<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="1252"%> Perto do Coração Selvagem

Segunda-feira, Maio 30, 2005


VI

Nada de mergulhos. É na superfície
que o real, minúsculo plâncton, se trai.
Sentidos, sentimentos e outros moluscos

não passam pela finíssima peneira
do funcional. E o sofrimento, ai,
esse nefando pingüim de louça

sobre o que deveria ser, na quiti-
nete do eu, uma austera geladeira...

Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, meu
filho. Só o raso é cool. A dor é Kitsch.

Paulo Henriques Britto

P.S.1.: melhor palavras alheias para descrever o que sinto hoje.
P.S.2.: o texto anterior do post foi deletado pq não dizia respeito só a mim. Foi um pedido feito por alguém que amo demais. E eu costumo respeitar o desejo daqueles que amo, mesmo que não compreenda os seus motivos.

Coração na boca:

Sábado, Maio 21, 2005




Sei que Leonilson e sua obra são temas recorrentes nesse blog. Sei também que, quando estou assim contraditório, quase-sem-querer penso neles o tempo todo: Clarice, Caio, Ana, Leo, Jules, Jim... mas é que hj, na comunidade do Leo no Orkut, um moço lembrou dessa obra: "Ninguém" e eu recordei dos dois programas sobre ele que produzi. Lembrei quando vi essa obra na minha frente pela primeira vez e a vontade que tive de sair correndo. O travesseiro com a inscrição (ou seria um bilhete?) me lembrou de Frida. Uma carta (já postada aqui) que ela escreveu numa madrugada, endereçada a Rivera.

Hoje é sábado. E porque é sábado (como diria o poetinha), me sinto completamente à vontade para ser feliz, mesmo sozinho. Para sorrir nessa casa que há pouco estava repleta de pessoas sorridentes e agora emudeceu. Todos foram para balada ou se recolheram para dormir. E eu em pedaços. Feliz, mas em pedaços. Releio GH. Me assusto com o desespero do apartamento arrumado e do quarto da empregada que recebia sol. E com a delicada fragilidade das baratas.

Também descobri que ler bem Clarice consiste em não analisar nada. É só se deixar guiar. Como eu fiz na primeira leitura de Lúcio Cardoso... vou ouvir música agora. Ligar o ar condicionado e esquecer que lá fora faz 30 graus... sou do frio, não posso negar... e qualquer negação hoje soaria falso, porque estou tão amplo e afirmativo que nada nesse mundo me faria mentir. Nem pra deixar de sentir dor... ser verdadeiro hoje significa a única possibilidade de acordar bem amanhã e depois de amanhã...

P.S.: tem miniconto novo aqui!

Coração na boca:

Quinta-feira, Maio 19, 2005


Hoje eu preferia ter acordado sem lembrar do sonho. Esse tipo de memória arranha a minha capa de invisibilidade e deixa à mostra um pedaço de carne, prova definitiva do quanto sou vulnerável. A mudança ainda não chegou. Está atrasada. E todos os dias rogo por um encontro casual, desses que deixam a perna bamba e a boca pronta para um -oiiii, como vai você? Mas queria também saber como anda outra vida. A última. A que roubou a minha sem nenhuma misericórdia. Como posso ter amado assim, duas vezes? Com o mesmo desvelo, com o mesmo cuidado (ou a mesma necessidade de cuidar?).

...acontece que meu coração ficou frio...

Diz Cartola, como que avisando minhas sucessivas mortes. Tento remendar a tal capa. Espécie de fantasia por onde escorre alguns sentimentos para muitos banais. Para mim são quase santos, de tão sacrificados. O quarto está ficando lindo. Tons suaves, móveis sólidos e brancos. Mas a janela não se abre para o mar. É lateral. Um muro confronta minha visão, enquanto paisagens inteiras tomam conta de mim.

... volta, vem viver outra vez ao meu lado...

Talvez amanhã. Quem sabe?

Coração na boca:

Quarta-feira, Maio 11, 2005




Paris era então uma festa...

"As árvores sem suas folhas eram esculturas quando nos reconciliávamos com elas, e os ventos do inverno sopravam por sobre as superfícies dos lagos e as fontes sopravam na luz brilhante. Todas as distâncias eram curtas agora, desde que havíamos estado nas montanhas".

Ernest Hemingway, in "Paris é uma festa"

Ando obcecado pelas primeiras décadas do século XX. Lendo e relendo Mansfield e Woolf, elaborando as receitas de Alice B. Toklas, companheira de Gertrude Stein, e autora de um delicioso livro de cozinha.

Sua influência continua consumindo meus dias e noites. Tanto que já escrevi e reescrevi o conto dez vezes. Acho que entendi errado. Será que o mistério não reside justamente nisso? Em não entender? Na verdade, nunca me preocupei com isso. Com a compreensão dos fenômenos, com os desvãos entre a vida e a morte.

Morte. Há 25 anos morria meu pai. Tão jovem. Hoje abri uma velha caixa com muitas fotografias. Ele aos 10, aos 16, aos 20 e poucos anos, apaixonado pela minha mãe. Fotos do casamento, dos 25 anos de casados, fotos de um pouco antes de sua morte.

Eu e meus irmãos ainda crianças. Minha mãe saindo da fazenda, comprando a casa na capital. Nossa primeira grande mudança. Eu tão moço... 15 anos, 20 anos, 20 e poucos anos e ainda alimentando amores de perdição.

"Isso aqui é a verdadeira terra do nunca", disse minha mãe cheia de credulidade. E eu apenas levando em conta a luz das fotografias, seus acertos e erros, sua metafísica, como diria um amigo que estuda o poder de evocação das memórias contido nas imagens. Como o jovem Hemingway indo à guerra, que ilustra esse post e representa, no momento, um tempo de delicadezas, jamais perdido...

Porque qualquer lugar (em qualquer época) pode ser sempre uma festa!

Coração na boca:

Quinta-feira, Maio 05, 2005


Clarice,

respiro fundo antes de escrever essas primeiras palavras em terras caetés. O avião descreveu um arco estranho e o céu limpo de um azul mui profundo cedeu lugar a nuvens pesadas, escuras... geografia invertida? Tempo e espaço colaborando para o aumento do aperto no peito?

Estava lendo, nessa hora, K. Mansfield que dizia: "é verdade, não estava pensando em nada". Mas eu pensava em tudo. No verde adamascado da capa do livro, no rosto da minha mãe aguardando ansiosa no saguão do aeroporto. Também lembrava do Dengo, no compartimento de cargas, com tanto medo quanto eu!

O que nos aguarda nessa tua primeira terra, Clarice? Ainda não sei. Se ainda há mistério, se ainda posso estabelecer qualquer relação com o passado, se serei capaz de lidar com essa nova realidade. Você mira meus olhos através da capa dos Cadernos de Literatura do IMS. Olha como quem aquece meus temores e com isso respiro mais aliviado, adivinhando o abraço que me acolheria dali a pouco.

Levanto a cabeça, escondo o embaraço pelo rosto rubro e passo a entender a trajetória de certos espíritos errantes. Levanto a cabeça e passo a acreditar que tudo vai dar certo. Tem que dar. Amanhã vou tratar de arrumar a bagagem, abrir caixas e malas num ritual silencioso. O Dengo agora aqui no colo parece querer falar ou ler, estabelecer algum tipo de contato. Eu quero estabelecer algum tipo de contato. Eu quero...

te beijo,

G.

Coração na boca:

 

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