<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="1252"%> Perto do Coração Selvagem

Quinta-feira, Dezembro 23, 2004


Era um dia de chuva, de muita chuva e certo frio. Diferente daquele dia de sol. Mas era um dia de esclarecimentos.

Sim, de claridade só possível na antevéspera de Natal. Clarice Lispector escreveu certa vez que a desistência também é um tipo de salvação. E, eu completo, encerrar algo também significa começar tudo de novo, de uma outra maneira!

Mais uma vez: "morrer pra germinar" (mas pq será que achei que dessa vez podia ser diferente quando, logo de cara, na primeira parada do ônibus, eu percebi que não era?! Pq terei sido cruel comigo mesmo esse tempo todo?! São perguntas que vão ficar sem respostas. Pelo menos por enquanto!).


Meus amados, esse blog vai dar um tempo. Mas não vai acabar, como nas outras vezes. Que isso fique claro! Hoje uma nova etapa começa pra mim em muitos aspectos. E vou precisar de certa reclusão para arrumar a casa, as minhas idéias. Volto no comecinho de 2005... feliz natal pra quem passar por aqui e um ano novo repleto de erros e acertos... afinal, não é disso que a vida é feita?

Coração na boca:

Quarta-feira, Dezembro 22, 2004


Eu juro solenemente que não vou beber de novo! Nunca mais!

Coração na boca:

Segunda-feira, Dezembro 20, 2004




...era bonito cantar, trovar, mas bem que diziam:
tempo não é, senhores, de inocência, nem de
ternuras vãs, nem de cantigas, diziam e eu não
sabia que a coisa ia ser comigo, entendes? E o
mundo parecia cheio de graça (...) mas o tempo
não está para graças...


(Fluxofloema - Hilda Hilst)

P.S.: hoje um sonho ruim me tirou da cama muito cedo. Imaginei (ou terei vivido acolá, onde as coisas acontecem enquanto dormimos?) uma senhora muito velha conversando comigo próximo a uma árvore. Ela falava da minha morte e de como seria difícil consertar alguns erros cometidos por mim antes da partida. Eu fazia que não entendia, mas sabia exatamente o que ela queria dizer com aquelas palavras! Imagens se revelavam instantaneamente e eu prometi que acordaria. Acesa a luz do dia, dei de cara com a velha senhora na contracapa de um livro. Ela ria... devia estar numa festa, tomando uísque, zombando gentil por mais uma intromissão no meu sono.

Coração na boca:

Quinta-feira, Dezembro 16, 2004




Pas de deux

Depois, segue o poema completo
a dobradura do tecido
a minha pele colada na tua pele
a têmpora do gato

Ele agora me escuta, no escuro
gemendo, chorando
mas não vislumbra qualquer vale de lágrimas

Pede meu gesto, minha aquiescência
e eu só quero sono, sonho revelado
futuro feito presente... passado.

Coração na boca:

Quarta-feira, Dezembro 15, 2004




"Minha avó e minha mãe
perdi-as de vista num grande armazém
a fazer compras de Natal
hoje trabalho eu mesma para o armazém
que por sua vez tem tomado conta de mim
uma avó e uma mãe foram-me
entretanto devolvidas
mas não eram bem as minhas
ficamos porém umas com as outras
para não arranjar complicações"

O trecho acima está na página 63 de ANTOLOGIA (7Letras/Cosac&Naify), da portuguesa Adília Lopes. Apesar dos dias corridos, da exaustão de horas que nascem e findam como um suspiro, não consigo parar de ler, não consigo parar. Ela me consome lentamente, ora me conduzindo ao céu ora ao inferno. De "monstros e monstruosidades", tudo já se disse sobre ela. Mas aqui, perto do coração selvagem, depois escrevo mais. E conto, ao pé do ouvido de quem ainda não conhece, quem é essa moça, que vive com os gatos Ofélia e João Paulo, numa casa velha em Lisboa.

Coração na boca:

Sexta-feira, Dezembro 10, 2004


Enredo do meu samba

"Os dias nunca são iguais...", já disse Wisnik em uma de suas canções, repetida tantas vezes nesses escritos meus. Eles nunca são iguais e por isso mesmo esse 10 de dezembro amanheceu cinza, mais frio que de costume em anos anteriores. Mas acordei também com carinhos quentes compartilhados e uma voz interior que dizia: aproveite! Não necessariamente repetir aquela máxima: carpe diem. Mas um aproveite do tipo: celebre. Lembre de agradecer a todos esses anos e a todos esses amores e a todos esses amigos.

