<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="1252"%> Perto do Coração Selvagem

Quinta-feira, Janeiro 19, 2006


Casca protetora

"- Ela colecionava palavras", me disse o corretor um tanto apressado para explicar a parede repleta de traços desconexos... o quarto era frio, úmido, mesmo no verão. Tem sido assim minha busca por um apartamento, uma casa, uma casca. Entro em mundos outros e vou descobrindo vidas que apenas adivinho.

Sem informação a respeito da biografia dos antigos moradores, vou esboçando personagens de acordo com o estado do banheiro, do piso, da cozinha... o apartamento da moça que colecionava palavras era triste. Perguntei ao corretor se ela havia morrido. Ele não sabia, ou disfarçou muito bem.

Tentei formar frases com os tais rabiscos. Não foi possível. Pedra, sonho, borboleta, chuva, lástima, lágrima, meiguice, triste, espelho, e aí seguiam em linhas tortas e com a mesma letra trêmula, sofrida.

Passei o resto da tarde pensando na tal colecionadora. Solitária deveria ser, num prédio decadente, de esquina, no centro velho de São Paulo. Lembrei do que me disse um amigo querido: "será que escolhemos nossa vida ou nossa vida nos escolhe?"

E mais adiante completou: "não faça de sua nova casa uma casca. Não se enterre lá, como costuma fazer quando quer evitar os encontros..." fiquei com medo de terminar sozinho ou acabar colecionando fragmentos de coisas acontecidas por receio de apagá-las da memória.

Guardar para lembrar que vivi... acumular estímulos para fazer sentido.


"Quem não se sente só?"

Coração na boca:

Segunda-feira, Janeiro 09, 2006




"Mrs.Dalloway dit qu'elle se chargerait d'acheter les fleurs".

E assim o fez. Clarissa Dalloway foi, ela própria, comprar as flores naquela manhã de junho onde tudo refulgia. A citação em francês remete ao belo presente de natal que ganhei de M. (meu sempre cúmplice dos mistérios possíveis): "Premières phrases de romans célèbres"... e é oportuna para abrir esse post, já que hoje depois de dois dias sem sair de casa fui ao mercado e de lá trouxe flores que alegraram a sala clara e branca do apartamento de R.

Desde sábado estou em estado de graça: P. (minha amiga carioca de alma sem fronteiras) conduziu-me a um recanto mágico para celebrar a música, a poesia, a harmonia. Chás, olhos-nos-olhos, pessoas queridas que se encontraram e se reencontraram por puro encantamento.

P. ainda me presenteou com um livro sobre o budismo que não sai das minhas mãos... me devora com a possibilidade de um entendimento outro, que nada evoca a divinos e maravilhosos mundos outros... trata do aqui e do agora.

C. me apresentou seu "Rumores", belo disco que vai ganhar aqui, nesse espaço, linhas mais apropriadas com links e comentários sobre suas músicas. V. me acompanhou nessa viagem coletiva rumo a epifanias... quem naquela sala vai esquecer do sino tocado pelo vento no final da canção?

E ainda pude ver e tocar "A revoada" e trazê-la para casa, junto com um pequeno bonsai, regalo afetuoso dado pela dona da casa, em sinal de respeito pela cumplicidade poética (Zenóbia fará para sempre parte daquele pequeno grupo da boca-da-noite, que recitou sem medos seus cálidos segredos).

E tudo isso me traz de volta à alegria de viver as manhãs, as tardes e as noites sem esperar qualquer milagre maior que a própria existência. Com todas as dores e alegrias sem sentido que vez-em-quando explodem diante de nós nos momentos mais absurdos. E ainda tenho a memória de dois rios. Duas amplas luminosidades que se abrem e me fazem companhia em dias assim, em que chuva e sol se misturam.

No mais, não se preocupem em entender as palavras e suas implicações. Clarice, a inspiradora desse blog, sempre nos lembra que viver ultrapassa qualquer tipo de compreensão possível. Sentir é o mais importante.

E Mrs. Dalloway continuava o passeio pelas ruas de Londres, com seu chapéu de plumas que combinava com a sombrinha e a echarpe em tons amarelados, certa de que "o seu único dom era conhecer as criaturas quase por instinto".

Coração na boca:

Sexta-feira, Janeiro 06, 2006


Eu não moro no sétimo céu. E será que é mesmo só decorar o papel? Deixa eu entrar na sua vida, vai... não se esconda atrás da cortina onde não posso te ver, entre as estrelas... onde pisas.

Cuidado onde você pisa. Pode machucar fundo o coração... o sorriso aberto pode ser prenúncio das mentiras que envolvem os personagens... e eu aqui, acreditando no novo começo prometido pelo arcanjo... se eu pudesse entrar na sua vida!

Certo. Todas as respostas foram pra você. Não havia outro enredo. Eu não consegui improvisar! E quase saí do sério em cena... luz, câmera, ação... faltou fôlego, música de fundo... não fui com sua cara bonita assim-de-vez... mas foi... é... e não abri a porta quase de propósito. Tente outra vez ou desista de vez. Eu não devo valer a pena mesmo.
...

Desculpe ter que abandonar os devaneios agora. Os amigos acabaram de chegar aqui em casa e o bonde tem hora certa pra passar... se ele vem e a gente não pega, fica pra trás... "lembranças são lágrimas abortadas" (2046). A citação não era essa, mas tá valendo... ainda não sei falar mandarim.

O passado já se perdeu.

Coração na boca:

Segunda-feira, Janeiro 02, 2006


"Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles".

Caio F.

Eu adormeci na virada do ano. Sim, juro. Essa é a mais pura verdade. Tomei um vinho rubro, encorpado... devo ter falado com algumas pessoas no telefone, não lembro. Mas fechei os olhos e quando me dei conta eram cinco horas de uma típica madrugada paulistana. Mas o cheiro de hortelã e alecrim denunciava sua visita. É que eu também tenho um dragão que mora comigo. Não, isso não é verdade, como diria Caio F.

Talvez ele me use, vestindo a casca singela que me envolve para improváveis aparições. Geralmente é num sonho. Costumo sonhar com dragões. Mas eles não têm a aparência dos dragões ilustrados. Os meus dragões não assustam. Costumam fazer estragos, mas são incapazes de grandes males. Eles fogem do paraíso, como avisou o Caio, por não se adaptarem à perfeição. O paraíso dos dragões é o conflito, nunca a harmonia.

Por isso Caio escreveu em seu conto que, pessoas banais como nós, tentam inventar belezas artificiais para prendê-los... tudo em vão, pura fantasia. Os dragões de verdade detestam refeições frugais como essa que preparo agora em fogo brando, enquanto escrevo esse post. Olham de soslaio e até sentem algum cheiro mais perfumado que escapa da panela... depois nos deixam, como sempre. Mirando longe, pontos imaginários no espaço.

Eu tenho um dragão que me habita. Mas nem por isso entendo melhor o que isso significa.

Coração na boca:

 

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