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Segunda-feira, Janeiro 31, 2005
"Desculpa, digo, mas se eu não tocar em você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só essa vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nesta janela, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora".
Caio Fernando Abreu, in Anotações Sobre um Amor Urbano
Leio Ovelhas Negras pela quarta vez, talvez em busca de outros sentidos. Estava no meio de uma pesquisa sobre Ana C. quando me deparei com uma frase do Caio falando dela, da convivência dos dois durante a permanência dele em Santa Tereza no início dos anos 80... li-os separadamente e depois tentei imaginar os abismos maiores que os istmos.
Será que Ana C. gostava de samba? Tão inglesa... será que ia ao Parque Lage, caminhar no jardim, final da tarde, escurecendo? Lembrei do parque, um dia, final da tarde, escurecendo. Hoje ou amanhã nem sei direito, um ano. Vigília consentida na madrugada em busca de novas histórias para o filme. Tantas mortes...
"O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, ah, tão presa! Esses mosquitos que
não largam! Minhas saudades ensurdecidas por
cigarras! O que faço aqui no campo declamando aos
metros versos longos e sentidos? Ah que estou
sentida e portuguesa, e agora não sou mais veja, não
sou mais severa e ríspida: - agora sou profissional".
Ana Cristina Cesar, in A Teus Pés
P.S.: o seu olhar melhora o meu. Nunca esqueça disso.
Coração
na boca:
Quarta-feira, Janeiro 26, 2005
Noite de vento gelado sob a fresta da janela. As árvores sacodem forte suas folhas molhadas. Cheiro agudo da umidade persistente que nos últimos dias contempla São Paulo com uma paisagem algo melancólica. Leio Silviano Santiago e repenso os últimos acontecimentos. Uma carta, dois telefonemas, alguns e-mails. No meio disso tudo minha indisponibilidade para qualquer decisão apressada. O livro em questão Keith Jarrett no Blue Note se utiliza das linhas melódicas de canções com um quê de romantismo-rasgado (como disse Heloisa Buarque) para falar de histórias cumpridas durante período específico de exílio voluntário.
Ouço três vozes marcantes enquanto leio: Julie Delpy (T., o presente que vc me deu trouxe uma alegria imensa a esse coração, thanks), Alberta Hunter (M., que sintonia terna essa nossa!) e Dalva de Oliveira (que canta despudoradamente uma versão em português de Tu me acostumbraste). Viajo através das notas musicais assim como a narrativa do livro. Penso no chá que esfria em cima do balcão da cozinha, no desconsolo do gato (ainda triste, nostálgico) e na infinidade de horas que ainda tenho a cumprir até o dia da viagem de volta pra casa.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Janeiro 24, 2005
Paulista
(Eduardo Gudin/J.C.Costa Netto)
Na Paulista os faróis já vão abrir
E um milhão de estrelas prontas pra invadir
os Jardins
Onde a gente aqueceu numa paixão
Manhãs frias de abril
Se a avenida exilou seu casarões,
Quem reconstruiria nossas ilusões?
Me lembrei de contar pra você nesta canção
Que o amor conseguiu
Você sabe quantas noites eu te procurei
Nessas ruas onde andei?
Conta onde passeia hoje esse seu olhar
Quantas fronteiras ele já cruzou
Num mundo inteiro de uma só cidade
Se os seus sonhos emigraram sem deixar
Nem pedra sobre pedra pra poder lembrar
Dou razão
É difícil hospedar no coração
sentimentos assim...
P.S: porque amanhã é seu dia, porque eu te amo, por você, de certo modo, ser a minha mais completa tradução... feliz aniversário!
Coração
na boca:
Quarta-feira, Janeiro 19, 2005
You're the top
Night and day
Like the beat beat beat of the tom-tom
When the jungle shadows fall
Like the tick tick tock of the stately clock
As it stands against the wall
Like the drip drip drip of the raindrops
When the summer shower is through
So a voice within me keeps repeating
You, you, you
Night and day, you are the one
Only you beneath the moon or under the sun
Whether near to me, or far
It's no matter darling where you are
I think of you
Day and night, night and day, why is it so
That this longing for you follows wherever I go
In the roaring traffic's boom
In the silence of my lonely room
I think of you
Day and night, night and day
Under the hide of me
There's an oh such a hungry yearning burning inside of me
And this torment won't be through
Until you let me spend my life making love to you
Day and night, night and day
by Cole Porter
P.S.: logo depois que postei essa música, recebi o envelope pardo com as letras e os ventos do Sul. O coração selvagem, ainda disparado, vai responder em breve... pode esperar.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Janeiro 17, 2005
Desculpe o auê,
Eu não queria magoar você...
