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Sábado, Outubro 29, 2005
Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão,
por injunções muito mais sérias, lustrar pecados
que jamais repousam?
(Ana Cristina Cesar - Atrás dos Olhos das Meninas Sérias)
Não faço outra coisa, desde que recebi teu e-mail: sonho em voar para Porto Alegre no primeiro avião azul que pousar na pista. Adiamos a história há quanto tempo? O enredo é o mesmo, com Chico Buarque guiando os caminhos. Os meus olhos nos teus olhos, só pra tomares conta. Adiamos a história?
Parece até que gosto de doer na distância... mas é que encontrei todos os textos que trocamos... e ainda tem aquele encontro. Único encontro contigo. Redenção, café, corrida contra o relógio... loucas horas. Aqui estou nessa tarde insuportavelmente quente, lendo Ana C. de propósito.
(...) hoje sou eu que
estou te livrando
da verdade
Coração
na boca:
Quarta-feira, Outubro 26, 2005
O Tempo sempre nos traz divertimento, e bom:
Quem não prefere dar umas voltas, fazer hora,
Em vez de vir direto para onde está agora?
Os versos são de W.H. Auden, com a inspirada tradução do José Paulo Paes, e servem muito bem para ilustrar o que estou sentindo agora. Se posso me divertir enquanto estou por aqui, porque vou continuar chorando mágoas e alimentando antigas paisagens?
Pois bem, vou revelar, como dicas, coisas que me fizeram um bem enorme seguindo a linha do "quanto mais carinhos-quentes melhor": eu, Vanessa, Lavici e Rossana fomos almoçar no restaurante que ajudamos a fundar (rsrsrs - explico: que vimos nascer quando era apenas um boteco em meados dos anos 80 e hoje é o mais importante da cidade) e acabamos por esbarrar em pessoas de outros tempos em meio a brindes e risadas que só se consegue dar com quem entende, através do olhar, as "piadas internas", que cada grupo vai acumulando com a convivência. Foi o melhor programa diurno que fiz nos últimos dois meses!
Pra completar, ontem, depois de corrigir TODOS os trabalhos dos meus queridos alunos (são quase 40) e enfrentar um dia de cão no jornal (sabe quando tudo dá errado e só nos resta rir da confusão?), acabei numa mesa de bar (uma delícia de bar, diga-se de passagem), bebericando e comendo o melhor petisco da cidade com amigos quando, de repente, surge do nada a figura que mais me fez bem nesses quatro meses em que estou aqui.
Ok, ok... nosso namoro durou apenas três semanas. Mas foram dias intensos, desses que ficam pra sempre na memória. Porque atenção e carinho conquistam qualquer coração-cansado-de-sofrer. Nosso afeto é instantâneo... bastou sentar na mesa e a intimidade brotou como que por encanto. É por essas e outras que concordo com a canção: "é melhor ser alegre que ser triste..."
P.S.: não, não reatamos o namoro. Mas com certeza vamos nos encontrar outras vezes, antes da minha volta definitiva pra São Paulo... e tenho dito!
Coração
na boca:
Segunda-feira, Outubro 24, 2005
Resolvi transformar um "p.s." em texto, não apenas como desabafo, mas como reflexão sobre o espaço democrático aberto pela internet que, em minha opinião, não é bem aproveitado por algumas pessoas. Escrevi um esclarecimento no post abaixo, que reproduzo aqui: "o Coração Selvagem não tem como objetivo atrair pessoas rancorosas, de mal com a vida, que desejam apenas destilar veneno de forma anônima.
Todos os comentários postados aqui, legitimados com sua autoria ou e-mail de contato são mantidos. Qualquer outro que atente contra a boa educação será eliminado. Digo isso porque há pouco, uma dita "protetora" tentou me insultar. Como não quero criaturas assim disseminando discórdia nesse espaço, deletei seu comentário!
O Coração Selvagem se destina à harmonia e à troca de informação entre gente que se gosta e que gosta da vida. Não sou obrigado, portanto, a ler desaforos de quem não se respeita o suficiente para assinar o que escreve!"
