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Quarta-feira, Julho 26, 2006
Me vejo cercado por livros sobre Virgínia Woolf e o Grupo de Bloomsbury. Durmo e acordo mirando sua foto, aos 40 anos, na capa da histórica biografia escrita por seu sobrinho, Quentin Bell, traduzida por Lya Luft para a Editora Guanabara. Acho que eu tinha 22 anos quando li pela primeira vez... desde então, vez-em-quando, tenho surtos bloomsburianos e releio quase tudo que tenho dela... as cartas íntimas trocadas com Vita Sackeville-West, em volume publicado pela editora portuguesa Colares, a seleção feita a partir de seus diários por José Antonio Arantes e, principalmente, suas ficções (acho que ao todo li seis livros de Virgínia W., mas só nos últimos dias reli Orlando e The Waves, dois dos meus preferidos, junto a The Voyage Out e To the Lighthouse).
Nos últimos tempos li também A Casa de Virgínia W., um misto de ficção e documento escrito por Alicia Giménez Bartlett e indicado pela Maya, amiga querida. Agora estou na metade do volume Bivar na Corte de Bloomsbury, de Antonio Bivar. Trata-se de um relato delicioso das experiências do brasileiro na Inglaterra durante a Summer School e os festivais, verdadeiras celebrações em torno do grupo, que acontecem em Charleston Farm (foto), reduto de Vanessa Bell e Duncan Grant, a partir de 1916, mas que também abrigou Maynard Keynes, Clive Bell e tantos outros. Oportunidade de conhecer detalhes das peripécias de Lytton Strachey e Dora Carrington, Lady Otoline Morrel, excêntrica e apaixonada, assim como Roger Fry (crítico instigante, autor de Visão e Forma) e mais informações sobre os queridos Quentin e Anne Olivier Bell.
Sim, ando mergulhado na atmosfera de Bloomsbury pra esquecer tanta coisa... doença na família, vírus no computador, falta de trabalho, pontadas esquisitas no peito cada vez que... depois brinco de casinha inglesa, tomando chá no fim da tarde (mesmo com o calor infernal que faz em Sampa City) e exercitando certa flêuma necessária em tempos assim, repletos de indefinições.
Antes que eu esqueça: o livro de Bivar não trata apenas das impressões de suas temporadas na Inglaterra... através de uma linguagem sempre fiel aos "apontamentos de diário", ele nos apresenta uma série de referências únicas, da literatura às artes plásticas, da geografia e história à gastronomia. Trata-se de um verdadeiro mergulho em águas profundas que me encanta cada vez mais...
Coração
na boca:
Sexta-feira, Julho 14, 2006
Zerando
Abrir as veias e as gavetas:
ávidas, vazias
viradas pelo avesso.
Me despeço de uma vez
longa vida abaixo
mas não avio
nenhuma viagem ou avião.
Não me visto sequer
nem esvaneço
apenas resto
apesar do vento
que me pega de frente
e me entorna todo
pelos olhos.
Defronte, dispara
o dia lá fora
enquanto eu fico aqui
tão fixo e travado
como no começo de tudo.
Armando Freitas Filho, in Duplo Cego
P.S.: o mundo gira e a vida... a vida continua!
Coração
na boca:
Quinta-feira, Julho 13, 2006
Eis o que você queria... a minha alma desnudada... sou tímido, não sei ficar assim, diante de tanta gente... mas é o que você quer? Toma-me então de bom grado... sou flor que brota em qualquer chão... sou teu querer, quase (só) o teu desejo... e persisto, entre folhas mortas, entre fraquezas expostas...
P.S.: texto escrito num guardanapo, há alguns anos.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Julho 10, 2006
Todo o sentimento
Cristóvão Bastos - Chico Buarque/1987
Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu
Coração
na boca:
Segunda-feira, Julho 03, 2006
Aimee Mann canta sem parar nessa manhã gelada. Os dias têm amanhecido mergulhados nessa bruma. E eu leio Nuno Ramos que diz: "quando foi que amei o intermediário, corpo viscoso e provisório, nem fome nem alimento?" Quando é que amamos o transitório, sem desejar permanência? Me pergunto, entre uma caneca de chá e um pedaço de bolo de cenoura. Acho que isso não existe, pelo menos pra mim. Adoro pensar nos próximos capítulos, no desenvolvimento dos personagens ao longo da narrativa. Sou feito dos lugares-comuns de um filme romântico, por isso me conformo em ser assim, contraditório.
Preciso de um emprego. Na verdade, preciso me apaixonar por um novo projeto, uma nova forma de expressão. Seremos assim mesmo tão dependentes dos desafios? O que me dizem os astros? Não, não sei ser frio como me pedem. Adoro colo, abraço, beijo colado. Gosto de fazer tempurá de camarão enquanto penso no molho de gengibre e capim-santo que melhor vai acompanhar o prato. É disso que gosto. Desse fogo lento que envolve a cozinha e vez-em-quando me toca também. É disso que gosto. Do toque das palavras que quase se materializam mas, como diz Nuno Ramos, já não nos oferecem qualquer perigo de engano.
Coração
na boca:
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