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Sexta-feira, Agosto 26, 2005
Mira o céu, Gelsomina,
e depois segue de vez a estrada...
pois nessa vida o que vale é a perdição.
MILÁGRIMAS
(Itamar Assumpção - Alice Ruiz )
Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre
Em caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre
Coração
na boca:
Terça-feira, Agosto 23, 2005
Definitivamente eu não sou um personagem de Bloomsbury! Por mais que me esforce para cultivar um estilo menos antigo, sou convencional. Por isso tô aqui, plena madrugada de terça, sem ainda entender direito o fim de semana. É que gosto de lembrar dos pequenos cuidados, de cada ritual que não passa desapercebido por essa minha alma de série americana. Sim, sim... no melhor espírito Carrie Bradshaw adoro o first date, a rosa vermelha-cheia-de-bem-querer que ficou na cabeceira desde ontem, a voz doce no telefone perguntando banalidades tão raras...
Devo ser a pessoa mais difícil do mundo, ou devo estar entre os primeiros. Complico tudo, embaralho a memória. Digo o outro nome sem querer cem vezes... e repito internamente que isso não vai acontecer de novo. E acontece. É que me apaixonei tão poucas vezes nessa vida, que "...tenho por princípios nunca fechar portas, mas... como mantê-las abertas, o tempo todo?"
Não, não pertenço mesmo a Bloomsbury, mas me reconheço em cada hesitação de Dalloway... principalmente diante de rosas vermelhas (será que você adivinhou ou foi apenas pressentimento, tempo ansiado?). E aí chego em casa, com a velha mania de zapear a tv a cabo e dou de cara com a cena (Joan of Arcadia??), do tal first date tão americano quanto o Dia de Ação de Graças... a mesma flor em botão, naquele indefectível celofane transparente... aí vem de novo na memória essa alegria que é receber flores... tão pungente que me faz olhar ao lado, pra cabeceira onde repousa tua rosa que agora se abre querendo me dizer mais alguma coisa...
Mas a saudade invade o peito. O cheiro toma conta do quarto (lembra daquela essência que eu usava nos nossos lençóis?), e escuto o Timoneiro... que diz:
Guarda bem esse raminho de alecrim
que eu plantei cá dentro do meu coração
Faz de conta que é uma rosa ou um alfenim
Beija-flor que veio a nós pra dizer:
"tem medo não!"
Posso, pois, não ser de Bloomsbury ou de Nova Iorque. Posso não fazer parte de uma série boba americana ou de uma peça transgressora do começo do século XX. Posso nem ao menos ter esquecido os sorrisos largos. Mas percebi que não estou mais com raiva do mundo. Percebi que abraçar, vez-em-quando, é melhor que chorar... e eu não quero perder nenhuma cena do próximo capítulo!
Coração
na boca:
Quinta-feira, Agosto 18, 2005
Dias e noites de Bridget Jones exigem cuidados extras com a balança. Mas quem resiste aos sorvetes com caldas criativas em dias de calor nessa terra eternamente ensolarada!? Sem falar no festival gastronômico que está rolando na cidade (em 18 restaurantes), inspirando meus almoços e jantares das últimas semanas. No trabalho, novas atribuições e na caixa postal, novos sorrisos, a cada e-mail aberto. Quando se mora longe como eu, um dos maiores prazeres que se tem é a troca de mensagens e, apesar de continuar fissurado em cartas, me contento com as modernidades e abro o UOL como quem vai ao encontro do carteiro no portão...
Semana que passou rápido, com "vastas emoções e pensamentos imperfeitos". Participei da criação de uma confraria (sim, no melhor estilo recuperando-a-adolescência-perdida) com minhas duas melhores amigas dos tempos de colégio, comprei o novo CD dos Hermanos e o Timoneiro, do querido Hermínio Bello de Carvalho! Disco ímpar, com pérolas desse velho bardo carioca. Além disso, ganhei um interlocutor precioso (apesar de distante!).
Em dias e noites de Bridget Jones, continua-se sonhando com manhãs e tardes inteiras de pura harmonia, com pingos de chuva no rosto fazendo desenhos abismados e muita, muita paciência para seguir acreditando sempre. A cada piscada de olho imaginada, a cada saudade confirmada, a cada desejo que nasce como promessa de felicidade e também de perdição. Sim, porque uma coisa eu aprendi nessa vida: nasci nesse mundo para viver tudo, nada pela metade!
E eis meu verso escolhido dentre tantos belos versos de Rodrigo Amarante:
"Eu escrevo e te conto o que eu vi e me mostro de lá pra você.
Guarde um sonho bom pra mim."
P.S.: se eu gritar de saudade, você me ouve?
Coração
na boca:
Terça-feira, Agosto 16, 2005
Sheep in fog
Colinas mergulham no branco.
Estrelas ou pessoas
Me olham com tristeza, desapontadas comigo.
Um fio de hálito fica no caminho.
Ah, vagoroso
Cavalo cor de ferrugem,
Cascos, sinos doendo -
Toda a manhã
Manhã ainda escurecendo,
E essa flor ao relento.
Meus ossos sentem um sossego, os campos
tão longe dissolvem meu coração.
