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Quarta-feira, Setembro 29, 2004
Alguém diz:
"Aqui antigamente houve roseiras"
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras.
Sophia de Mello Breyner Andresen
P.S.: poeta portuguesa morta esse ano. Mais uma dentre tantas estrelas-guia. Minha emoção.
Coração
na boca:
Terça-feira, Setembro 28, 2004
Exercício com Dalloway II
Ela voltou da feira livre carregada de flores. Azuis, suas preferidas. Logo cedo, sorriso sereno nos finos lábios, Clarissa pressentiu mais uma manhã sem graça, porém harmoniosa. Levantou cedo, escovou o longo cabelo e fez o penteado habitual: duas tranças que se prendem atrás, quase invisíveis. Haveria de caminhar um pouco vestida de verde claro, com a sombrinha comprada na última viagem à Itália.
Pensou no que servir de almoço, falou com Debby, perguntou sobre o peixe e resolveu que comeriam cordeiro, naquele sábado aberto a tantas possibilidades. Gostava de agir assim, provocando pequenas revoluções na rotina: mudanças no cardápio, substituição das flores nos muitos vasos, alteração do caminho habitual que a levava ao centro do bairro, onde comprava flores molhadas de sereno e encomendava outras sutilezas.
Vivia dos pequenos milagres proporcionados pelos períodos de sanidade e sonhava com alguma coisa diferente que ainda não sabia ao certo o que poderia ser.
Mas não estava aberta, não hoje, a especulações de qualquer espécie. Só queria contemplar as flores azuis e cultivar seu amor por entre calçadas e pequenos lagos que se espalham ao longo do parque.
Que assim seja.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Setembro 27, 2004
Exercício com Dalloway I
Clarissa chegou como de costume, pós-crise histérica, com dores nas costas e olhos fundos ainda mais pronunciados. Falou longamente em flores (na imensa e exótica variedade exposta com toda sua exuberância na estufa dos Cunningham) e em como escurece cedo nos arredores de Yorkshire.
Céu adensado, volumoso mesmo, com aquelas cores fortes de início de inverno. Gostava de pensar que, mais uma vez, vencia o pânico e se preparava para um novo mergulho no território pouco confiável do sonho. Lavou as mãos, depositou o chapéu na mesa escura contígua ao lavabo e sentou perto da escada.
Clarissa vivia dividida entre o medo da morte e o de envelhecer com sinceridade. Estudava a vida breve de alguns insetos e se perguntava, freqüentemente, sobre a dieta dos que vivem em terras distantes, como o Brasil.
Costumava dar curtas caminhadas e, um dia, sem maiores explicações, comentou com o marido a vontade de conhecer alguém com mais de 100 anos.
Vivia para o belo, embora duvidasse de sua eficiência. Era boa. Mas nunca soube disso.
Coração
na boca:
Sábado, Setembro 25, 2004
"E agora - agora só me resta acender um cigarro e ir para casa.
Meu Deus, só agora lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?!
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim."
Clarice Lispector, parágrafo final de A Hora da Estrela
Coração
na boca:
Sexta-feira, Setembro 24, 2004
P.S.: sim. Talvez eu seja o último romântico...
Coração
na boca:
Quarta-feira, Setembro 22, 2004
Compartilhar
Verbo complicado. Há dias não compartilho coisas no sentido amplo do termo. Mas, por força de um texto tão inspirado que acabo de ler, é impossível não fazê-lo aqui, nesse espaço. Trata-se de um debate travado via e-mail pelo chileno Roberto Bolaño (morto aos 50 anos em 2003) e Ricardo Piglia, um dos maiores nomes da literatura argentina contemporânea. O texto, publicado no caderno MAIS, da Folha de São Paulo, no último dia 12, estava há dias na minha mesa pedindo para ser lido. Eis que me surgem coisas lindas através dele, a saber:
1) Constance Garnett, mãe de David Garnett (amigo de Virgínia Woolf e escritor dito "menor" de Bloomsbury), passou a vida traduzindo os escritores russos para o inglês. Ou seja, foi através dela (uma velhinha vitoriana e feminista, ao mesmo tempo) que intelectuais do porte de Hemingway, conheceram os admiráveis Tchekhov, Dostoiévski e Tolstói;
2) A admiração por Julio Torri, belíssimo escritor de textos curtos, um ícone da literatura mexicana. A partir daí descobri a bela tradução de Ronald Polito para o seu "Almanaque das horas e outros escritos" (desde já um objeto de desejo...);
3) Também a descoberta da correspondência de Eric Satie (compositor francês) que, segundo Piglia, nunca abria as cartas que recebia, mas respondia todas. Olhava o nome do remetente e em seguida lhe escrevia uma resposta. As cartas lacradas foram encontradas e agora publicadas junto com as respostas. Nas palavras de Piglia: "a correspondência é fantástica, porque todos falam de coisas diferentes, e essa, claro, é a essência do diálogo".
Depois disso. Só isso!
