<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="1252"%> Perto do Coração Selvagem

Terça-feira, Agosto 31, 2004


Já atravessamos um inverno quase inteiro...

Domingo, 23h

Dengo se embola no edredon amassado, se aninha entre as minhas pernas e tenta alcançar, com as garrinhas afiadas, as páginas do livro que estou lendo. Vez-em-quando me permito deixar a leitura de lado e faço-lhe afagos, deixando que ele me cubra com seus carinhos-quentes.

Segunda, pois já passa muito da meia-noite

O gatinho dengoso dorme no lado direito da cama, a cabeça quase encostada num travesseiro de propriedade já definida, anterior a ele. Explico, quase sussurrando, que essa folga vai acabar semana que vem, por alguns dias, quando aquele lado da cama voltará a ser ocupado por quem de direito.

Falo que a entrada no quarto não está vetada, assim como o acesso ao ninho já tão dele. Mas ressalvo que deverá ter bons modos e se comportar com menos desleixo. Disse-lhe também que procure causar boa impressão. Afinal, ele pode vir a crescer também sob esse outro olhar atento e generoso.

Seus olhinhos cinza-quase-azuis se abrem agora e me fitam assustados e com sono, diante do amontoado de palavras ditas assim, baixinho. Mas logo pula sobre mim, algo cúmplice, algo como que dizendo: entendi. Serei um bom filho!

Terça, quase 10h

Desde que Dengo entrou na minha vida, a espera se tornou menos penosa. Ainda dói pensar que faltam meses para o fim da Odisséia. Mas persisto insistente costurando com a linha do destino. Além disso, o seu lado da cama permanece aquecido pelo corpinho exíguo, mas latejante. O manhoso já entrou na nossa vida como quem cuida: afetuoso, companheiro, subjetivamente agregado. Isso me dá mais compreensão sobre o invisível das coisas.

P.S.: li algo sobre a vibração que vem dos interiores vermelhos de Matisse e lembrei do tanto que gosto dele. Preciso rever algumas imagens que marcaram profundamente alguns instantes, preciso sim!


Coração na boca:

Domingo, Agosto 29, 2004

Junkie

Pq o dia seguinte é sempre tão difícil, principalmente quando é domingo?

P.S.: e vc? Nunca se abala? Eu não entendo. Vou ficar assim então... no Grupo Corpo toquei a crueldade das despedidas, na pinacoteca senti a terra tremer e o céu se agitar. "Isso é só o começo..."

Perto do coração selvagem existe um moinho...

Coração na boca:

Sexta-feira, Agosto 27, 2004


Guiu e o Gato

Era uma vez... não! Deixa eu tentar contar essa história sem tantos clichês. Numa visita fora da rota a São Salvador, fiquei hospedado na casa de três personagens de Tchekhov. Não, não... três personagens de autores distintos, cada um com sua melodia, cada um com seu quarto alegre ou triste, de acordo com os dias e as noites e a predominância do sol ou da chuva. O fato é que, naquele apartamento, uma paz qualquer sobrevoa e paira sobre quem entra sorrateiro, feito gato.

Eis que falo a palavra: gato. Pensei em Ana C., no Ferreira Gullar, no Jorge de Lima, na amada Dra. Nise. Pensei em todos que foram, são, serão devotados aos felinos. Pensei mesmo, enquanto os via, em número de três, rondando minhas pernas numa espécie de rito da minha passagem por lá. Mas não era isso. Seria, dali por diante, iniciação.

Um gato nascido provavelmente em maio, se aproxima com mais afeto que os outros. Procura meu colo, me escolhe. Em matéria de amor nessa vida, nunca escolhi muito bem... sempre fui escolhido. E, a partir daí, acatava com força aquela somatória de coisas que vai do primeiro olhar ao sim definitivo.

Soube depois que o nascimento desse gato foi cercado por mistérios. Vinte e quatro horas depois de dar à luz um primeiro filhote, a linda dama (com olhos indefinidos e oblíquos como os de Clarice) sofria. Gil e Chico tomaram a decisão certa de intervir. Fizeram um parto difícil de um gatinho que julgavam morto. Era ele. O predestinado a mim, aquele que se transformaria numa espécie de amuleto dos meus dias tristes (e mais ainda dos alegres).

