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Sexta-feira, Julho 30, 2004
Se a gente lembra só por lembrar
De um amor que a gente um dia perdeu
Saudade entonce assim é bom pro cabra se convencê
Que é feliz sem saber pois não sofreu
Porém se a gente vive a sonhar
Com alguém que se deseja rever
Saudade entonce assim é ruim eu tiro isso por mim
Que vivo doido a sofrer
Ai quem me dera voltar
Pros braços do meu xodó
Saudade assim faz doer e amarga que nem jiló
Mas ninguém pode dizer
que vivo triste a chorar
Saudade o meu remédio é cantar
Saudade o meu remédio é cantar
(Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)
P.S.: a música que mais lembra meu pai e minha mãe juntos, abraçados, dançando. Memória recorrente os dois, unidos, passionais. Amanhã o reencontro promete ser doce e saudoso. Tudo mudou. Mas o aconchego de um lar nordestino é capaz de qualquer cura. É fogo que não apaga, é brasa que nunca dorme: pura lembrança de tardes e noites de inverno na calçada. Que assim seja!
Coração
na boca:
Terça-feira, Julho 27, 2004
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal
(Ana Cristina Cesar)
P.S.: pq em dias e noites de frio intenso, é preciso aprender a separar as coisas. Portas abertas, vinho tinto, um pedaço pequeno de queijo de boa qualidade. E a escuridão de uma sala que se abre para rua movimentada e pouco clara, repleta de árvores, tão longe do mar. A vizinha que toca piano me encarou na escada e sorriu cúmplice. Fiquei com medo. Será que fui descoberto? O filme, a despeito de tolas considerações, pode não ser apenas um filme. Mas um chamado. Em dias e noites de frio intenso, é preciso se aproximar dos mortos, reverenciar suas verdades para depois esquecê-las e acordar de madrugada sem sono, aprendendo de uma vez por todas que certas experiências são fatais.
Coração
na boca:
Domingo, Julho 25, 2004
Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sai perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim? Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades*. Mas às vezes (...) tenho esperança. A passagem da vida para a morte me assusta: é igual como passar do ódio, que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.
Você foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira, era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando no seu berço tosco. Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que o meu presente de aniversário foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.
Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei a tarde de autógrafos.
Sua, Clarice.
P.S.: carta de Clarice Lispector para sua amiga e colaboradora Olga Borelli, que escreveu o importante: "Clarice Lispector: esboço para um possível retrato" (Ed.Nova Fronteira/1981).
* Os grifos são meus.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Julho 22, 2004
Ângelo Madureira no espetáculo/Foto:divulgação-CCSP
Quando o Oriente desembarca no porto de Salvador, Recife, Maceió, Belém...
Colchão, cobertor, travesseiro com motivos japoneses. Um corpo, sinuosidade, o estrangeiro de si mesmo abrindo espaço pro lirirsmo através de movimentos e sons... diversos. Aos poucos, Norte e Nordeste do Brasil se fundem a esse Oriente imaginado e quase mítico. São apenas considerações, esboços de palavras para tentar traduzir o espetáculo solo "Delírio Remix", de Ângelo Madureira, com músicas de Antúlio Madureira.
Num dos momentos mais sensíveis, sombrinha de frevo na mão, o espectador pensa no óbvio. Mas o bailarino subverte a ordem imaginada e apenas contempla o pequeno objeto. Como numa cerimônia do chá... tão ancestral quanto os sons nordestinos que nasceram das fábulas ibéricas. O "sonhador" como é denominado o silencioso e solitário personagem, não se contém diante das imagens. Mas extrapola cada uma delas... com graça, força e acima de tudo, simplicidade. O espetáculo segue até o dia 25, próximo domingo, e recomendo para quem está em São Paulo. Acontece no CCSP e custa apenas R$ 5,00.
