|
Quarta-feira, Junho 30, 2004
Quase-surto
Ônibus, Pinheiros, grupo, surpresa, olho, olho, expectativa, ousadia, suspiro, cansaço, idéias, idéias, discussão.
(Sim, não penso igual a você)
Projeto, nova reunião, futuro, assunto, Ralfo, Sérgio Santana, luta armada, Alfredo Bosi, literatura e missão.
Ônibus, casa, tranqüilidade esquisita, banheira quente, Coltrane, vinho branco, resistência, insistência, Rilke, Dora, Jorge de Lima, Jung, metafísica-constrangida, medo do escuro, sonho, sonho... Mar de Mármara...
Uma manta vermelha e não azul, lençol branco e edredon listrado (lembra?). Muita coisa boa ontem, hoje, muito, muito... intensidade. Não imaginei que... o livro, o livro. É realmente lindo. Garanto. Hãã... ???
Coltrane cala. A rua dorme. O lampião apaga e torna doce as memórias. O dia nasce. A via desce através dos carros rápidos. Os óculos escuros da moça lembram Ana C. que me fita através de um outro tempo, talvez redescoberto. E eu vi, juro que vi... sem miragens, baby...
Como diria Eliot, não, não era nada disso o que eu queria dizer.
P.S.: ainda sobre T.S. Eliot, pra quem não leu, vou deixar uma dica: "The Love Song of J. Alfred Prufrock". Me tirou o sono, mas garantiu o sonho.
Coração
na boca:
Terça-feira, Junho 29, 2004
"Por quê? Não tem porquê. A realidade é sem porquês. Os porquês são nossos".
Dora Ferreira da Silva
in Azougue, 10 anos
Coração
na boca:
Segunda-feira, Junho 28, 2004
Capítulo
Lendo "Hamlet"? No cemitério, à direita, cobriu-se o túmulo de pé
e, por trás dele, brotou um rio azul.
Tu me disseste: "Então
vai para o convento ou casa-te com um idiota..."
Só os príncipes falam sempre assim.
Mas eu me lembro dessas palavras:
deixem que elas flutuem por cem séculos
como um manto de arminho jogado sobre os meus ombros.
E como por engano
eu disse: "Tu..."
Iluminou-se a sombra com o sorriso
suave de meu amado.
Esse é o tipo de deslize da língua
que faz com que todo mundo fique te olhando...
Mas eu te amo, como quarenta meigas irmãs.
Anna Akhmatova
(Kiev - 1909)
Coração
na boca:
Sexta-feira, Junho 25, 2004
Detalhes de um amor que não a quis (ou - não! Nós não desistimos)
Ela fazia questão de dizer que não era uma personagem de Jane Austen. Portanto, não esperava mais pelo seu Mr. Darcy encantado com um buquê de rosas brancas, pronto para tirar-lhe os pés do chão. Ela ainda chora, porém, com as cenas românticas e os amores difíceis. Ainda acredita em promessas de felicidade e detesta pensar que desperdiçou a melhor chance de sua vida, ao dizer não àquele pedido de casamento no passado.
Mas é que ela era tão jovem... queria viver a beleza do mundo... e sua perdição também.
Agora que havia deixado de ser moça, já não sonhava com despedidas lacrimosas em estações de trem, embora permanecesse fiel às possibilidades de outros devaneios (nem sempre realizáveis). Definitivamente já não era uma personagem vitoriana. Mas ainda gosta de receber rosas brancas, sempre ao nascer do sol, como naquele dia daquele verão...
Coração
na boca:
Quinta-feira, Junho 24, 2004
My dear,
não... aqui não chove a cântaros e até o frio resolveu dar uma trégua. Dois meses, hoje. Pensei numa epígrafe citando Ana ou Clarice. Mas preferi postar um cartão com esse pouco conhecido quadro do Hopper (que, como disse, lembra muito você e suas pequenas pérolas de ficção).
Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. Foi o que ela disse? Sim, acho que foi isso. Ela que é nossa emoção conjunta, tornada única num abraço, em plena calçada do Leblon.
Resolvi então, nessa manhã, fazer diferente e me fixar em fetiches do tempo, pensando quase em voz alta enquanto entrevistava editores para um dos próximos programas: pedaço de céu azul em plena metrópole, restos de sol cortando barcos numa paisagem do Rio, ventania que escorre na alma vinda de qualquer cidade do litoral.
Dois meses hoje, dear. E sinto uma falta imensa do cheiro, decifrável apenas pelos meus dentes.
Por isso, ontem, quase meia-noite, refiz um percurso em pensamento: Ataulfo, troca rápida de olhares, calçada do Jobi. Pausa. Respiro. O tempo, sempre o tempo. Miss Hecker cantando só para lembrar que as fantasias, agora, são reais.
te beijo,
aguardando mais um encontro contigo!
Guiu
Coração
na boca:
Terça-feira, Junho 22, 2004
Paula Rêgo
"Navegar então não é preciso, é preciso fazer chover. Dilúvio sem vazão e sem razão.
Chuva dentro e não lá fora. Então, se dentro chove, lá fora faz sol?"
Paulo Venâncio Filho, crítico de arte e professor,
sobre a exposição Morte das Casas, de Nuno Ramos
Coração
na boca:
Alselm Kiefer
Mal Secreto
Depois dos trinta anos, algumas questões antes adiadas com certa displicência passam a fazer parte do nosso cotidiano. Pagar as contas a cada mês (e ter a nítida impressão de que elas sempre aumentam), ser responsável pelas próprias falhas (em todo e qualquer plano), dormir sozinho em noites frias (mesmo com o coração aquecido pela última visita do seu amor), pensar em comprar uma casa própria (e nunca imaginar que essa preocupação "burguesa" um dia fosse fazer parte da sua vida), ler aquele clássico considerado inacessível desde os vinte anos (e que desafia você a cada nova arrumação da estante)...
Outras questões mais pragmáticas ainda passam a invadir nosso universo de preocupações afetivas: relacionamento familiar conturbado necessitando de urgente solução, sobrevivência dos parentes na velhice, ou seja, responsabilidades efetivas com a vida dos outros (que, até então, eram vistos como auto-suficientes).
Você também passa a pensar mais nos cabelos brancos que começam a aparecer (e, no início, você tenta disfarçar) e, para os solteiros, no medo de terminar sozinho, sentimento que passa a acompanhar as noites e os dias, como uma estranha vigília sem qualquer luz ou calor-de-fogo (e muitas vezes esse medo da solidão transparece em cenas bucólicas, como um casal de velhinhos de braços dados atravessando a rua, duas canecas de chá pousadas numa mesa no lugar de uma)...
Depois dos trinta anos, você passa a ouvir mais os Beatles que os Rolling Stones, começa a achar graça em filmes lacrimosos que via na sessão da tarde das décadas de 70 e 80... e faz planos mais concretos para aquela viagem dos sonhos jamais realizada (mesmo sabendo que o câmbio, a ameaça de bombas e o medo de avião são empecilhos tão reais quanto os que impediam esse arroubo aos 20, 25...).
Mas é também nessa fase que você se defronta com alguns fantasmas ameaçadores: a sombra do desemprego, os baixos salários, o mestrado sempre adiado... sim, as luzes da ribalta se distanciam a passos largos dos nossos olhos... nossas miragens são outras (já não seremos cineastas, escritores, cantores renomados)... nosso foco é a chamada "segurança" (tão falsa quanto a tentativa de aprender chinês para ter mais chance no mercado de trabalho no mundo globalizado).
Fica mais difícil, finalmente, encontrar alguém que te diga: -amo você. E, mais complicado ainda, você acreditar nisso sem ter pesadelos de abandono no meio da noite. Passar dos trinta anos faz a gente querer conhecer personagens desconhecidos da nossa mitologia pessoal e universal... tentar ler Tchekov, Artaud, Freud, Joyce e entendê-los... tentar esboçar um sorriso pro outro, mesmo quando por dentro estamos em prantos, loucos de vontade de um colo, um abrigo... uma nova chance pra começar tudo de novo...