Eles ameaçam
Me abandonar por um céu
Sem estrelas e órfã, uma água escura.
Sylvia Plath
P.S.: Sylvia escreveu "Ovelha na Névoa" entre dezembro de 62 e janeiro de 63. A tradução está cheia de falhas e foi feita por mim (que definitivamente não domino o inglês). Mas o poema é tão intenso e diz tanto de mim que resolvi arriscar. A moça da redoma era repleta de nuança, semitons. Gosto da respiração ofegante dos dias que misturam cansaço e certa tensão recolhida. Os desejos pulsam em dias assim, a libido se manifesta por entre frestas de noites úmidas e olhares transversos. Nunca antes ficar perto de alguém me incomodou tanto como agora.
Coração
na boca:
Terça-feira, Agosto 09, 2005
Sim, eu sei. Já percebi. Voltei a ser confessional. Deve ser influência da Ana, em mais uma releitura angustiada. Acordei com nova bomba familiar nas mãos e essa promete um estrago enorme. Vontade louca de escrever do lado de cá esses cacos de fantasias. E nem preciso seguir muito longe em minhas reflexões para descobrir que me sinto mais feliz quando estou dormindo, já que por lá eu sonho.
Louco pra pegar a estrada de novo, dar um salto... a crise de ontem foi passando aos pouquinhos. Pensei que entraria numas de pânico e tal... mas na hora que a coisa aperta, tenho que me jogar pra cair com os dois pés no chão. Eles precisam de mim aqui. Em pé. Não posso me dar ao luxo de ter crises subjetivas quando a realidade bate na porta com ganas de arrombamento.
Junto com a Correspondência Incompleta, releio Açúcar, livro doce, doce, de Gilberto Freyre. Antropologia da culinária patriarcal nordestina, mais especificamente da minha região, a Zona da Mata. Sinto quase o cheiro dos doces em tachos enormes de cobre... fogo de lenha, morno... vontade de dormir até tarde, adiando as decisões. Vou manter o tom correto do discurso. E depois vou sair de fininho, no meio da noite, antes que alguém me veja...
P.S.: impossível não deixar uma receita do livro Açúcar:
Ciúmes
1 libra (500g) de açúcar feito mel em ponto de calda
1 coco ralado bem miúdo
3 ovos
1 quarta (120g) de manteiga lavada
canela e erva doce, ao gosto
1 xícara d'água
1 xícara de farinha de trigo
Amassa-se bem a manteiga com o coco, depois os ovos, um a um e o açúcar. Em seguida, tempera-se com a canela, a erva-doce e, por fim, a água, alternando com a farinha. Estando tudo bem misturado, deixa-se ligar e deita-se a massa em forminhas untadas com manteiga. Temos então os ciúmes, que não devem ser comidos muito quentes, assim como o sentimento.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Agosto 08, 2005
Há tempos não amanhecia assim... dilacerado. Sem qualquer anteparo, me jogo numa roda imensa. A roda começa a girar e eu perco o chão. Essa maldita síndrome de Peter Pan e a vontade louca de começos. Sei, eu já disse. Me perco nos finais. Sinto falta da calma que sentia ao seu lado, por mais doloroso que fosse, vez-em-quando. É que não dormi de ontem pra hoje, sabe? Levantei da cama achando que tá tudo errado. Troquei os lençóis, abri a janela e lembrei que quero a minha vida de volta. O meu apartamento, a rua cheia de árvores, o clima. Até das nossas despedidas eu senti falta. Daquela ânsia que ficava no peito, aquele desejo de fazer o mundo parar. O mundo não parou, desde então.
Hoje estou num daqueles dias de... não quero mais brincar disso, não. É sério. Ontem fui visitado por uma das minhas melhores amigas. Crescemos juntos, desde os 14 anos. Ela tão centrada, equilibrada, apaziguada. Eu, pra variar, em pedaços. Não quero mais sentir aquele medo de antes, "mas ele não desgruda". Tantas vezes dá vontade de... pois é. Novamente perdi mais uma oportunidade. É que não consigo viver sem uma boa dose de dor, talvez. Insisto tanto em continuar errando que um dia ainda me ferro. Não, não... não gosto nada de como tudo está agora. Mas vai passar... deixa estar!
P.S.: às 14h20 - Ana C. me acompanha na bolsa e alivia o descompasso do ritmo.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Agosto 04, 2005
O Caminho
(Bebel Gilberto)
Não quero mais seguir
Um só caminho
Tanta mágua, tanta dor
Dia após dia, sem parar
Pra que chorar
Com a mesma dor, tanta dor
Não quero mais pensar
No que vai ser
Somente com a dor
Eu te entendo melhor
Sabendo o bom da dor
Eu vou te guardar com muito amor
Capaz de um dia achar você
Sem nem mesmo esperar
E vou dizer não quero mais pensar
No que vai ser
E vou dizer
Não quero mais pensar
No que vai ser
P.S.: música pra se ouvir no carro, feliz, vendo o azul da orla cegar os olhos. A luz aqui no nordeste proporciona esses prazeres, de inverno equatorial. E hoje, bem mais que ontem, não quero mais pensar no que vai ser...
Coração
na boca:
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