Coração
na boca:
Quarta-feira, Julho 21, 2004
"Ich sterbe" *
O médico e escritor Moacyr Scliar (brasileiro de origem russa), em recente artigo na Folha de São Paulo, lembrou que esse julho de 2004 marca o centenário da morte de outro médico e escritor (russo legítimo), Anton Tchekhov. Tenho tido a oportunidade de reler os contos desse verdadeiro mito (e aqui nem tenho dúvidas em usar ou não no meu texto, adjetivações) da literatura e do teatro modernos e posso afirmar com convicção: trata-se de uma das dicções literárias mais impressionantes da virada de séculos XIX/XX, conciliando ciência e humanismo, lógica e devaneio. Pra terminar, lembro que a Cosac & Naify acaba de lançar nova edição da peça A Gaivota, um de seus clássicos teatrais, com tradução direta do russo feita por Rubens Figueiredo e sobre a qual setenciou o próprio Tchekhov: "trata-se de quatro atos, uma paisagem, muita conversa sobre literatura, pouca ação e cinco arrobas de amor".
* "Estou morrendo", frase dita em seus últimos momentos, ao médico que o acompanhava. Moacyr Scliar lembra ainda que, pouco antes de cerrar os olhos, com febre, o escritor impediu que sua mulher, Olga, lhe colocasse um pouco de gelo sobre o peito, dizendo: "aqui há somente um coração vazio".
P.S.: post inspirado em alguém que também se dedica à medicina e à literatura e ama Tchekhov!
Coração
na boca:
Terça-feira, Julho 20, 2004
AS IDADES DE ZENÓBIA
Aos dezoito anos, Zenóbia tinha olhos ávidos e não usava óculos. Os cabelos, de um preto instável, pendiam em breves ondas sobre os ombros. Seu corpo magro lhe impunha uma fragilidade que não tinha. Sorria sempre como se escondesse a face sob as sombras.
Aos trinta e dois anos, Zenóbia tinha olhos óbvios e ainda não usava óculos. As maçãs do rosto, de um rosa rubro, quase que encobriam o nariz miúdo. Os cabelos, reclusos. Uma linha -quase ruga- trazia à testa um ar de austera brandura. Mas nenhuma dureza no conjunto, nenhum escuro.
Aos quarenta anos, Zenóbia tinha olhos sóbrios e passou a usar óculos com aros de tartaruga. Os cabelos, curtos. O risco na testa, agora um sulco. Seu vulto era raro. O sorriso esquivo: seu ponto de fuga. Uma incerta elegância a tomava, quase absurda
Aos cinqüenta e oito anos, Zenóbia tinha olhos sólidos, sob os óculos de lentes turvas. No susto da idade aprendeu que ainda era cedo e quis experimentar tudo. Nos cabelos cinza, nenhum sinal de pejo. Imune ao peso do mundo, ela parecia não ter culpa ou medo.
Aos setenta e quatro anos, Zenóbia tinha olhos estóicos por detrás dos óculos de hastes curvas. Trazia o cabelo de nuvem rente à nuca. E apesar do luto, não perdia o lume. De tudo, mesmo das coisas soturnas, sabia extrair o sumo. Sua vida era o resumo de seu nome. Todos diziam que não morreria nunca.
Aos oitenta e dois anos, Zenóbia parece ter setenta e quatro. Os olhos, sob as lentes sem aro, estão ilágrimes. Os cabelos, ralos, de um branco insone. Já não há dor ou noite para a sua alma, é claro. Na aura da idade, já sabe quase tudo. E todos já pensam que ela é um milagre. Ou um sonho.
Dona de uma prosa-poesia singular, Maria Esther Maciel, a mineira autora de O Livro de Zenóbia (Editora Lamparina, 2004), encanta pela originalidade. Inventa (ou gera como mãe-parideira?) uma personagem para em torno dela criar um mito da simplicidade. Zenóbia não tem o mistério de Clarice, a beleza de Cecília ou as dores de Florbela... mas amou o mundo e os seres viventes, por isso seu livro e sua viagem através de nós. Recomendo!
