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Sábado, Novembro 27, 2004
Hoje e amanhã ele tem encontro marcado com quem ama a boa música (e a boa prosa), no SESC Pompéia... é isso! Zé Miguel Wisnik reencontra Ná Ozzetti e Jussara Silveira e lança simultaneamente dois livros de sua autoria. Imperdível!
Coração
na boca:
Sexta-feira, Novembro 26, 2004
Não tem jeito. Com você aqui, o meu mundo definitivamente fica mais completo...
Coração
na boca:
Quinta-feira, Novembro 25, 2004
Coração em compasso de espera...
Coração
na boca:
Quarta-feira, Novembro 24, 2004
Cheio de remendos. Pensou e continuou andando, sem lembrar o nome do poema... nunca lembra o nome de qualquer coisa. Continua em plano detalhe aquela angústia fina que vai, vai, vai chegando perto do peito, vai varando, sai rasgando e o sangue pingando de todos os vasos.
Não sabe o que fala, ele diz, não sabe pra quem fala, ele pensa. E ela pergunta de novo, fala do sonho, fala da raiva, volta a pensar em se matar, como sempre nessas horas de vai-não-vai...
Mas não gosta de pensar muito, sabe? Prefere falar. E fala e volta a fazer cena, quase gritando, quase chorando. Volta a fazer as mesmas perguntas e a gesticular. Mas não transgride. Ela nunca passa daquele ponto que separa o indivíduo são do...
Como é mesmo o seu nome? Ele interrompe e finge desconhecer as regras dela, com aquele bom senso calculado. Ele interrompe e pede pra que ela volte. Diz que não era nada daquilo. Diz que naquela hora que não queria, queria mais que nunca.
Ambos fugiram do lugar. Mas sem tomar trem, barco ou avião. Seguiram a pé, cruzando todas as estradas quase num único fôlego, até as invisíveis, proibidas aos que não... mas ela resolveu voltar ao ponto. Aquele.
Quis acreditar que ainda daria tempo. Tinha que dar. Regaria dessa vez as plantas, seu único arrependimento. E também clamaria por vingança na frente do prédio. Recorreria a todos, até aos animais feitos santos. Mas esqueceu de acender o fogo. E se perdeu de vez na prosa caótica daqueles dias.
P.S.: eu tinha 19 anos e enxergava no mundo grandes perigos.
Coração
na boca:
Terça-feira, Novembro 23, 2004
O colóquio Encontros de Interrogação prossegue hoje no Itaú Cultural. O evento reúne quase uma centena de especialistas de todo Brasil, entre poetas, prosadores, jornalistas e críticos para discutir temas relacionados à produção literária contemporânea... depois conto como está sendo/tem sido...
Coração
na boca:
Segunda-feira, Novembro 22, 2004
Para ver as meninas
Paulinho da Viola
Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
A dor no peito
Não diga nada
Sobre meus defeitos
E não me lembro mais
Quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor
Assim descontraído
Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
P.S.: foi com essa canção que Eveline Hecker abriu seu show na sexta e no sábado, no Itaú Cultura da Av. Paulista. Um solo. Apenas o som de seu dedo no tamborim, marcando o ritmo. Bate coração...
Coração
na boca:
Sábado, Novembro 20, 2004
O melhor CD do ano (por razões desse coração) gerou o melhor show do ano! Pra quem não conhece recomendo: Eveline Hecker, carioca, cantando Zé Miguel Wisnik, paulista. O CD e o show ganharam o sugestivo título de Ponte Aérea.
Coração
na boca:
Sexta-feira, Novembro 19, 2004
Quem nunca sonhou com uma tarde fria em Paris que atire a primeira pedra...
"(...) Mas não te basta ser só ilusão imensa
Para num falso coração ter tua presa?
Que importa o que há em ti, de tola indiferença?
A máscara que importa? Amo a tua beleza!"