Pois bem. Nos conhecemos numa sexta e passei desde então a chamá-lo de Dengo (na verdade, meu Dengo, com esse pronome possessivo revelando todo meu ardor a quem de fato amo). Passamos um fim de semana juntos e, na segunda, começo a peregrinar por sua viagem a São Paulo. Primeiro uma visita à veterinária, enfrentando as ruas pela primeira vez, coração acelerado, vontade de pular do colo do Tio Chico para, quem sabe, tomar rumo desconhecido. Seria esse, no fundo, o destino dos gatos? Voltemos: vacina, testes, atestado. E a notícia: ir à sede do Ministério da Agricultura na Bahia obter seu passaporte. Chegando lá, de bermudas, não avancei da portaria. Faltava pouco tempo para o nosso embarque.

E aí, como quem tem o coração quebrado por uma pedra, resolvi não chorar e ser quase artista, malandro ou qualquer outro anjo torto das canções de Chico Buarque. Subornei um auxiliar de limpeza e, por 10 reais, vesti sua calça nos fundos do imponente prédio. Em vinte sofridos minutos estava com a guia de autorização na mão. Ainda faltava a casinha com medidas exatas para o transporte e a boa vontade do pessoal da Varig para deixar que ele fizesse o embarque sem reserva prévia.

No fim de algumas horas, estávamos ambos sentados, quase em pânico, num avião que nos traria pra casa. Nossa casa. E nem isso foi fácil. Ainda demoramos uma hora para atravessar a cidade, brigando com o sistema de transporte especial de ônibus que liga o aeroporto ao centro. Ufa! Depois de tudo isso ainda me emociono lembrando de como foi tirá-lo daquela clausura e libertá-lo para que ele tomasse posse definitiva de seu território. Suserano de um reino de dimensões mínimas, quase um pequeno príncipe com sua rosa, vulcões e baobá.

Lembrei que tudo isso pode virar um dia uma linda história. Nossa história de amor que está apenas começando...

Coração na boca:

Terça-feira, Agosto 24, 2004


"Me dê notícias de você..."

Lembrando a música do Chico Buarque passo rápido aqui pra deixar pegadas: depois de Maceió e Salvador, voltei pra Sampa com uma nova paixão. Um amor também do Oriente, dessa vez, do Sião. Ele é lindo, de olhos gris e se chama DENGO. Depois desse lindo post clandestino do Chico, lembrei que ontem, dia 23 de agosto, o Coração Selvagem fez dois anos! Isso mesmo. Sem saber, ele acabou celebrando o blog. Problemas no computador de casa me impedem uma atualização mais constante. Assim que der, volto pra contar a "saga do Dengo". Por enquanto, vou ouvir uma música antiga e triste, lembrar do meu amor que está distante, sempre rogando pra que "imprevistos bons aconteçam"!

Coração na boca:

Segunda-feira, Agosto 23, 2004


Post clandestino



Eu preciso dizer que te amo.

Eu preciso dizer que te amo?

Bem, Guiu, não espere um texto sobre meu velho e repetitivo discurso de "irmão escolhido". Seria pouquíssimo criativo entrar aqui neste espaço para escrever isto. Além do que podem ficar achando que eu fiz isso só e apenas porque você é um cara muito famoso e querido e eu quero aparecer.

Interlúdio: humm... se bem que isso não é uma má idéia...

Então, essa pequena invasão vem para agradecer: o sorriso sempre largo, o abraço sempre forte, a cumplicidade, a parceria, o mais divertido final de semana dos últimos tempos. Mais um parágrafo para entrar no livro dos nossos onze anos. Para ficar para sempre na memória.

beijo.
Chico.

P.S.: meu nome é Francisco Fireman e eu tenho a senha deste blog. Este post não foi autorizado.

Coração na boca:

Terça-feira, Agosto 17, 2004


O reencontro (ou ...e todos foram felizes pra sempre, mas, cada um pro seu lado...)

Foi assim numa estradinha bem pequena, ornada por miosótis, margaridas e outras flores de que ninguém lembra o nome. Chovia e fazia sol ao mesmo tempo. Dizem os antigos que, em dias assim, na boquinha da noite, tem estrela cadente também. Mas nisso, não sei se acredito.

A verdade é que se viam anos e anos depois da primeira vez, também perto de uma janela que se abria para o mar. O que sofrera o tremor de terra na vez anterior já não tinha mais susto estampado no rosto. Susto que lá, no tempo do antes, havia inspirado revoada de pássaros e canto de anjos imaginados.

Agora, ali na praça daquele lugar-de-perto-do-fim-do-mundo, tudo parecia mais simples e gasto, como as coisas que sofrem a ação do tempo. Nesse reencontro, o sino não tocou, a banda não passou e nem as luzes acenderam no coreto. Mas a Dona Maria da venda fez tapioca de goma bem branquinha e cocada de leite condensado, que eles trataram de comer, cúmplices, como se o alimento ainda acendesse antigas chamas.