Coração
na boca:
Segunda-feira, Julho 19, 2004
Talvez seja pela tonalidade do filme (não sei como é a cor do passado, mas para mim ela se revela nos tons desses filmes água-com-açúcar de antanho), talvez pela interpretação que mais parece dramatização. Ou pela história mesmo, que de tão inverossímil nos faz achar lugar confortável no sonho. O fato é que An affair to remember ou, entre nós, Tarde demais para esquecer, atravessa as décadas cumprindo a sua missão de clássico lacrimogêneo, mas com uma competência (diria até subjetiva, no meu caso) que lhe garante lugar cativo entre as minhas reprises prediletas.
A história é manjada: playboy internacional comprometido (Cary Grant) se apaixona por cantora da noite também comprometida (Deborah Kerr) em viagem de navio. Após trocarem juras de amor, marcam encontro no topo do Empire State Building, seis meses depois. Tragédia, desencontros, desencantos, reencontros amargos, troca de farpas, até o final feliz... (ou quase).
Melodrama (dos bons) à parte, o filme de 1957 é uma refilmagem de Love Affair, de 1939, conduzido pelo mesmo diretor, Leo Mcarey e também mereceu citação apropriada em Sleepless in Seattle ou Sintonia de Amor, um típico Norah Ephron de 1993. Indicada ao Oscar de Melhor Canção Original, An affair to remember (de Harry Warren) ainda embala sonhos (e desilusões) de muitos corações nesse conturbado e pouco claro século XXI...
P.S.: sim, é pra ser assistido em fins de tardes sonolentas e frias, com uma xícara de chá aquecendo o coração e as lembranças de futuros reencontros. Sim, sim... o futuro merece esse tipo de recordação antecipada!
Coração
na boca:
Sexta-feira, Julho 16, 2004
Eu tenho um problema com livros. Quer dizer, eu tenho um problema com o estado físico dos livros. Quero cuidar deles como quem cuida de uma planta ou de outro ser vivente qualquer que necessita de cuidados. Quando um livro, por capricho, se dobra, eu sofro. E quando encontro algum abandonado? Pedindo dono? Adoro livro bem cuidado, cheiroso, esmerado. Gosto de tocar em suas folhas como quem acaricia a face do ser amado, gosto de pensar que, ele estando comigo, está seguro.
Tenho medo que o livro se perca, se solte de mim. Que peça pra sair sozinho e não volte. Que dê a mão a um estranho e se encante por ele, mais que por mim. Por isso acho que minha relação com o livro beira a neurose. Meus livros podem viver sem mim? E eu? O que farei sem eles?
Coração
na boca:
Quinta-feira, Julho 15, 2004
Já passa das 10h da noite... o Rô sabe o que eu quero do novo layout do blog, me prometeu pra ontem... papo, emoção e interlúdio no Baixo Augusta... Gabby e Vítor ligam... a proposta é caruru da madrugada... topo, avanço. Quintane, Ramoneda, Clarice e Ana C. iluminam essa possibilidade de noite insone... mais uma... que seja!
Coração
na boca:
Fui vítima de uma fraude bancária, via Internet, que ultrapassa os dez mil reais. Sufoco, insônia, burocracia e eles (do banco) prometem resolver o pepino em tempo hábil, mas... sabe quando TUDO entra numa onda pesada demais e vc precisa respirar??? Então... é isso!!!!
Coração
na boca:
Marcelo, HR, Juli, Mari, Luise, eu e Felipe
Sob o céu de Paraty
O encontro é a forma mais simples de confirmação de alguns afetos... aqui não foi diferente, por isso o encontro na linda cidade foi inesquecível... por tudo, mas principalmente por nós!
Coração
na boca:
Quarta-feira, Julho 14, 2004
Bom, finalmente volto a ter coragem (e vontade!) para escrever alguma coisa! Na verdade para escrever esse que será o último post confessional desse blog. Sim, pq o Coração Selvagem passará por mudanças estruturais em breve. Mais precisamente amanhã irei à cada do Rô com esse propósito.
