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Sábado, Março 26, 2005
Ir para
"Esta noite um gato chorou tanto que tive uma das mais profundas compaixões pelo que é vivo. Parecia dor, e, em nossos termos humanos e animais, era. Mas seria dor, ou era "ir", "ir para"? Pois o que é vivo vai para".
Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo, pág. 33.
Foi num setembro que Clarice escreveu esse texto. Setembro, pra mim, costuma ser um mês bonito, assim como abril. Ontem bebi demais. Bebi tanto como há tempos não acontecia. Estava com a família, numa piscina azul. E havia o vinho. Garrafas e garrafas de vinho. Fiquei tonto, chorei, devo ter feito uma ou outra declaração de amor. E quase falei teu nome na frente de todas aquelas pessoas que me conhecem só pela metade.
Mas acho que calei.
Naquele momento meu "ir" aconteceu. E foi com tal susto que voltei a dormir e a acordar que hoje estou assim, num desamparo... minha mãe veio cedo, me beijou e disse que beber demais faz parte vez-em-quando. Ela não queria me constranger. Mas não me sinto mal por nada que tenha feito ou dito ontem. Apenas acho que fui. Desde que cheguei aqui venho embotando esses meus sentimentos todos de dor, pelas decisões difíceis que tomei e ainda terei que tomar.
Mas hoje eu fui. E fui tão fundo que nem consigo chorar. E aconteceu assim. No mergulho mais demorado de ontem na piscina e também no papo que tive noites antes, buscando treinar meu péssimo inglês do colegial. Era da Noruega o moço e a moça era da França. Eram tantos os estrangeiros na festa e eu me perguntando: -e o meu "ir"? Quando vai acontecer?
Pois ontem e hoje e daqui por diante, o meu "ir", foi...
Coração
na boca:
Segunda-feira, Março 21, 2005
Agora é a sua vez.
Do you believe in love...?
Então tá.
Não insisto mais.
Ana C.
Ana Cristina Cesar voltou a brincar comigo. E eu hoje disse, quase decidido: -não. Dessa vez não vou me deixar levar por você. Mas ela sempre vence. Conhece meus pontos fracos. Peguei o carro, rodei até deixar a cabeça em ordem e o coração em sobressaltos. Ainda seria a tua rua? Aquela que já foi tão nossa? Deletei o pensamento com um: -foda-se!, que não costumo dizer normalmente.
Voltei a pensar na foto do carro. A que eu mais gosto e consegui postar hoje. Voltei a pensar que desde o início desse projeto ela me guia pra onde quer. Vai devaneio... se solta de mim. Assume de vez outro corpo, outra voz. Sai de Maceió e volta a São Paulo, ao Rio de Janeiro, Porto Alegre. Depois não esquece de deixar um beijo e um recado em Portugal. Sim, isso mesmo. No Recife também, em Fortaleza e na Bahia que abriga o Salvador...
Chamo de volta a razão. Percebo que o sábado com os ex-alunos me fez recobrar um tanto de memória perdida. Depois, ontem, teve aquele vinho com a família reunida, os retratos nas paredes. E Ana. Sempre ela na espreita dos meus mais fundos segredos, cantarolando: "mistério sempre há de pintar por aí..."
Coração
na boca:
Quarta-feira, Março 16, 2005
"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem as palavras nas entrelinhas".
Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo
Fez tudo como de costume naquele dia. Acendeu a vela pro santo, deixou o copo d'água e o galho de arruda próximos ao escaninho da janela e subiu a escada determinada a fazer a cama, trocar-lhe o pijama e aparar a barba. Sinésio vivia entre a vida e a morte (como ele gostava de dizer) há vinte anos. Ela? Era devota.
Toda a beleza de antes agora era dedicada a São Jorge, que ela acreditava ser de fato um guerreiro viril, desses de cavalo branco e espada na mão que salvam princesas (mas essa parte da história todos vocês lembram, não é mesmo?).