P.S.: como é difícil controlar a ansiedade.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Setembro 20, 2004
"Orgulhoso demais para morrer, morreu cego e alquebrado
Da maneira mais sombria, sem olhar para trás,
Um homem corajoso, frio e amável, em seu ardente orgulho(...)"
Dylan Thomas
O lugar dos meus melhores sonhos... e piores pesadelos!
Coração
na boca:
Quinta-feira, Setembro 16, 2004
Estrangeiro
Frio-fora-de-hora.
Desconsolo.
Hipocrisia.
Choro-na-calçada.
Trabalho-insuportável.
Saudade.
Geléia-de-uva.
Margens-plácidas.
Selvagem.
Decepção.
Coração.
Eliseth.
Mangueira.
Fruta-boa.
Sentimento-de-perda.
Taquicardia.
Passagem.
Maysa.
Ida-volta.
Aeroporto.
Alimentação-precária.
Nina.
Redentor.
Truffaut.
Minuto.
Esquecimento.
P.S.: amor, no fundo, é desejo contrariado.
Obs.: "Disseram que ela estaria aqui, bem no lugar onde se perdeu. Mala na mão, descompasso que poderia ser seguido com os olhos. Quase um balé, um solo. Mas a música, o ritmo, vinha de dentro. Fogo íntimo? Disseram que ela estaria aqui, no saguão do aeroporto efervescente e..."
Já não havia. Mulher, mala ou espera. Ele se foi, pesado. A língua materna o abandonara, as paisagens familiares também. Quem era ele agora? Sem ela, não seria ninguém. Foi quando ouviu um samba. Em 1975, ano de sua morte, não lembrava se o canto era de homem ou de mulher. Mas sentiu que se tratava de um lamento, quase banzo. Era o Rio de Janeiro, final da década de 50, pleno século XX.
Coração
na boca:
Terça-feira, Setembro 14, 2004
"Decido escrever um romance. Personagens: a Grande Escritora de Grandes Olhos Pardos, mulher farpada e apaixonada. O fotógrafo feio e fino que me vê pronta e prosa de lápis comprido inventando a ilha perdida do prazer. O livrinho que sumiu atrás da estante que morava na parede do quarto que cabia no labirinto cego que o coelho pensante conhecia e conhecia e conhecia. Nessa altura eu tinha um quarto só para mim com janela de correr narcisos e era atacada de noite pela fome tenra que papai me deu".
Ana C., in "Cenas de Abril"
P.S.: perto do coração selvagem existe um muro!
Coração
na boca:
Segunda-feira, Setembro 13, 2004
Cenas de um domingo atípico (ou: como sempre gostei da palavra "hamamélis")
Domingo estranho aquele. De múltiplas escolhas: a, b ou c. Resolvi procurar a paz revolvendo o fundo da mochila preta (quase surrada). Dengo manhoso me faz acordar antes do previsto. Me sinto nu em casa que já nem é mais tão minha. Frio retardatário esse em São Paulo de fim de inverno...
Como qualquer coisa. Arroz, depois de dias e dias me alimentando mal, desde a última partida (excetuando o árabe no sábado, com uma doce e necessária companhia). Adoro arroz com vegetais. Todos. Depois, rumo ao Cine Sesc, me preparo mentalmente pra encarar Jules, Jim e Catherine... medo! Não deu outra.
Saí do cinema péssimo. Pensativo, sozinho e querendo ficar mais só ainda. Volto pra casa, arranho o Dengo com minhas unhas, fazendo com que ele se assuste com aquela atitude pró-ativa.
Resolvo ir ao show do Arrigo, no Vila Mariana. Sozinho. Metrô, Ana C. na mochila, depois na mão, depois na cabeça. "A Teus Pés" e, principalmente, "Cenas de Abril", nunca foram tão precisos (no sentido de precisão e também de necessidade). E, com intensidade e alguma loucura, comecei a lembrar de palavras de que gostava: alfazema, lavanda, artemísia, hamamélis... tudo tão aromático e cheio de cor...
Medo da platéia, na entrada do teatro lotado, quase toda formada por fantasmas da década de 80. Saio rápido. Clara Crocodilo mudou em 20 e poucos anos... todos nós mudamos, baby...
Volto pra casa. Não tô bem. Nem quero ficar. Alguns minutos mais e sairia para mais um Truffaut: "A História de Adèle H.", perturbador. Os olhos de Adjani me seguem na subida da Augusta. De leve, a brise fria vai enchendo meus pulmões... quase saí cantarolando Le tourbillon de la vie, mas mantenho o senso do ridículo e prefiro lembrar a voz de Jeanne Moreau...
"As pessoas se conhecem, se reconhecem
Perdem-se de vista e perdem-se novamente
Procuram-se e separam-se
No turbilhao da vida"
Dengo me espera na porta. Entro, fecho, esqueço. Dormir é imaginar outra possibilidade?
