muitas vezes guarda mistérios e tece uns segredos que nem a gente conhece...
Coração na boca:
Quinta-feira, Maio 13, 2004
Ela começou a dançar aos vinte e poucos anos. O pai, um médico que tratava de distúrbios mentais, disse-lhe certa vez que o corpo não mente jamais, por isso costumava observar a forma como seus pacientes se moviam. Ela nasceu em 1840 e revolucionou a dança moderna... desde que comecei a fazer aulas baseadas em seu método, descobri a nobreza dos movimentos, quando os músculos se articulam em linguagem e, de fato, o corpo passa a falar. É a poesia que vem do braço, da perna, do conjunto em harmonia. É a possibilidade de cair e levantar da maneira certa, respeitando o ir-e-vir da respiração... Martha Graham costumava lembrar que o corpo diz o que as palavras não revelam... sim... é verdade!
Coração na boca:
Terça-feira, Maio 11, 2004
"Enquanto não durmo, enquanto te espero..."
Sim, sonho loucamente com o novo disco de Mozza, que já está fazendo a cabeça de ingleses, americanos e brasileiros mais abonados e/ou cyber-capazes o suficiente para baixar algumas pérolas do mais novo lançamento do bardo, You are the Quarry (que deve chegar aqui em um mês).
Stephen Patrick Morrissey entrou na minha vida de maneira definitiva nos 80, fornecendo a trilha sonora para todas as minhas dores de amor. Sua melancolia e desencantamento do mundo embalaram minhas crises existenciais adolescentes e me fizeram tocar a beleza pop definitivamente... assim... quase com a ponta dos dedos.
P.S.: quase esqueci... tem devaneio novo aqui:
Coração na boca:
Segunda-feira, Maio 10, 2004
My dear,
despudoradamente imito a rosa.
Chamando-te my dear, pois, escrevo inspirado nela. Escrevo sobre o Rio que passou em minha vida, como no samba... sempre que penso em você ouço canções, melodias completas... e me entrego intimamente ao encantamento (nessa hora ela lembraria do perigo em ancorar navios no espaço... e eu aquiesço).
Também estou juntando as palavras em carta na tentativa de desvendar: o que aconteceu? O que, de fato, aconteceu entre a madrugada do sábado e as primeiras horas de hoje, segunda-feira, quase meio de maio?
Lembro de ter descoberto que o inverno no Leblon pode ser, sim, quase-glacial, antes de ter você... mas, depois de ter você, pra que querer saber qualquer coisa, não é mesmo?
A verdade é que os fatos se confundem com a matéria pouco plausível dos sonhos. Dito assim parece banal. Mas não é. Estou estudando com afinco o tema tradução, como te falei, na gare, antes da partida.
E aí leio num texto: traduzir do latim traducere significa conduzir além, transferir... pois então: quando falo em sonho não quero perseguir o banal no meu idioma. Ou ser confundido com o típico-romântico-piegas que vê, o tempo todo, flores-em-você.
Não, my dear. É que sonho traduz aqui sedução, desejo, penumbras matinais consentidas por finas cortinas de voal branco, lembra?
A paisagem da janela revelando outro Rio... as músicas nossas pontuando tudo... tua voz, minha vida. Por isso não posso, nessa carta, entrar em detalhes sobre toda beleza daqueles toques roubados em pleno Parque Lage, dos cafés severinos, iguais a tantos nessa vida, como diria João Cabral...
Prefiro não esquecer que, além de amor e letras, esse fim de semana celebrou uma espécie de pacto. Desses que se fecham na memória junto a camafeus, guardanapos e flores secas das caixas de guardados...
te beijo,
G.
Coração na boca:
Sexta-feira, Maio 07, 2004
Imagem do Leblon: Vilmar Madruga
Os Passistas
(Caetano Veloso)
Vem,
Eu vou pousar a mão no teu quadril
Multiplicar-te os pés por muitos mil
Fita o céu,
Roda:
A dor
Define nossa vida toda
Mas estes passos lançam moda
E dirão ao mundo por onde ir.
Às vezes tu te voltas para mim
Na dança, sem te dares conta enfim
Que também
Amas
Mas, ah!
Somos apenas dois mulatos
Fazendo poses nos retratos
Que a luz da vida imprimiu de nós...
Se desbotássemos, outros revelar-nos-íamos no Carnaval.
Roubemo-nos ao deus Tempo e nos demos de graça a beleza total, vem...
Nós,
Cartão Postal com touros em Madri,
O Corcovado e o Redentor daqui,
Salvador,
Roma...
Amor,
Onde quer que estejamos juntos
Multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés
E desvãos do ser.
P.S: a letra da música está postada aqui feito bilhete. É só pra avisar que vou ali, pertinho, ser feliz... é que resolvi não ler o horóscopo, não ler a mão, não voltar pra análise... resolvi ouvir o que vem de dentro. Quase sem escolha ando feliz e triste, como convém ao meu temperamento contraditório. Mas, acima de tudo, selvagem como o vento que bate agora aqui, perto da janela aberta... a mão gelada e o coração sangrando... sim! Vou ali ser feliz... já volto!