É que eu peguei a contramão sem perceber sabe? E aí os dias ficam confusos, nublados, doídos. Mas foi legal ter feito assim desse jeito, sem muito jeito mesmo. Eu só não quero me arrepender do que deixei de fazer. Por isso, sem culpas, baby.
Foi ciúme sim,
Fiz greve de fome, guerrilhas, motim,
Perdi a cabeça, esqueça!
Foi como falei no telefone lembra? Falei que tinha rasgado a roupa enquanto atravessava a pé o vasto campo. Você me disse que o terreno estava minado, que eu corria o risco de...
Da próxima vez eu me mando,
Que se dane meu jeito inseguro...
Aí eu disse: não. Enquanto te espero faço um rico bordado. Foi isso mesmo que eu disse? Já nem lembro. A música estava alta demais e resolvi apostar em outras garantias de sobrevida, como adivinhar a sorte dos passantes, perto do desfiladeiro onde você construiu o navio.
Nosso amor vale tanto,
Por você vou roubar os anéis de Saturno!
Pois então, resolvi não acreditar muito quando você prometeu "eternidade", "pra sempre" ou "nós dois". Aprendi que tudo é tão transitório, tão móvel, tão pouco palpável. Vamos combinar apenas isso? Eu, você, os anéis de saturno e aquela alameda imensa onde passei a acreditar no invisível dos dias. E onde também comecei a nos perder de vez.
P.S.: música incidental - Desculpe o auê/(Rita Lee - Roberto de Carvalho)
Mais um P.S., quase um recado:
Miúda,
foi muita delicadeza a tua, ter-me amparado naquela hora. Olhei o céu sem graça e pensei em desistir e tu disseste: -vem! Tudo depois ficou tão mais fácil, minha doce amiga. Sorri com as pitangueiras em flor, com a tarde morna, com o gesto amabilíssimo de minha mãe na fotografia. Tudo depois ficou tão mais doméstico, íntimo, conhecido. Ontem, quando você ligou, adivinhou minha solidão e me salvou. Mais uma vez.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Janeiro 13, 2005
Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar...
Exposição no Sesc Pinheiros: Rua Paes Leme, 195
Preciso dizer que é imperdível?
Coração
na boca:
Segunda-feira, Janeiro 10, 2005
Será que foi tudo um sonho bom? Pensou alto e tentou decifrar um pouco mais a natureza dos gatos. Dobrou os lençóis, lavou roupa o resto da tarde e lembrou do novo sotaque, de cada sussurro, de cada carícia, de cada...
...lá pelas tantas percebeu que o gato andava macambuzio desde a noite anterior. Enciumado, fez cena rasgando papéis, não dormiu no quarto e se negava a comer com gosto, como de hábito. Parece que sentia as dores por outro alguém, que nem gostava deles de verdade.
Foi aí que buscou explicar como as coisas funcionam. Não adiantou. O gato continuava a olhar longe, como se mirasse outra cidade. O dia foi quente, a noite também. Madrugada, os dois acordaram quase ao mesmo tempo. O dono e o gato e o resto da história: um copo de leite gelado, a segunda-feira raiando e todas as indefinições que cabiam no mundo.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Janeiro 06, 2005
A presença dolorosa do deserto
Teu nome é meu deserto
e posso senti-lo
incrustado no meu próprio território.
Como uma pérola
ou um gesto no vazio.
Como o amargo azul
e tudo quanto há de ilusório.
Teu nome é meu deserto
e ele é tão vasto.
Seus dentes tão agudos
seus sóis raivosos
e suas letras
(setas de ouro e prata
nos meus lábios)
são o meu terço de mistérios dolorosos.
