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Terça-feira, Julho 26, 2005
Fundos para dias de chuva
Sinto tua falta, baby,
mas os passos no escuro não são
suficientes para me fazer voltar
(nas estradas,
recolho pedras verdes
e tantas novas paisagens)
Cultuo as sobras,
não disse?
"Fundos para dias de chuva" (a etiqueta
na caixa de papelão de meu pai)
sucatas da vida
Um pouco em tua homenagem
exercito
colher retalhos
e restaurar
Annita Costa Malufe
O livro dessa moça faz parte de uma coleção muito simpática e oportuna, lançada pela editora carioca 7Letras. Chama-se Coleção Guizos e contempla alguns autores novos (e outros que já estão na batalha do poema há mais tempo). A maioria, porém, com as qualidades inerentes a quem chega pra ficar.
Eu continuo acontecendo, entre episódios de sol e chuva. Entre pequenas descobertas que fazem exultar (como a facilidade com que meu gato já transita entre os tantos lugares desse não lugar) e grandes espaços em branco que servem para rabiscar novas histórias de dentro. Não vou me abalar mais que o necessário. Sigo acreditando no poder salvador das palavras e mais ainda no poder regenerador dos silêncios. É isso...
Coração
na boca:
Domingo, Julho 24, 2005
Quase sem querer, ouvi coisas antigas hoje. E também revi pessoas de um passado que julgava resolvido. Fui ver a A Fantástica Fábrica de Chocolate, mas não vou falar sobre o filme... na mesma sessão, minha primeira namorada e seus filhos... alguns amigos do colégio e seus filhos... e eu... eu? Sozinho, sem pipoca ou companhia, querendo aquele passado de volta.
Estar na casa da mãe tem dessas nostalgias. Café da manhã com bolo, quarto sempre arrumado, toalhas muito, muito limpas, plantas e flores até onde o olhar acompanha... tem também doce em calda, olhares cuidadosos, mãos delicadas... mas existem também abismos... hoje, depois de tanto tempo, ouvi canções que me lembram o último amor... aquele que tocou tão fundo que depois do fim fez meu coração ficar frio. Não consigo mais sentir... simplesmente não consigo. Estou seco, morno, sem vontades... saio, vejo, toco, olho... as pessoas se aproximam, sorriem, eu retribuo...
-Oi! Tudo bem?
-Tudo, e você?
-Tudo bem, você é daqui? Nunca ti vi por aqui?
-Eu? Sou... é que eu tava fora... voltei... muito prazer...
E não consigo nada além de ser agradável, correto, cordato. Me sinto um parvo em jantares entre amigos. Falo de canções antigas que ninguém mais ouve, de sambas-canções que só tocam no meu coração... e meu beijo... bem, meu beijo mais parece de plástico, sem qualquer emoção ou viço... perdi a vontade de ser... e não faço dramas... quero apenas retomar o contato com meus pedaços... quero rir sempre, como sempre fiz... e não esquecer os caminhos.
Hoje fiz uma coisa feia!
Visitei um blog, fui a uma rua, quebrei uma promessa. Parece letra da Calcanhoto, mas não é. É a minha vida. Repleta de clichês, frases feitas, canções melosas. Mas com uma incrível vontade de acertar.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Julho 21, 2005
Wie geht es dir?
Ontem comecei a estudar alemão. Hannah me leva a isso... pronomes pessoais desconhecidos: ich, du, er, wir... e eu que só queria a sorte de um amor tranqüilo, me vejo caminhando no reino de uma língua que filosofa o tempo todo. Descaminhos de Hannah, Benjamin, Goethe... sim, sim, todos os sofrimentos e todas as liberdades da vida do flâneur (liberdade?).
Hoje acordei com calma, sem cansaço. Atmosfera em trânsito!
Wie heisst du? Mesmo sem conhecer, pergunto... mas ainda não escuto respostas...
Coração
na boca:
Quarta-feira, Julho 13, 2005
Hannah chega apressada e mais uma vez reclama do tempo. Reclama dos amores contrariados e das despedidas. Lembra da última vez que encontrou Martin numa Alemanha ainda dividida e de seu embate com Elfride. Hannah me conta intimidades e manda que esconda sempre minha timidez, a que causa rubor na frente de estranhos. Ela diz que a fragilidade não deve ser exposta jamais.
E aí me perco no telefonema da semana passada, o que dava notícias da tua partida. Sua segunda partida (ou seria terceira?). Combinei comigo mesmo que não veria você novamente. Não vou ao aeroporto e nem farei visita surpresa ao consultório. Vou rasgar as cartas. Todas. Queimar as antigas fotografias que se transformariam em álbum. Nossas lembranças dos anos 80...
No último final de semana passei em frente ao colégio. Em frente ao prédio de arquitetura austera que foi palco de nosso primeiro encontro. Eu olhava o mar, lembra? Apagava desejos, prendia o choro e já sonhava com outra vida (a tal vida inventada?). Tu adivinhava meu mistério. Firmava pactos silenciosos e me amaldiçoava com uma atenção desmedida.
Hannah escuta e balança a cabeça, como quem sente desprezo por história tão ordinária. Depois acende mais um cigarro. Abre o livro e me manda começar tudo de novo.
Coração
na boca:
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