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Quarta-feira, Abril 26, 2006
Orides Fontela e seus gatos, em foto de Juan Esteves/Folha Imagem
Ver
o avesso
do sol o
ventre
do caos os
ossos.
Ver. Ver-se.
Não dizer nada.
Orides Fontela in Teia
Acaba de ser lançado o volume Poesias Reunidas [1969-1996], de Orides Fontela, com uma bibliografia atualizada e a reunião dos livros Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Para quem não conhece, a poeta paulista (1940-1998) foi autora de alguns dos mais importantes versos da literatura brasileira do século XX, de cunho pessoal inconfundível como assinalou o mestre Antonio Candido. Apesar do preço salgado, vale a dica!
P.S.: sim, ela também gostava de gatos!
Coração
na boca:
Sábado, Abril 22, 2006
Hoje eu morri.
Coração
na boca:
Terça-feira, Abril 11, 2006
Dora
Ela finalmente domou o cavalo azul de sua imaginação e partiu numa tarde da última semana. Como uma rosa selvagem que cresce despudorada nos jardins sofridos (sempre vou associar Dora às rosas de sua casa, no Jardim Paulistano), sua constância permanecerá em nós... em rasgos de memória, nos poemas lidos em voz alta. Que se cumpra o ritual. Aqui alguns versos de Agora, que me tomou pelas mãos num dezembro impossível...
(...) És minha invenção de amor. Olhos melancólicos
Os teus. Eu contigo em degredo.
Difícil tomar a face desse segredo cada vez mais longe
E partir e também ficar, embora encontrada a chave da porta mais secreta.
Se eu pudesse dizer: seja a paisagem de seda azul
E o último sol fortíssimo do ocaso
- Eu liberta enfim de tuas pupilas (...).
P.S.: a poeta e tradutora Dora Ferreira da Silva morreu no último dia 6, quinta-feira. Em 2005, ganhou o Prêmio Jabuti com Hídrias, belo volume em que se destaca seu apreço pela palavra. Criadora da revista e centro de estudos Cavalo Azul, ela sempre esteve ligada à difusão da poesia. Vocacionada, Dora era uma dama, no mais cristalino sentido do termo.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Abril 03, 2006
Era tarde de sábado quando nos entregamos, no apartamento vazio, aos abraços que agora fazem eco aqui, perto de mim... outono em São Paulo revela surpresas agradáveis, como a tarde de um outro sábado, na ferinha da Benedito, a bebericar com amigos que amo, amo, muito. Mas sempre depois das tardes de sábado surgem os domingos. Muitas vezes longos, solitários. Outono em São Paulo anuncia frio. Mas nada que não se suporte, entre mantas brancas que nos libertam do arrepio. Escritoras me fazem companhia. Elas que deixaram poemas sobre estados de espírito assim, feito o meu: contraditório.
Amanhã o fogão será instalado. Finalmente vou ter chá quente e comidinhas aquecidas. Invento meus fundos musicais para cada momento em frente à janela... assim como os navios que antes passavam diante de mim, só na imaginação. A foto da minha irmã criança me fez rir e chorar feito menino maluquinho. Hoje almocei sozinho, entre sorrisos complacentes e tragadas de cigarro nervosas. As pessoas ficam expostas enquanto comem... alguém me disse... vou descobrir um jeito de me livrar desses pensamentos sem regra que me assaltam, rasgando a gramática. Vou.
(uma dor nunca anula outra)
Coração
na boca:
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