Micheliny Verunschk, in Geografia Íntima do Deserto
Nos dias de chuva fina
cabe ficar desfiando lembranças opacas
dessas meio disformes
com cara de anos trinta
ficar divagando nas veias da madeira
da velha escrivaninha do avô
e pensando se o amor
vai além de
nomes
números
e essa longa espera
insone
Annita Costa Malufe, in Fundos para Dias de Chuva
As duas são jovens, mulheres inteligentes e articuladas, que escrevem poesia de forma muito particular. Até aí nenhuma grande novidade e poderia eu fazer mais um arranjo de palavras floreadas para definir a literatura esboçada nos primeiros livros dessas duas moças. Mas não vou. Micheliny é pernambucana, mora na linda cidade de Arco Verde e tem um delicioso sotaque nordestino que me fez parar no tempo durante um seminário promovido recentemente pelo Itaú Cultural, aqui em São Paulo.
Annita é paulistana, de 1975, estudou Ana Cristina Cesar e continua sua atividade intelectual pesquisando a poesia contemporânea brasileira. Não a conheço pessoalmente, mas me sinto irremediavelmente atraído por sua singular forma de surfar sobre a dor, chegando firme ao outro lado do rio. Tempo esquisito esse, onde uma mulher tão jovem tangencia histórias (reais? Autobiográficas?) que nos fazem sofrer junto, comungando começos e fins como se fossem os nossos.
P.S.: teimo em sangrar, lendo poesia. Teimo em querer me tirar da cena dos muitos crimes de amor. Mas não consigo. Não quero estancar nada, aliviar nada. Quero a falsa segurança dos portos-balsa. Não tenho jeito...
Coração
na boca:
Quarta-feira, Janeiro 05, 2005
Memórias de uma terça-feira (quase) bêbada
Pois é, como diria Carrie Bradshaw, a solteirice nos revela coisas impressionantes, como sair numa terça à noite para tomar um único drink e chegar em casa praticamente na hora de sair pro trabalho (rsrs). Acho que até o porteiro sentia falta das minhas madrugadas agitadas nos últimos meses, o que dizer então de alguns amigos (descobri ontem que pelo menos dois eu não via há inacreditáveis nove meses, pode??).
Apesar das nuvens pesadas no céu, encarei o trampo com óculos escuros e muita cara de pau (e olha que tive três reuniões de pauta seguidas). Em dias assim, esqueço a tristeza doentia dos últimos tempos, esqueço o deck de madeira corrida na casa de Maceió que nunca será minha, esqueço que Porto Alegre infelizmente fica longe demais de São Paulo... e trato de sorrir contente o resto da tarde! Amanhã prometo escrever sobre dois novos amores literários Micheliny VerunschK, autora do importante Geografia Íntima do Deserto e Annita Costa Malufe, que escreveu Fundos para Dias de Chuva. Por enquanto é isso... depois tem mais!
P.S.: se vc conseguiu lembrar o endereço do blog e está lendo essas bobagens, saiba que terças-feiras assim deixam rastros e contam histórias. Valeu pela paciência!
Outro P.S.: se espantem não. Às vezes eu viro um objeto-não-identificado mesmo!
Coração
na boca:
Segunda-feira, Janeiro 03, 2005
Repetiu que não havia acontecido nada e tentou pensar
nas estrelas que se acendiam na serra. Inutilmente.
Àquela hora as estrelas estavam apagadas".
Graciliano Ramos, Vidas Secas
Mas eis que as estrelas voltam a brilhar, numa tarde, numa manhã, numa noite, quando menos esperamos. Podem ser despertadas pela alegria de uma (re)descoberta ("seus olhos ao invés de verdes, deveriam ser vermelhos incandescentes"), através da leitura de um poema ou apenas pela contemplação do tempo recuperado, feito dádiva.
Depois de dias e dias de Bridget Jones (sim, com muito sorvete de chocolate, drinks nos horários mais impróprios e choro na frente da TV), volto à rotina de minha sitcom meio sem graça, mas minha. Repleta daqueles erros e acertos de que falei no último post. Se antes havia o receio de me transformar em personagem, agora assumo a farsa (o risco?) e escancaro os dados biográficos que quiser.
Não me sinto mais preso a julgamentos alheios. Esse espaço volta a ser o que sempre foi: página em branco a ser preenchida com o que der e vier, desde às referências que me transformam (sempre presentes) à última dor na consciência, ao último gole, último golpe. Pois é isso, baby: aperte os cintos já que o piloto voltou a assumir o controle da própria situação. Quem sabe um dia chego a algum lugar?
Coração
na boca:
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