Coração
na boca:
Segunda-feira, Junho 21, 2004
Cascos, de Nuno Ramos, vídeo-instalação no CCBB-SP
Embarcação
(Chico Buarque/Francis Hime)
Sim, foi que nem um temporal
Foi um vaso de cristal
Que partiu dentro de mim
Ou quem sabe os ventos
Pondo fogo numa embarcação
Os quatro elementos
Num momento de paixão
Deus, eu pensei que fosse Deus
E que os mares fossem meus
Como pensam os ingleses
Mel, eu pensei que fosse mel
E bebi da vida
Como bebe um marinheiro de partida, mel
Meu, eu julguei que fosse meu
O calor do corpo teu
Que incendeia meu corpo há meses
Ar, como eu precisava amar
E antes mesmo do galo cantar
Eu te neguei três vezes
Cais, ficou tão pequeno o cais
Te perdi de vista para nunca mais
Mais, mais que a vida em minha mão
Mais que jura de cristão
Mais que a pedra desse cais
Eu te dei certeza
Da certeza do meu coração
Mas a natureza vira a mesa da razão
Vai... disfarça e chora... eu? Eu quero um mar brasileiro, uma costa atlântica pra molhar meus pés e salvar minha alma. Quero um terreiro enfeitado, com velas brancas, flores brancas. Quero a febre das fogueiras em noites sem fim. Depois de ter ouvido a linda Embarcação, de 1982, na voz de Fabiana Cozza, lembrei dos Cascos de Nuno Ramos, no CCBB, da casa que chora, do lamento.
Decepção surda. Tum, tum, tum... é som do coração?? Não baby... é a batida do tambor de crioula, me chamando para a iniciação, para o desapego, para a entrada num outro mundo menos brando. E a peça? Pura pretensão... sabe quando você se sente enganado depois de cinco horas de clichês mal-costurados?
Duas noites seguidas de sonhos-pesadelos repletos de significados, lençol molhado de suor em plena estréia do inverno... dor, quatro, três, dois, um...
P.S.: não esquecer -hoje acordei com disposição mínima para falsas misericórdias.
Coração
na boca:
Sexta-feira, Junho 18, 2004
"Nossos versos são banais..."
Dia desses revi parte do acervo. Imenso. Uma história contada ora em branco e preto ora em colorido de mil tons. Mutantes, os meninos do Clube da Esquina... Chico. Depois fui ler os escritos. Dias e dias passados a limpo com letra tão caprichada, diferente da minha. Ontem, o lírio perdeu algumas flores e ganhou outras. Enfeita a cena dos próximos capítulos. E eu me vejo, de novo, irremediavelmente encantado com as minhas contradições.
P.S.: pq têm dias em que não precisamos muito de entendimento. Viver, como ela disse, ultrapassa... e o frio cedeu lugar ao sol... e eu estou feliz, como há tempos não ousava... só isso!
Coração
na boca:
Quarta-feira, Junho 16, 2004
Mambembe
(Chico Buarque de Hollanda/1972)
No palco, na praça, no circo, num banco de jardim
Correndo no escuro, pichado no muro
Você vai saber de mim
Mambembe, cigano
Debaixo da ponte, cantando
Por baixo da terra, cantando
Na boca do povo, cantando
Mendigo, malandro, moleque, molambo, bem ou mal
Escravo fugido ou louco varrido
Vou fazer meu festival
Mambembe, cigano
Debaixo da ponte, cantando
Por baixo da terra, cantando
Na boca do povo, cantando
Poeta, palhaço, pirata, corisco, errante judeu
Dormindo na estrada, não é nada, não é nada
E esse mundo é todo meu
Mambembe, cigano
Debaixo da ponte, cantando
Por baixo da terra, cantando
Na boca do povo, cantando
P.S.: pq seu aniversário de 60 anos está chegando. Pq qualquer homenagem seria apenas lembrança perdida em escaninhos e páginas de livros. Pq tudo que eu diga, pense ou fale fica pouco, fica simples, fica nada diante de tanto sentimento... e sentir ainda é a parte que eu mais gosto dessa história toda... apesar da dor, dos abismos e do mistério que ronda cada prisma... mas que também acaba tornando mais sincera a conquista!