Depois dos dois péssimos-últimos-dias voltei a me alimentar decentemente. Tb enchi a banheira hj às seis da manhã para um banho de quase duas horas (sim, Sampa continua fria, mas segui o conselho da Gabby e levei meu aquecedor pro banheiro e como ela já havia cantado a bola, deu super certo).
Não, não tenho dormido bem. Depois que soube da morte do Leo com uma semana de atraso, fiquei sabendo que uma antiga professora tb sucumbiu ao câncer, aos 50 e poucos anos... lógico que nessa hora tudo que vc mais quer é sumir do mapa por um tempo, né? Mas... não pude. Por isso tratei de tomar um porre de vinho tinto na segunda, chorar ao telefone alugando alguns bons amigos (e o meu Amor) e depois acordar com cara de quem quer sumir do mapa por um tempo... mas não pode!
Well... hoje, quarta antes de quinta e depois de terça, as coisas começam a tomar seu curso aparentemente normal de novo. Ontem fiz misérias na FNAC (sim, um dia ainda irei preso por desacato ao cartão de crédito)... e me dei de presente alguns objetos de desejo... mas disso falarei depois, com calma... hj também voltei às aulas da Karina... tudo que eu precisava na vida era relaxar de novo ao som daquelas músicas lindas do Mawaca e a suavidade dos movimentos criados por minha amiga coreógrafa...
A TV continua o mesmo marasmo de sempre, Sampa continua cara pra dedéu e eu entro num período de merecidas férias em 15 dias... Maceió me espera com seu sol, seu mar e seus problemas. Mas estou com enorme saudade de minha família, daquela casa linda no bairro do Farol e dos trajetos conhecidos... é isso. Voltei!
Coração
na boca:
Segunda-feira, Julho 12, 2004
Luto
Hoje eu pensei que escreveria aqui sobre alegria. Principalmente sobre a alegria de viver e a capacidade de ser feliz independente das intempéries que surgem nos horizontes de cada um de nós vez-em-quando. Pensei em escrever sobre o meu amor e a expansão dele nesses últimos dias, sobre os antigos amigos que revi e novos afetos que foram conquistados em apenas uma semana.
Rio de Janeiro, Paraty, Flip, alegria e vontade. Vontade de potência, que muda os rumos, altera o fluxo dos rios.
Mas não posso. Não hoje. Escrevo essas palavras chorando por dentro e por fora. Pausa. Respiro.
Ao chegar hoje à redação, recebi a notícia da morte estúpida de um leitor desse blog, jornalista como eu. Leonardo Blaz Cicoti, 26, levou um tiro na cabeça, durante um seqüestro-relâmpago, aqui em São Paulo. O Leo era leitor silencioso do Coração Selvagem. Deixava poucos comentários no espaço para comentários, mas me escrevia e-mails. Longos e-mails. Trocamos idéias sobre cultura, sobre gente, sobre jornalismo, sobre vida... sim, sobre vida. A sobrevida de Leo era quase uma certeza de sucesso brilhante. Sabe aquela pessoa destinada ao brilho criativo de quem sabe exatamente o que quer? Era ele...
No último e-mail o Leo me disse que acessava o computador até aos domingos, para ler as novidades (quando havia) do meu fim de semana. Nas minhas fases mais absurdas, ele vibrava com certa coragem de me expor ao perigo e "viver todas" tomando emprestado aqui as palavras dele. Conheci esse moço sensível e inteligente através do Coração Selvagem e é através dele que rendo essa homenagem.
Leo, não acredito muito em nada, você sabia disso. Por isso não consigo enxergar outro lado, outra vida ou um Deus misericordioso e bom. Mas quero te acolher aqui dentro. Tua memória e nossos intermináveis telefonemas e nossas trocas de e-mails vão ficar marcadas, pra sempre, na minha história!