Nasci no distante 1968, num 10 de dezembro de perseguições políticas, praças invadidas em todo o mundo por revoltas populares e muitos sonhos sendo construídos. Sou de um tempo em que acreditar faz parte... e eu sigo, sim... vou vivendo!

Coração na boca:

Quarta-feira, Dezembro 08, 2004




Há dez anos, verões mais tristes...

As praias desertas continuam
Esperando por nós dois
A este encontro eu não devo faltar

O mar que brinca na areia
Está sempre a chamar
Agora eu sei que não posso faltar

O vento que venta lá fora
O mato onde não vai ninguém
Tudo me diz
Não podes mais fingir

Porque tudo na vida há de ser sempre assim
Se eu gosto de você
E você gosta de mim

As praias desertas continuam
Esperando por nós dois


(As Praias Desertas - A.C. Jobim/1958)

Coração na boca:

Segunda-feira, Dezembro 06, 2004




Alice e Gertrude no país da delicadeza perdida

A primeira vez que ouvi falar sobre Gertrude Stein e Alice B. Toklas eu era apenas um estudante de medicina louco para aprender mais sobre os revolucionários primeiros anos do século XX. Fiquei sabendo, através de um livro sobre Picasso, das reuniões regadas a muita literatura, arte, política, drogas, bebidas e, sobretudo, comida, que aconteciam na casa das duas americanas que viviam juntas nesse exílio voluntário na então alucinada Paris.

Alguns anos se passaram, larguei a medicina (ou a medicina me largou?), me tornei jornalista e, dizem, um razoável cozinhador (sim, espécie de palavra inventada, misto de cozinheiro com inventor de sabores, já que não me considero nem uma coisa nem outra) e desse modo me deparei com o maravilhoso O Livro de Cozinha de Alice B. Toklas, desde sempre um dos meus livros de cabeceira.

Não, Alice não era escritora. Tanto que quem escreveu sua autobiografia (sim, isso mesmo, sua própria biografia) foi a sempre inusitada companheira, Gertrude. Mas esse livro aparentemente sobre culinária se revela um belo álbum de memórias, onde entre ervas de cheiro e ingredientes mais raros, ela vai revelando um panorama encantador sobre o que se convencionou denominar "vanguardas européias".

Entre grandes guerras, entre grandes homens e mulheres, descobrimos a escandalosa receita de biscoitos de haxixe (que causou furor no lançamento do volume) ou a singela sopa de louro de Dora Maar. Também descobrimos que amor se faz com arte e renúncia, com coisas aparentemente simples como picar uma cebola ou arrumar uma mesa... amor se faz com a parte de mim que cede a você e a parte de você que cede a mim. É isso! É lindo. Provem o livro e se deliciem com as receitas... o resto é vida, sentimento, puro devaneio compartilhado!

Coração na boca:

Quarta-feira, Dezembro 01, 2004




Palavras tuas, tão minhas... que me perco sem querer mais esperar respostas...

O Instituto Moreira Salles e a Fundação Casa de Rui Barbosa lançam uma série de homenagens à escritora (e musa desse blog), Clarice Lispector, que faria mais um ano de vida, no próximo dia 10. Tudo começa com o lançamento da edição especial dos já aclamados (desculpe adjetivar, mas é que sou fã dessa série) Cadernos de Literatura Brasileira (números 17 e 18), que acontece no próximo dia 9, das 19h às 22h, na sede do IMS, rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea, no Rio de Janeiro.

Mostras acontecem a partir de então nesse mesmo local, de 9/12 a maio de 2005, incluindo fotobiografia, manuscritos, exibição de filmes e leitura de trabalhos da autora de Perto do Coração Selvagem, destinados ao público infantil.

A nós, amantes que estamos em São Paulo, só resta acompanhar o lançamento dos ditos cadernos no dia 13 de dezembro, no Centro de Cultura Judaica, situado na rua Oscar Freire, 2500 (Metrô Sumaré), a partir das 19h. Em seguida, no local, a pesquisadora Berta Waldman fará uma palestra sobre a "Presença judaica no texto clariceano".

*O texto informativo é esse. Mas agora, com os dois convites na mão, com seus olhos na fotografia olhando pra mim, senti o mundo dela. Abri a janela aqui da redação (sim, fui o primeiro a chegar e a TV está vazia), respirei o ar de maneira agradável e, apesar de nunca ter fumado na vida, me veio o desejo de um trago, seguido de um café quente. Talvez sejo mesmo o oblíquo dos olhos. Mas também pode ser apenas saudade que eu sinto de tudo que ainda não fiz.

Coração na boca:

 

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