Charles Baudelaire (As Flores do Mal - Quadros Parisienses)
Coração
na boca:
Quinta-feira, Novembro 18, 2004
Não sei, não sabe ninguém
Por que canto o fado
Neste tom magoado
De dor e de pranto
E neste tormento
Todo o sofrimento
Eu sinto que a alma
Cá dentro se acalma
Nos versos que canto
Foi Deus
Que deu luz aos olhos
Perfumou as rosas
Deu oiro ao sol
E prata ao luar
Foi Deus que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que vou desfiando
E choro a cantar
E pôs as estrelas no céu
E fez o espaço sem fim
Deu o luto às andorinhas
Ai, e deu-me esta voz a mim
Se canto
Não sei o que canto
Misto de ventura
Saudade ternura
E talvez amor
Mas sei que cantando
Sinto o mesmo quando
Se tem um desgosto
E o pranto no rosto
Nos deixa melhor
Foi Deus
Que deu voz ao vento
Luz ao firmamento
E deu o azul às ondas do mar
Foi Deus
Que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que vou desfiando
E choro a cantar
Fez poeta o rouxinol
Pôs no campo o alecrim
Deu as flores à primavera
Ai, e deu-me esta voz a mim
(Foi Deus - Alberto Janes)
O CD que desde ontem faz parte da minha trilha sonora oficial se chama Navegantes. Zé Renato e o grupo luso Trinadus fazem um mergulho profundo na alma do fado e despertam nossa raiz portuguesa, nossa vocação à saudade, nosso gosto pela dor doce e pelo encanto perdido. Desde já uma dica... o selo é o sempre correto Biscoito Fino.
Coração
na boca:
Quarta-feira, Novembro 17, 2004
Ainda não li, mas já estou com um exemplar na mão. Trata-se de um livro escrito pelo jornalista Guilherme Bryan que entrevistou quase duas centenas de personalidades que viveram (e revolucionaram) os anos 80 no Brasil. Música, literatura, cinema, moda, dança e teatro estão presentes no volume, dentre muitos outros assuntos. Bem, aproveitei bastante todas as transformações dessa década e confesso: estou louco pra ver e rever tudo que foi pesquisado pelo meu colega durante sete anos de trabalho. Vou começar a ler hoje e em seguida escrevo o que achei, ok?
Coração
na boca:
Localizar o tempo e o espaço no discurso, como queria Ana C. e nem assim encontrar o fio da meada. Como numa canção do Chico Buarque, todos os desencantos parecem estar presentes em horas assim. Abro a janela, miro o céu em tons de cinza e volto a fechar (-me). Arrumo a cama, alimento o gato e faço um chá. Numa retrospectiva breve, percebo o quanto quase tudo está errado. Mas dou de ombros e volto a pensar nas palavras de Ana. Nem todos concordam com a publicação dos Inéditos e Dispersos, mas ninguém também consegue agradar a todos.
Eu, por mim, adoro o exagero da falsa intimidade descoberta. Daquilo que imaginam ser puramente biográfico e não passa de... ontem resolvi calcular, por alto, quantas caixas de papelão vou precisar pra mudança. Mas o telefone tocou e fui ouvir canções francesas no bistrô da esquina. Simpático aquele clima retrô. Por alguns segundos me salvou da apatia. Daí voltei pro quarto e exigências de um plano de fuga se fizeram novamente presentes no mapa aberto sobre a cama. Esquerda, direita, ocidente, oriente. Ana Paula Padrão na Índia, vasto mundo na música antiga, peito rasgado, encharcado de perfume.
E Ana grita: não encontro no meio de todas essas histórias nenhuma que seja minha.
Por isso, invento, completo. Consigo imaginar mocinhos, bandidos, tramas rocambolescas bem ao gosto da minha fantasia sedenta por espaço. Sinto que posso agarrar com as mãos aquela florzinha amarela, lembra? Mas aí o sonho acaba com o barulho do carro que passa apressado acordando a rua. E volto à insônia de sempre, com tempo de sobra pra não pensar em mais nada.