Era quase setembro, um disse. O outro lembrou que o tempo não importa quando se acredita na imortalidade da alma. É que o primeiro não achava que tinha alma. Mas isso é tema de outra prosa, quando a porta da igreja voltar a abrir em dia de festa. Aquele não era um dia especial, por mais esforço que se fizesse.

É que as mãos não molhavam mais, o coração não descompassava apressado. Ele agora seguia o ritmo calmo das certezas que não mais necessitam de pontos de exclamação. Os lábios, porém, ainda careciam ser umedecidos, vez-em-quando. Estavam secos. Diferente dos olhos que pareciam querer falar na frente da boca: - vai - não vou - diz - não digo. Boca e olho brigam pela primazia do texto. Isso tudo tão subliminar.

O dia baixou, o sol descansou, a luz da vela acendeu. Nessa hora, em torno da mesa posta, vertiam fartas as antigas lembranças, memórias de tempos em que o pra sempre nunca acabava. Mas o -pra sempre, sempre acaba-, um deles quase disse enquanto completava o prato do outro com guloseimas. Depois foram apenas abraços, apertos de mãos, afagos tímidos como quem se reconhece no toque de dedos que nunca chegaram a se conhecer de fato.

-Olá, muito prazer!
-Seu dedo, um dia, quase foi meu em sonhos!
-É?

Acenos finais. Cuide-se bem. Em pensamento: eu ainda me importo com você, ainda te quero bem, mas aprendi a separar fantasia de realidade. Prefiro a realidade. Só isso.

Moral da história: não houve salva de tiros, nem alvorada em plena noite, nem quase nada. Apenas o meteoro incandescente prometido pra iluminar o pequeno lugar tomou a forma de fugazes fogos de artifício. Desses que explodem feito coração, atingem alturas monumentais, no ápice viram sol e depois apagam. Asa de anjo que muda de lugar... e desaparece. Pra sempre.

Coração na boca:

Segunda-feira, Agosto 16, 2004


"Espero não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro".

Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo

Hoje é um dia importante. Na verdade, será uma noite importante. Anos e anos se passaram até que esse dia e essa noite chegassem. Clarice me escuta. Conversa comigo. Diz que preciso acreditar no que estou acreditando. Meu nome é Guilherme. Sou fruto ainda verde de antigas civilizações e nem assim consegui traçar um mapa seguro pra essa rota. Clarice sorri de minha incredulidade diante dos mistérios do mundo. Mas será hoje e não amanhã. Preparei meu melhor sorriso e já decorei o samba. Não me sinto mais inseguro diante desse mundo... isso é bom. Recobrei forças, mirei espelhos anteriores a mim. É hoje. O colégio e a faculdade terminam hoje. Hoje serei definitivamente adulto e, por mais que eu chore ou sofra, sinto que vou sobreviver muito bem depois disso. Pode ser que o barco vire... mas vou chegar na praia como o mais firme dos sobreviventes.

P.S.: acabo de ler isso numa das primeiras edições de A Hora da Estrela (que eu nem lembrava mais que tinha). É quando o narrador, ou seja, a própria Clarice disfarçada, revela que, às vezes, o que pensamos que falta, na verdade existe de sobra em Macabéa:

"Devo registrar aqui uma alegria. É que a moça num aflitivo domingo sem farofa teve uma inesperada felicidade que era inexplicável: no cais do porto viu um arco-íris. Experimentando o leve êxtase, ambicionou logo outro: queria ver, como uma vez em Maceió, espocarem mudos fogos de artifício".

Coração na boca:

Quinta-feira, Agosto 12, 2004


Acordo de manhã, muito cedo, com a voz conhecida de uma mulher cantando... "tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor"... é minha mãe costurando na varanda. Imediatamente me lembrei que estou em casa, que essa mulher me criou, me ensinou a ler, a escrever e a cantar. A dizer "te amo" quando de fato estivesse amando e a sorrir quando sentisse vontade (a chorar também, principalmente a chorar). Depois de quase três anos de ausência, essas férias têm me ensinando a partilhar (esse é o verbo) de forma mais simples as dores e as delícias de ser e estar (ou estar-sendo, ter-sido, como diria Hilda Hilst).

Têm me mostrado como é bom reencontrar amigos queridos e parentes que me abraçam como a um filho pródigo e não mais como a ovelha negra da família (tão bem cantada pela Rita Lee). Os espinhos? Sim, os espinhos existem. Mas não machucam a flor, não chegam a rasurar desenho tão bonito quanto o que se tem esboçado nesses últimos dias. Acordar com uma mãe linda cantarolando sambas antigos, te abraçando e te beijando, chega bem perto, mas muito perto mesmo do coração selvagem dessa vida!