Coração na boca:
Quinta-feira, Maio 06, 2004
"Morro de pena de meus personagens. Se eu pudesse, ah se eu pudesse, como facilitaria a vida deles, como lhes daria maior amor. Mas não posso fazer senão lhes dar esperança, e leves empurrões para frente. Só há um livro meu em que o personagem morre no fim. A todos os outros, eu deixo o caminho aberto: é só ter força ou querer passar. É com piedade e resignação que os deixo sofrer: que assombrosa coragem a minha: são filhos meus e no entanto abaixo a cabeça às suas dores. Por isso adio tanto em escrever um livro. Já sei como vou ser torturada e castigada, e como muitas vezes me sentirei impotente. Mas nada posso fazer: tudo o que vive sofre".
Clarice Lispector
Coração na boca:
Quarta-feira, Maio 05, 2004
"A vida sonhada dos anjos..."
Decepção é uma palavra muito feia, ele disse. Depois continuou dobrando os lençóis e apagando as marcas de sangue da parede, do piso de tábuas corridas, de todos os tapetes até a porta da rua, das suas roupas e mãos e memória... mas a mancha invadia tudo. Decepção... pensou de novo. Mirou o espelho, quebrou as expectativas, retirou com cuidado (usando o dorso da mão) uma lágrima que ameaçava manchar a blusa antes impecavelmente branca.
Os cabelos desalinhados caindo na testa. Decepção, decepção, decepção... precisava esgotar a imagem, abortar a raiva, cortar os pulsos desse desejo de matar. E ele matava com facilidade certas lembranças... mas e essa? Como seria agora sem o devido roteiro, sem a devida rubrica, sem as explicações e também os mistérios e tudo mais que até então ia se tornando tão claro? Desligou a TV, abriu a janela... viu o espaço vazio que se abria na cobertura e tentou olhar pra baixo. Mirar o fundo do abismo... décimo quarto andar... ousadia e culpa e...
Antes da queda haveria de pensar mais uma vez na decepção. Mas... quem? Foi então que virou a página. Acendeu a luz. O pé gelado pedia outro pé (ele sempre fixava seu olhar no pé, antes de mirar os olhos). E lembrou do começo. Da ausência de reciprocidade. Foi num dia assim, sem sol, que ele tentou se matar pela primeira vez, desde que soube que...
Não espere: aconteça!
- Hã???
É que já fiz você esperar muito.
- Não. É que nunca havia antes entendido os sinais.
Você está livre, agora.
- Eu sei.
Já sabe o caminho?
- Sim. Vou sobreviver. Nada é irreversível. Nem a descrença...
Seja feliz.
- Tu também. E não me esquece...
Nunca.
- Nunca!
Coração na boca:
Terça-feira, Maio 04, 2004
Sabe aqueles dias em que tudo que você precisa é de menos verborragia e mais ação!!!??? Sim, baby... é disso que eu falo... menos referências POP e mais ACONTECIMENTO! Sou jornalista há anos e anos e, no entanto, agora pareço mais um burocrata rabugento que nunca está satisfeito com nada. Cobra resultados de todos da equipe e quase nunca de si mesmo. Há quinze minutos quase pedi demissão. Pausa, respiro. Não posso fazer isso nesse exato momento. E as contas??? Quem vai pagar depois???
Acabo de receber uma proposta tentadora (mas é só freela); acabo de reservar o hotel onde vou encontrar meu coração no fim de semana; acabo de descobrir que estar-me-apaixonando novamente é motivo suficiente para voltar a dar festas dentro de mim... assim, quase displicente...
P.S.: sim, por enquanto vou esquecer dos problemas aqui no trabalho. Vou mergulhar num azul profundo de calma-calmaria. Não quero por hora os sons dissonantes, os acordes fora do meu compasso. Ouço sambas antigos e sonho com os dias melhores que, com certeza, virão. No fundo, acabou chorare, acabou chorare...
Coração na boca:
Domingo, Maio 02, 2004
Acordo parecendo um personagem de Caio Fernando Abreu. Foi o que pensei enquanto preparava a banheira para mais uma tentativa de salvação. Ele fez uma descrição dura daquele encontro, em plena madrugada (e, de fato, eu havia bebido muito na noite anterior). Ela toma conta de mim, mesmo estando aos pedaços, com o coração costurado. E ontem ainda teve o sorriso iluminado pelo samba na calçada...
Manhã de domingo, ruas desertas. A ressaca me lembra que devo parar agora. Hoje, dois de maio... nenhuma promessa. Apenas a certeza de que vai ser melhor assim. Na verdade, vou ser uma pessoa melhor pra nós dois. Que assim seja então. Levaremos o cachorro pra passear. Na volta, faremos de tudo pra que a permanência seja terna, afetuosa (adoro estar com você e agradeço sua paciência comigo. Não deve ser fácil, bem sei. Mas preparei mais um pote de geléia, caso você sinta fome na travessia).
P.S.1: desculpem pelos telefonemas incompreensíveis. É que nevava e os cães não pararam de latir enquanto não abri a porta do velho estábulo. Quase esqueci de contar sobre a maravilha que aconteceu: descobri que não considero o abandono, solidão. São coisas distintas e distantes de mim. Isso me fez contente!
P.S.2: ouvir sua voz ao telefone é como presente, é como flor. Minha garganta arranha, mas a alma canta doce depois de falar com você, saber do teu dia, contar do meu. Saber que você me espera, que vamos ter um fim de semana inteiro só pra nós... sim. Eu acredito!
Coração na boca:
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