Nesse dia Sinésio estava de olhos fechados e suas mãos frias revelavam que havia ido embora o cansaço. Ela sorriu. Por dentro e por fora. Lembrou o dia em que, na rodoviária, ele disse: -deixa eu cuidar de você? Ela acreditou. Seria ele São Jorge? Não era.
Um tempo depois de juntos ele esqueceu de tomar-lhe conta.Esqueceu também que havia lhe prometido um anel. Esqueceu do pra sempre. Agora, em cima daquela cama, Sinésio já não mais respirava e a mulher resolveu se vestir de vermelho. Usou o tom mais escarlate que havia no armário e saiu com uma flor na mão disposta, dessa vez, a não mais acreditar em príncipes.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Março 14, 2005
Meus queridos,
ainda não tenho condições de escrever o que aconteceu comigo nessa madrugada. O ônibus em que viajava entre Recife e Maceió foi seqüestrado e assaltado por seis homens fortemente armados. Estou bem fisicamente, mas sem telefone celular e alguns outros pertences de enorme valor sentimental, meus talismãs. Ainda não dá pra falar muito. Mas pensem em mim com bondade, vou precisar dessa energia. Beijos.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Março 10, 2005
O Ceará é um sonho e a viagem tem se revelado inesquecível! Ainda não consegui me comunicar com todos por aqui, mas adoraria encontrá-los antes de ir embora. Qualquer coisa me mandem um e-mail: lamenha@uol.com.br
P.S.: queridos, como estou nessas próximas semanas em trânsito, resolvi voltar ao orkut para ficar mais próximo das pessoas via scrap (principalmente pelas cidades onde vou passar). Quem quiser me adicionar de novo ou fazê-lo pela primeira vez estou na lista como Guilherme Lamenha, é isso aí!
Coração
na boca:
Domingo, Março 06, 2005
Chegou no Vento
Chegou no vento, a voz do cantador
Chegou no vento, a voz do cantador...
E pela estrada que me leva a Maceió
Eu descobri você contando estrelas...
Há muito tempo que eu andava só
No mesmo xote ou coisa feiticeira...
Não sei se foi o canto do tiê,
Não sei se foi o aro do luar...
Que me prendeu nos seus carinhos lá,
Um dia eu volto, e volto pra ficar...
Chegou no vento, a voz do cantador
Chegou no vento, a voz do cantador...
(Vinícius Cantuária e Xico Chaves)
Coração
na boca:
Sexta-feira, Março 04, 2005
"Digamos que um dia você percebesse que seu único grande amor era uma falácia, um arrepio sem razão. Digamos que você percebesse que 40% de álcool apenas te garantiam emoção concentrada como sopa Knorr, arriscando o telefonema internacional que dá margens a suores contrariando o I Ching que manda que eu me cale, ou diga pouco, ou pelo menos respeite esse silêncio".
Ana Cristina Cesar
Coração
na boca:
Terça-feira, Março 01, 2005
Interior. Noite.
Ocupar uma cama no antigo quarto adolescente pode significar tanta coisa... reconhecer o velho armário cheio de memórias e intimamente dar graças por tudo, de certo modo, ocupar o seu lugar, desafiando o tempo. Não desarrumo a mala. Não tenho coragem ou pique ou forças para mais nada, depois de tomar dois aviões em menos de quatro horas. Quero o sono. Ele não vem.
...
Exterior. Dia.
Lembrei dos planos de não encontrar você, mesmo estando novamente na mesma cidade. Mas não vou suportar não te ver, mesmo que de longe, na saída da clínica. Pedi o carro da minha irmã emprestado. Vejo o mar. O sol explode em cores, intensidade. Calor, muito calor. Nordeste de tantos tons, será que vou encontrar o meu?
...
Na casa da minha mãe também tem gatos. Lembro do meu, sozinho na Haddock Lobo, naquela Sampa sempre tão minha. Tenho saudade antecipada e quase choro. Aqui quase nunca chove, penso enquanto ouço passos apressados na cozinha, muita gente dentro de casa. Irmãs, tias, primos, mãe. Ela está mais velha. Eu estou mais velho.
...
O quarto agora é outro, mesmo sendo o mesmo. Igual a mim.
Coração
na boca:
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