Coração
na boca:
Terça-feira, Novembro 16, 2004
"O gato é uma maquininha que a natureza inventou
tem pêlo, bigode, unhas e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato não é um motor elétrico.
É um motor afetivo que bate em seu coração
por isso ele faz ron-ron, para mostrar gratidão.
No passado se dizia que esse ron-ron tão doce
era causa de alergia pra quem sofria de tosse.
Tudo bobagem, despeito, calúnias contra o bichinho:
esse ron-ron em seu peito não é doença - é carinho".
(Ferreira Gullar - Um gato chamado Gatinho)
P.S.: o moço da foto, para quem não conhece, é o meu Dengo. A fotógrafa foi a Mari.
Coração
na boca:
Sexta-feira, Novembro 12, 2004
Juli acompanhada de dois integrantes da Turma da Bossa, Julinho e Luiz;
ainda faltam na foto Gustavo e Oswaldo pra bossa ficar completa
A dona da voz
Eu tenho alguns amigos que cantam. Muitos já lançaram discos que orgulham meu pequeno acervo de gravações e sempre que posso tenho o prazer imenso de apresentar seus trabalhos a outros que, por isso ou aquilo, ainda não os conhecem. Mas poucas vozes conseguem me dizer coisas delicadas (de outros tempos, desse atual tempo e dos tempos que virão). Uma delas está no palco, brilhando desde ontem e também nessa sexta, sábado e domingo, sempre às 23 horas, com seu belo grupo, a Turma da Bossa, no Vinícius Bar, Rio de Janeiro. Quem estiver na Cidade Maravilhosa, não perca. Vá até a moça e diga que mandei um beijo e uma flor. Fiz isso uma vez, quando cheguei de surpresa no seu aniversário e foi tão lindo!
Eu tô falando da minha amiga Juli Mariano. A morena de voz doce e atitude de estrela que sabe fazer sua hora. E o Vinícius Bar fica na Rua Vinícius de Moraes, 39, no mais que encantado bairro de Ipanema. Os telefones para informações são: (21) 2523 4757 ou 2287 1487.
Provem. É lindo. Eu garanto!
Coração
na boca:
Quinta-feira, Novembro 11, 2004
Sopro de Vida
Ingmar Bergman retoma os personagens de Cenas de um Casamento (1974) e nos apresenta Sarabanda (2003). Não vou aqui falar sobre o filme ou o que ele produziu em mim. Mas ontem, saindo do cinema meia-noite, relâmpagos e trovões anunciaram uma chuva breve e intensa. Me protegi numa banca de jornal 24h e fiquei repassando mentalmente algumas cenas e diálogos. O que define um mito não é apenas aquilo que ele consegue fazer e expressar. Mas a força com que sua obra invade a gente. Bergman faz isso comigo desde o primeiro filme que vi há muitos e muitos anos. Me desconcerta, me entristece, me alegra. Liv Ulmann e Erland Josephson estão deslumbrantes, assim como os coadjuvantes e Anna, personagem que só aparece através de um retrato. Essencialmente um sopro de vida, seja lá o que isso quer dizer!
Coração
na boca:
Quarta-feira, Novembro 10, 2004
A realidade é coisa delicada
de se pegar com as pontas dos dedos.
Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.
Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída - falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o porquê, o sim,
todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, maus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.
Paulo Henriques Britto
Sim, Paulo Henriques Britto, poeta e tradutor, professor e amante da delicadeza,
ganhou o Prêmio Portugal Telecom de Literatura, anunciado ontem, em São Paulo.
Ainda existe verdade no mundo!
Coração
na boca:
Fragmento IV
-Intuímos que poderia ser pra sempre, digo isso num longo suspiro e Amália se queixa de tanta melancolia. Ela sabe do meu gosto desde sempre por perfumes, seja água de colônia ou essência mais apurada. Quando era bem moça, costumava incensar a casa com alfazema pós-banho, o que deixava irritada a minha avó, mãe de meu pai, que veio morar conosco no Boqueirão em 1930, com medo da "revolução".