Escrevi isso e voltei a trabalhar. Como alguns sabem, sou jornalista e faço atualmente a edição de reportagens. Não consegui parar de pensar no ocorrido, primeiro porque nesses dois anos de blog, poucas vezes me vi envolvido com comentários apócrifos, agressivos ou grosseiros. Depois porque lembrei do que alguns amigos já passaram, em situações semelhantes.
O que leva alguém a perder seu precioso tempo distribuindo insultos pelas páginas da web? E o que é pior: se querem fazer críticas ou provocar polêmicas, porque não escrevem seu nome? Porque não se manifestam utilizando os mecanismos mais honestos de opinião e contestação baseados na autoria?
São questões a serem revistas por quem se dispõe a manter um blog e a comentar nesses espaços. Livre expressão é fundamental, mas princípio ético também. Seja no mundo real, seja no mundo virtual.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Outubro 20, 2005
Poison
Fui acordado nas primeiras horas da manhã de hoje com gritos agudos, gritos de quem sofre. Era o meu gatinho, Dengo, que se contorcia no quintal, com suspeita de envenenamento. O fato aconteceu na vizinhança, onde outros animais já morreram vítimas da maldade alheia. Não consigo imaginar um humano capaz de ato tão covarde, principalmente em se tratando de seres indefesos como os animais.
Pausa. Respiro.
A família inteira se mobilizou. Buscamos o telefone do veterinário, ele indicou um hospital para cães e gatos, recém-inaugurado. Fomos correndo prestar o socorro, fomos correndo lutar contra o relógio, contra o inexorável? Ele foi muito bem atendido. Dois médicos, uma enfermeira, um assistente. Ele convulsionava, aflito. Tomou anestésico, fez lavagens estomacais. Ficou num quadro grave e estável até o início da tarde, quando teve que ser levado à UTI veterinária. "Fizemos tudo que era possível", disseram amáveis.
O Dengo morreu quase ao pôr-do-sol, hora do angelus. Eu entrei na sala fria e encontrei seu corpinho inerte. Eu chorei por fora e por dentro como há muito não fazia. Não era apenas um animal de estimação (e muitos não vão entender essas linhas). Era uma companhia, um símbolo de um tempo feliz. Um relicário vivo onde depositei algumas das minhas melhores lembranças.
Choro agora comovido com a solidariedade da minha família, dos meus amigos e até de desconhecidos que me viram sair do hospital com o corpo. Mas acho que poucos entendem essa dor que, para muitos, parece exagerada. Talvez. O tempo vai me ajudar a superar mais essa perda, na verdade, já estou quase me habituando a esses abandonos, a essas partidas freqüentes sem muita explicação.
Agora, pouco me resta desse outubro.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Outubro 10, 2005
Dias de sentimentos confusos e pouca vontade de mudar o mundo. O meu. Deve ser o calor que já toma conta da cidade e provoca emoções desencontradas. Ouço um grupo de acordes melancólicos, noruegueses, distantes. Som que traz aguda sensação de nostalgia, prazer nos tons pálidos. É isso. Não me acerto com o sol.
Dias complicados. Casos de doença na família, problemas insolúveis (parecem eternos) que envolvem patrimônio (novamente a família e seus mistérios). Dirijo o carro e me distraio. Quase bato. É a música no rádio, lembrando uma rua e seus ramalhetes, um amor anotado em bilhetes. Outros tempos.
Releio o clássico de Jens Peter Jacobsen, Niels Lyhne, e me compadeço de sua angústia com o fim do amor (princípio de tudo?): "-E de mim, você se esqueceu?"
Sexta-feira, funk, risada. Chego em casa manhã cedo, sol raiando, pronto para esperar minha mãe que voltava do hospital. Pronto para começar mais um dia como tantos outros. Louco por respostas, definições, desembaraço.
Amanhã faz 25 anos que meu pai morreu. E ele era tão jovem.
Coração
na boca:
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