Coração
na boca:
Domingo, Junho 13, 2004
Minha vida em azul
A água da banheira corria espaçosa: azul, azul com algas azuis luzindo o meio do mundo. E tudo não foi mais como era antigamente. A delicadeza através dos seus olhos, a música francesa adivinhando Paris... o vinho, o frio, o samba... existirmos, a que será que se destina?
La vie en blues... todos os blues... pra sempre...
Coração
na boca:
Quarta-feira, Junho 09, 2004
Quando chorar
Clarice Lispector
Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.
Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.
Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar.
(in A Descoberta do Mundo)
Coração
na boca:
Terça-feira, Junho 08, 2004
Imagem: Leonilson
"Não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim"
Ana C.
P.S.: eu sou indisciplinado, preguiçoso, pouco claro, ríspido, contraditório, emocionalmente instável, irritado, emotivo, melodramático, exagerado, pouco indulgente, amargurado, cheio de medos, um poço de insegurança. Eu sou também imprevisível, sarcástico, irônico, exigente, rigoroso, excessivamente crítico e egocêntrico. Mas, "eu não sei viver sem ter carinho: é a minha condição!". E para quem acha que me conhece muito, aqui vai uma dica: vez-em-quando, sou puro simulacro. Uma espécie de chuva sentimental de pensamentos desencontrados... mas quando eu amo, me entrego. Sem cuidados, sem amarras... "barco embriagado ao mar..."
Coração
na boca:
Domingo, Junho 06, 2004
"Quem sou eu e quem é você nessa história?"
P.S.: a foto das raízes aéreas do mangue, que ilustra a frase pop dos 80, foi tirada nas Alagoas, minha terra distante. Pra lembrar que a cura também acontece pelas imagens-palavras, pela crença em dias e em tempos melhores...
Coração
na boca:
Sábado, Junho 05, 2004
Declaração de amor no café da manhã...
Falar com você logo cedo tem o poder de transformar meu dia, sabe? Fazer planos, ler poesia, dar risada... é disso que é feito um namoro? Pensar no cheese cake que vamos tentar fazer a quatro mãos no sábado. É isso?
Sim.
E lembrar de você sorrindo e até chorando justifica esse sentido todo que vai se abrindo bem aqui, no meu peito. Acho que é assim... sem muitas tentativas de explicação, sem qualquer teoria mirabolante: você existe em mim. E por isso mesmo vou procurar fazer tudo bem feito... sem sombra de sacrifício, sem ruga na testa, sem dramas. Só porque você existe. Desse jeito...
P.S.: mudei a trilha sonora. No lugar da triste melodia em inglês, o que ilumina a sala agora são antigos sambas, desses que você canta, desses que deixam você mais perto...
Coração
na boca:
Sexta-feira, Junho 04, 2004
Madrugadas assim... sim!
(Créditos: a primeira foto foi com a web cam da Gabby... a segunda, flagrada pelo Vítor)
Coração
na boca:
Quarta-feira, Junho 02, 2004
"Onde queres revólver: sou coqueiro!"
Popular e erudito, o amor das três graças subverte tempo e espaço. Fala de perdição e de desejo e de coragem, celebrando o essencialmente belo. Não é o teu rosto que eu miro: é a vontade de pertencimento. O meu foco narrativo se perde em você. Minha madrugada é tarde, é fria... e distante. Minha madrugada está situada numa outra década.
P.S.: quem tiver oportunidade, não perca! Filme de Amor, do Bressane, faz a gente levitar...
Coração
na boca:
|