<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="1252"%> Perto do Coração Selvagem

Quinta-feira, Outubro 28, 2004


Cultivava orquídeas -
Pelo prazer da idéia
de orquídea, do devir
de abelha a florir
flor a zumbir
no ponto de fusão.

in Nômada, de Rodrigo Garcia Lopes
(Lamparina Editora)


Coração na boca:

Terça-feira, Outubro 26, 2004


São como pequenos triunfos da sensibilidade. Uma música que se pretende íntima e universal, um poema, um filme... o excerto do texto perfeito revelando o fluxo da consciência. Qualquer personagem. Pequenos triunfos da técnica, que alguns querem razão. Fiquei emocionado diante do novo Bertolucci, que me revela e me faz sonhador também.

Fiquei sem dormir ao encerrar a última página do Ulisses, quando Joyce põe fim ao longo monólogo interior de Molly Bloom, no mais audacioso texto já lido por mim. Lembrei de Clarice e suas experimentações pessoais, que de tão naturalmente escritas parecem o reflexo de uma mente além de seu tempo... além da razão?

Qual a razão dos tolos? Dos amantes? Dos pequenos gestos ritmados que dão vida à coreografia daquela bailarina e daquela outra ali adiante? Existe razão na solidão de um barco que vi na última viagem a Maceió?

E agora ouvindo Satie, de incompreensível melodia, penso que a beleza toca dias assim: gris com matizes; repletos de significados ocultos. Como o Poema Sujo do Gullar, que segue inspirando interpretações díspares quando tudo que ele queria era... era o desabafo? Ele que um dia me falou de gatos... sim, o grande poeta e o jornalista extasiado falando de gatos numa manhã parecida com essa, onde o cheiro de jasmim que crescia insolente no pequeno jardim da produtora nos lembrava tempos idos em capitais litorâneas do Nordeste do Brasil...

Passado composto, frases com tantas reticências (eu vago nas reticências, bem sei). E tudo aqui escrito serve apenas pra falar dos efeitos do belo. De ousadias que se fazem revolucionárias por que o mundo quer assim... tudo sem nenhum desejo de vanguarda, pelo menos não hoje.

Coração na boca:

Sexta-feira, Outubro 22, 2004


O LIVRO

Perfume derramado sobre a flor azul,
nos versos
em metros.

Manchava a capa,
feria a página,
deslocava a retina.

Pensou em rasgar o livro,
riscar o nome, mandá-lo pro exílio.

O livro exilado porém se rebela e,
num grito,
rompe o silêncio da estante.


Permanece,
guardião de memórias,
fazedor de coisas.

Coração na boca:

Segunda-feira, Outubro 18, 2004


Exercício com Macabéa I

Ela abriu os olhos devagar e tudo que viu assustou. Muita gente em torno dela e mais: enxergando ela. Do chão, mirava um céu de início de noite com algumas estrelas. Achou que poderia voar até elas, misturando-se. Um sorriso bobo assaltou seu rosto ao se ver como uma estrela. Mas estava em terra firme, obcecada com as palavras da cartomante que estava na frente dela:

-menina, menina do céu, você foi atropelada, está me ouvindo? A-t-r-o-p-e-l-a-d-a... já chamei a ambulância... você deve ter quebrado toda e...

A moça torta apenas sorriu amarelo e levantou. Queria sair dali, deixar o Méier em direção à Zona Sul... queria molhar os pés, sujar os pés nas areias do Leblon... lembrou que não conhecia o Leblon, uma espécie de céu... é isso: ela iria pro céu. Dali por diante não sairia mais de lá. O céu do Leblon e suas luzes de estrelas artificiais. Olharia vitrines, comeria maçã do amor, seria algo além daquele firmamento sem vida que a limitava. Abandonaria aquele limbo, aquela não-vontade e sentiria alegria e dor diante da vida. Sentir... depois daquela morte poderia sentir qualquer coisa.

Coração na boca:

Terça-feira, Outubro 12, 2004



Sabino que, de tanto existir, virou menino


Fernando foi embora ontem, num dia muito triste pra mim. Assim como a amiga Clarice, partiu um dia antes do aniversário. Ficou velho pra virar menino e depois foi. Assim como eu, Fernando acreditava no diálogo com o espelho, nos encontros marcados, nas esquinas e calçadas travestidas de poesia.

Hoje o dia amanheceu com um sol brilhante, desafiando os caprichos da virada do tempo. Um cheiro de coisa conhecida me despertou cedo. Olhei pro lado da cama e cheguei a enxergar qualquer coisa próximo a você. Era minha ilusão pregando peça, catando lembrança, me alimentando.

Acordo, levanto, miro as árvores mágicas que enfeitam minha rua e sinto falta dessa sala, desse clima, dessa amenidade que tantas vezes pesa e se funda e vira castelo, catedral, amplo salão de baile. Se transforma em confessionário e em sanatório, mas também em cenário desse amor tão terno, que se alimenta diariamente de palavras, de músicas, de imagens que ainda vão fazer por merecer.

Lembro novamente Fernando. De encontro marcado com uma infância pacífica, recém-descoberta não numa madeleine ou xícara de chá... mas na imensidão do coração mineiro que sabe guardar na memória tempos idos que sempre se inauguram, reestreando o espetáculo cotidiano que de tão concreto explode em fantasia, pura invenção.

Coração na boca:

Terça-feira, Outubro 05, 2004




RETIRO
(Paulinho da Viola)

Meu tempo às vezes se perde
Em coisas que não desejo
Mas não repare esse lado
Pois meu amor é o mesmo
Nos momentos de carinho
Eu me desligo de tudo
Nos braços de quem se ama
É fácil esquecer o mundo
Às vezes eu me retiro
E nada me faz sentido
Só há um canto na vida
Aonde eu me refugio
Afasta as sombras que eu vejo
Nos teus olhos tão aflitos
Você conhece minh'alma
E quando quer me visita...

Coração na boca:

 

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