COMUNICADO OFICIAL
MISSAS PELA PAZ, CONTRA A VIOLÊNCIA, PELA VALORIZAÇÃO DA VIDA E EM MEMÓRIA DO JORNALISTA LEONARDO BLAZ CICOTI SERÃO REALIZADAS SIMULTANEAMENTE EM SÃO PAULO E NO RIO NESTA SEGUNDA-FEIRA (12/7), ÀS 12 HORAS.
EM SÃO PAULO, O ATO RELIGIOSO SERÁ NA CATEDRAL DA SÉ, PALCO DAS GRANDES MANIFESTAÇÕES DA CIDADE. NO RIO DE JANEIRO, A MISSA SERÁ CELEBRADA NA IGREJA SÃO JOSÉ DA LAGOA.
POPULAÇÃO PODE MANIFESTAR-SE PELA PAZ E CONTRA A VIOLÊNCIA JOGANDO PÉTALAS DE ROSAS BRANCAS DAS JANELAS DE CASAS E EDIFÍCIOS COMERCIAIS E RESIDENCIAIS ÀS 12 HORAS DA SEGUNDA-FEIRA.
INDIGNAÇÃO E COBRANÇA DE MEDIDAS URGENTES CONTRA A VIOLÊNCIA NO PAÍS SE REPETEM NAS MENSAGENS DE SOLIDARIEDADE PELA MORTE DO JORNALISTA.
Coração
na boca:
Quarta-feira, Julho 07, 2004
Cada vez mais apaixonado e escolhendo trilhas de amor...
Se tudo pode acontecer
Arnaldo Antunes, Paulo Tatit, Alice Ruiz e João Bandeira
Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer
qualquer coisa
um deserto florescer
uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer
e acontecer de ser você
um cometa vir ao chão
um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando
de mão dada
de qualquer maneira
eu quero que esse momento
dure a vida inteira
e além da vida
ainda de manhã
no outro dia
se for eu e você
se assim acontecer
Coração
na boca:
Terça-feira, Julho 06, 2004
Eu sempre quis o Rio de Janeiro além da paisagem. Ontem, atravessando a ponte Rio-Niterói ao seu lado, pude perceber que existem metáforas e metáforas nessa vida. Ponte-passagem, ponte-paisagem... o que será de tudo agora???
O nome da cidade
(Caetano Veloso)
Onde será que isso começa
A correnteza sem paragem
O viajar de uma viagem
A outra viagem que não cessa
Cheguei ao nome da cidade
Não a cidade mesma espessa
Rio que não é Rio: imagens
Essa cidade me atravessa
Ôôôô êh boi êh bus
Será que tudo me interessa
Cada coisa é demais e tantas
Quais eram minhas esperanças
O que é ameaça e o que é promessa
Ruas voando sobre ruas
Letras demais, tudo mentindo
O Redentor que horror, que lindo
Meninos maus, mulheres nuas
Ôôôô êh boi êh bus
A gente chega sem chegar
Não há meada, é só o fio
Será que pra meu próprio Rio
Este Rio é mais mar que mar
Ôôôô êh boi êh bus
Sertão ê mar
Coração
na boca:
Sexta-feira, Julho 02, 2004
auréola desastrada
tropeça
e arranja briga
com o céu
Luiza Leite
in Rasuras n'água - Azougue Editorial
P.S.: não parei um segundo desde o início da manhã. Tempo, tempo, tempo... tô correndo pra ver meu amor, pra ler junto, caminhar junto, dividir o horário de uma ou outra refeição, o céu do Rio e depois... depois Paraty. Pensei em falar de coisas invisíveis hoje. Mas não tem como... pautas, roteiros... a redação fervilha. Vida de jornalista-apaixonado-ancorado-entre-portos... adiantei entrevistas, apressei contatos, negociei prazos, tudo por uma semana à toa, livre de grilhões... uma semana pra mim... pra nós.
Coração
na boca:
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