Pois bem, por querer me agradar em mais uma véspera de finados, quando geralmente entristeço, Amália me presenteou com um belo frasco escuro, mas de conteúdo tão forte que só o pressentimento do cheiro me trouxe lágrimas aos olhos. Não deixei ela perceber meu mal-estar, não é desse modo que entendo o mundo. Agradeci o regalo, guardei a embalagem no baú dos pequenos esquecimentos e tratei de voltar ao bordado, certa de que, ao menos por enquanto, não voltarei a sentir aquela despudorada fragrância, nem pra deixar Amália contente.
Hoje faz dois anos que passei a morar com eles.
Coração
na boca:
Terça-feira, Novembro 09, 2004
Fragmento III
Gostava de escutar Nada Além, na voz do Orlando Silva, enquanto ele lembrava a primeira vez que ouviu a canção, no final dos anos 30, pouco antes de nos conhecermos. Sabia de cor outras composições de Custódio Mesquita e Mário Lago, mas sempre cantarolava Nada Além e dizia que fazia isso pra me deixar feliz. Era assim aquele marido-sempre-adolescente, que também me alegrava com goiabada cascão e queijo branco, nosso Romeu e Julieta de fim-de-tarde.
Ficávamos amplos demais em dias assim, de bem-aventurada gratidão pela vida ter nos apresentado, por ele não ter ido à guerra, pelo rádio do meu pai ter quebrado e ele ter sido chamado ao Boqueirão. Por todos os encontros e desencontros que terminaram por nos juntar de vez, até que a morte nos separou, numa tarde de abril. Quando lembro disso fico sempre assim, meio sem jeito, querendo ao menos mais uma vida inteira com ele.
Lembrete no fim da página: dos que dizem que não tenho mais idade para ilusões, desconfio.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Novembro 08, 2004
Fragmento II
Amália e Onofre conseguiram me tirar de casa. Fui à cômoda em busca do melhor vestido e passei a ferro, borrifando água de colônia. Lembrei do tempo em que fazia isso diariamente em camisas brancas de cambraia de linho. Tão finas as camisas dele.
Fomos ao passeio público observar o movimento e recordar outros tempos, quando as cores eram menos desbotadas e a memória brotava nova feito olho-d'água. A rua anda salpicada de pequenas flores amarelas que despencam do alto das árvores. Parece tapete enfeitado da festa do divino, uma beleza!
Já não escrevo ou leio como antes, é certo. Sinto os olhos cansados, como a força das pernas e a tenacidade do passo. Também já não reconheço tantas pessoas na cidade, nem sou lembrada pelo nome por gente mais jovem. Meu tempo é outro?
Coração
na boca:
Sábado, Novembro 06, 2004
Fragmento I
Ontem tinha brilho de estrelas na noite de poucas nuvens. Vontade de cozinhar, separando ingredientes pelo cheiro e já imaginando a consistência do molho. Penso nas carnes tenras e nos legumes que conferem gosto apurado ao prato. Separar panelas vocacionadas para aquele tipo de fogo lento, persistente. Amália insiste em levar o cachorro velho a passear. Eu só penso em ser feliz no dia de hoje, quando a tarde se esparrama preguiçosa feito planta-trepadeira em muros de arrimo. Onofre foi e voltou. Me trouxe couve fresquinha. Vou também fazer mexido, que sei que ele gosta.
Ontem me disseram que cozinho melhor quando sonho. Não sei se concordo. Outro dia sonhei que estava em outro país, numa rua com cerejeiras carregadas de flor. E fiz o melhor cozido do mundo. Rico, nas palavras de Onofre e Amália. Me fazem companhia os dois. Me abastecem com um afeto de muitos dias. Temos um conhecimento assim, que não carece de palavras. Basta olhar, olhar, para saber onde brota a dor e a alegria em cada um. Somos como essa paisagem que enfeita a minha parede, calma e cheia de harmonia. E merecemos cada segundo dessa afinada cumplicidade.
Coração
na boca:
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