Coração
na boca:
Sexta-feira, Setembro 10, 2004
Era pra tudo ter acontecido exatamente como aconteceu. O Projeto Pixinguinha (que tanto fez minha cabeça no passado) voltou, isso eu já sabia. Mas não tinha a menor idéia da passagem de sua caravana por São Paulo, ontem, dia 9. Os compromissos eram muitos. Mas não deu.
Atrasei alguns, faltei a outros, peço desculpas a mim mesmo e aos outros. Mas tinha que ver, de novo, aquilo acontecer: alquimia entre público e artistas. Emoção.
Ná Ozzetti: o que você faz comigo quando canta?
Jards Macalé: evoé grande artista! Sua voz dissimulada estimula os sentidos e traz ecos de outros tempos.
Nó em Pingo D'Água: Rodrigo Lessa (bandolim e violão), Papito (baixo), Rogério Souza (violão), Mário Seve (sopros) e Celsinho Silva (percussão) - vocês me fizeram chorar com Paulinho da Viola, com Jacob e com tão lindas composições próprias.
E a senhora, Dona Selma do Coco? Com sua voz de vendedora de tapioca das ruas de Olinda me levou ao delírio.
É quando tudo nos revisita e aponta o que, de fato, faz falta.
É quando tudo começa a entrar nos eixos... é quando...
Saí correndo da sala Guiomar Novaes, na Funarte da Alameda Nothmann, às escuras (sim, roubaram a fiação elétrica daquela região e o blecaute torna o Minhocão mais assustador ainda). Ônibus, Vila Madalena, aniversário do Lemu (meu Calunga) e entro em transe na entrada do Bar Filial. Em pé, os dois, Ná e Jards, na minha frente.
Com fome, com sede, com vontade de tomar um porre de felicidade (mas altamente sóbrio), simplesmente agradeci. E disse à moça de voz tão marcante que seu último CD: SHOW, tornou-se uma das trilhas sonoras da minha vida. Detesto falar com artistas que não conheço (típico de fã descompensado). Mas ela tinha que saber disso. E me abraçou tímida e beijou meu rosto e disse: que bom!
É isso. O que era pra ser apenas mais uma noite de quinta, transformou-se numa noite bonita. Com cantoria, aniversário e territórios bem delimitados pelo afeto-sem-fronteira que une pessoas tão diferentes. É por isso que continuo acreditando, é por isso que não desisto. É por isso que resisto!
Coração
na boca:
Quinta-feira, Setembro 09, 2004
Dez necessidades, em ordem aleatória, daqui por diante:
1) ter uma garrafa de água mineral grudada ao corpo 24h
por dia;
2) ouvir sua voz ou receber seu e-mail ou rever sua
foto, sempre que o peito doer fundo, como agora;
3) lembrar, com ternura, de todas as melodias e vozes e
momentos inesquecíveis vividos juntos nos últimos dias;
4) arrumar um jeito de ajustar receita e despesa ou
arrumar um jeito de ganhar mais dinheiro e deixar de ser
perdulário;
5) assistir ao filme que ganhei de presente do meu amor
("A streetcar named desire") e chorar na cena final de Blanche
Dubois, bem ao estilo Guiu Lamenha;
6) fazer muito dengo no Dengo, imaginando que vamos
estar juntos brevemente (e em definitivo!), os três;
7) lembrar de fazer de novo aquela carne seca com
abóbora e requeijão e chamar quem ainda não provou para
sentir na boca aquele pedaço de paraíso;
8) acalmar meus ânimos, serenar minha alma, saber que o
seu olhar estará sempre comigo: aqui, acolá, em qualquer
tempo e espaço;
9) ouvir cada dia mais os sambas antigos e novos, o
blues, o jazz, o rock, a música popular... deixar pulsar em
mim os sons, sejam eles quais forem;
10) fazer da literatura e do cinema meus bons
companheiros, enquanto não durmo, enquanto te espero...
tirando qualquer "tom de desespero", cultivando a harmonia,
abrindo portas pra alegria...
Coração
na boca:
Sábado, Setembro 04, 2004
Pressentimento
(Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho)
Ai ardido peito
quem irá entender o seu segredo
quem irá pousar em teu destino
e depois morrer de teu amor
ai mas quem virá
me pergunto a toda hora
e a resposta é o silêncio
que atravessa a madrugada
vem meu novo amor
vou deixar a casa aberta
já escuto os teus passos
procurando o meu abrigo
vem que o sol raiou
os jardins estão florindo
tudo faz pressentimento
que este é o tempo ansiado
de se ter felicidade
Sim, é ela quem canta, afinal é teu aniversário. Eu sei, eu sei... não gostas de efemérides... mas, quando você nasceu, a "Divina" já cantava esses versos reverenciando uma vontade qualquer, uma graça qualquer... um desejo? O que posso dizer agora? Tentei algumas vezes o celular... queria falar: oi, tô aqui, acordado, velando essa madrugada vazia, ainda sem você! Dizendo, quase em voz alta: parabéns. Você existe e, só por isso, meu mundo se faz mais completo. Salve quatro de setembro, quase primavera. Dia de uma única crença: a minha!
Coração
na boca:
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