P.S.: peço desculpas pela falta de visitas aos blogs amigos, pelos e-mails não retornados, pela ausência. É que essa conexão é péssima e mal consigo acessar uns poucos minutos. Mas estou bem e penso em vocês. Obrigado, meus queridos!

Coração na boca:

Terça-feira, Agosto 10, 2004


Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.


Clarice Lispector, in "A Descoberta do Mundo"

Hoje foi o dia de abrir velhas caixas cobertas de poeira, que adormeciam no quartinho dos fundos da casa de minha mãe. Entre fotografias amareladas pelo tempo, boletins escolares, agendas e anotações de amor escritas em pedaços de qualquer papel, fui descobrindo pequenos tesouros: o convite do baile de formatura do colegial; o que restou de uma margarida dentro de um livro de poemas do Fernando Pessoa (edição de bolso, comprada em 1984); uma medalha da olimpíada de Estudos Sociais na quarta série, o primeiro óculos (de quando eu tinha apenas sete anos) e um bem mais-que-precioso: uma caderneta puída onde anotei, com esmero de garranchos, o nome dos meus cinco melhores amigos, aos dez anos.

1) Fátima
2) Beto
3) Márcia
4) Edinho
5) Josuel

Assim, em ordem crescente, como se isso guardasse algum segredo ou adivinhasse algum futuro. Sem lembrar de tempo e espaço, sem lembrar que os cinco já casaram, tiveram filhos e um deles já está no segundo casamento, tentei recompor o rosto de cada um com aqueles dez anos de então. A Fátima de óculos e voluntariosa; a Márcia gordinha e sorriso pouco sincero; o Beto forte, protetor, mas também arrogante na hora de escalar o time da pelada; O Edinho sempre sorridente, disposto à bondade mas também às travessuras e o Josuel. Esse era diferente, um moço velho de tantas responsabilidades. Menino pobre, de olho vivaz, que não queria ser carroceiro como pai, pouco sorria, mas me entendia só com o olhar.

Nunca mais revi os cinco (há exatos 25 anos). Eles ficaram na minha pequena cidade. Nenhum deles saiu de lá, fez faculdade ou viajou de avião. Nenhum deles leu um livro do começo ao fim, viu um filme do Truffaut ou chegou a ouvir falar de jazz. Eu? Eu me perdi no mundo aos 11 anos, desde a morte do meu pai. Me tornei essa pessoa que lembra do passado quando chove, igual à personagem de Adélia Prado. Que dobra velhos fardamentos escolares como se fossem relíquias de algum santo. Que ainda sonha com tardes repletas de tanajuras no céu e com cheiro de terra molhada, sinônimo de fartura de milho no São João.

Só tenho pena de não poder tocar de novo cada rosto. Abraçar aqueles corpos rijos e cheios de uma vitalidade própria dos anjos (corpos que literalmente voavam de tão livres de certezas). Digo e lembro disso tudo numa noite em que a chuva castiga a capital das Alagoas e faz acender o pavio da memória... e de todas as outras saudades...

Coração na boca:

Terça-feira, Agosto 03, 2004


Ainda não havia...

A casa velha guarda as mesmas lembranças, assim como o cheiro de jasmim que vem de fora invadindo quartos, indiferente a portas e janelas devidamente fechadas. A foto do pai-morto-onipresente, o desvelo carinhoso das irmãs, o colo quente da mãe e o sorriso cheio de humanidade da bá. As ruas ainda se parecem com as de antes. As gentes não. São mais jovens ou mais velhas ou mais gordas ou mais antigas do que costumavam ser naquele outro tempo que ficou perdido no meio do mundo.

A casa do Aldebaran está sendo construída, mas nunca será minha. Assim como jardim, pomar, horta e o espaço imenso para criar o labrador. Passei pela rua e fiquei pleno de árvores frondosas, quase fui falho, flor, fruto proibido de novo. Mas não havia mais música ou qualquer possibilidade de canto. O antigo colégio continua imponente dominando a rua, quase o bairro. Mas alguma coisa quebrou ao se tentar visualizar o passado através daquela vidraça amarelada pelo tempo.

Não havia mais desejo ou qualquer outro arroubo juvenil. Não havia mais tempo para planos sobre o futuro, promessas de felicidade ou para a reconquista da América. Mas ainda havia uma saída. Não nos caminhos que levam ao mar, não nas enseadas devidamente fotografadas pelos turistas. Mas em alguma cabana perdida no outro lado do litoral. Onde o vento pode ser feroz. E a vida... a vida pode ainda ser reinventada.

Coração na boca:

 

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