<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="1252"%> Perto do Coração Selvagem

Quinta-feira, Setembro 28, 2006




Sentimento do Mundo

O ano de 1968 é considerado seminal para a história contemporânea e já foi tema de livros, filmes, peças de teatro, músicas. Lembro uma vez ter lido um texto de Olgária Mattos sobre a paixão das barricadas, os sentidos amplos das palavras de ordem, o maio de 68 em Paris. Hoje assisti ao intenso "Amantes Constantes" ("Les Amants Réguliers", 2004), de Philippe Garrel. Sobre o tema já havia visto as versões de Louis Malle ("Loucuras de uma Primavera", 1969) e Bernardo Bertolucci ("Os Sonhadores", 2003) e respeito ambas. Mas o filme de Garrel nos comunica mais nas suas três horas de pura aridez poética.

O protagonista, vivido por Louis Garrel (filho do diretor), é um poeta que transita entre as agitações revolucionárias das ruas e uma "república" de artistas e desocupados burgueses. O ópio, as divagações filosóficas e a necessidade de ação (são inúmeras as perseguições policiais pelos becos e telhados de uma Paris literalmente em chamas) alimentam boa parte das cenas, num clima nouvelle vague que vai da fotografia em preto e branco até o ar blasé dos personagens principais. Mas nada me tocou tanto quanto à educação sentimental de François e Lilie. Como eles se encontram e se perdem, como eles se adivinham e ao mesmo tempo se desconhecem, evidenciando o quanto somos ignorantes em matéria de amor.

Quando as luzes acendem, percebemos que tanto o mundo quanto nós, seres humanos, continuamos incorrendo nos mesmos erros: passamos da euforia à desilusão com a mesma intensidade. Acreditamos e deixamos de acreditar com uma facilidade quase irresponsável. Em tempos de eleições no Brasil e descompasso no mundo, o filme de Philippe Garrel é obrigatório. Nos mostra como um ano divisor-de-águas como foi 68, de fato, não acabou. Seu projeto (semente?), a revolução dos valores, está apenas ensaiando novas formas de eclodir e vingar, para quem sabe, um dia, florir.

Coração na boca:

Segunda-feira, Setembro 25, 2006


Os dois

"Não tenho nada com isso nem vem falar/eu não consigo entender sua lógica...", naquele momento não lembrava se a letra de Muito Romântico era do Roberto ou do Caetano. Mas isso pouco importa já que a música era linda. Fumava um baseado e viajava no LP que girava como sua cabeça. Ela entrou no quarto sorrateira, blusa de escola ao contrário. Mas já não estava pelo avesso. Havia aprendido mais sobre o tio naqueles três últimos dias. Estava gostando dele.

Chegou com um suculento maracujá de polpa amarelo-vivo, manchando sua boca. Chegou falando. E ele não entendia uma só palavra do que ela dizia, mas achou lindo seu tom de voz... e... "mas acontece que eu não posso me deixar/levar por um papo que já não deu". Cantando, os males todos eram espantados para além dos muros daquele sobrado.

Depois daquela tarde conversavam sempre. Ele procurou mostrar que amor era uma coisa boa. Disse que ela se apaixonaria muito nessa vida, mas ele não. Falou como um mestre e ela fingiu compreender tudo. No fim da tarde, parada militar pela TV, ela roubou-lhe um beijo. Confuso e contraditório, aquele beijo.

Na manhã seguinte, olhou para a menina como se olha para uma flor bonita numa estufa e se despediu de novo. Seguiu viagem, escreveu um livro, voltou a fazer música. A meta era reencontrar a vida e o Brasil, que até podia estar desbotado, mas não pelo avesso. Sentiu, depois daquele beijo, que poderia criar e talvez, desse modo, se reconciliasse com o que corria por dentro.

Ela terminou o colégio no final do ano. Tentou se engajar na luta por liberdade nas universidades. Mas depois de um tempo achou tudo aquilo muito chato. No meio dos anos 80 foi morar com um guitarrista e fez experiências esotéricas na Amazônia. Estudou antropologia e tentou entender seu múltiplo país. Acabou colaborando como redatora num programa novo da TV Globo sobre jovens. Mais tarde iniciou uma série de documentários que mostrava a nova cara do Brasil.

Com o tempo, descobriu que sua pátria estava na sua cabeça e que, assim como ela, vez por outra também funcionava pelo avesso. Sua pátria estava na lembrança de um beijo roubado do tio barbudo que agora fazia trilha para cinema nos Estados Unidos. Estava nas fantasias que vez em quando brotavam quando ela comia um maracujá.

"Noutras palavras sou muito romântico..."

Coração na boca:

Sexta-feira, Setembro 22, 2006


Outro

Há quase uma década ele não sentia aquele ar morno em setembro. Sua fuga não teve nada de espetacular, como gostava de lembrar o irmão. Foi colocado no porta-malas de um carro, atravessou a fronteira pelo sul e, via Chile, foi parar numa França abalada pela efervescência de 68. Em todos os sentidos. Era 1971 e sua barba crescia, sua vontade crescia, sua carência também. Estudou música, escreveu canções de amor e outras tantas de dor. Participou de festas antológicas, namorou mulheres lindas e outras apenas inteligentes.

Mas nunca mais falou em política. Não se articulava junto aos demais compatriotas, não inventava falsos testemunhos de tortura para tornar o exílio mais excitante. Da prisão só lembrava dos gritos. Ele havia saído inteiro por fora e quebrado por dentro. Ele não entendia muito bem o que havia acontecido. Ele era quase um menino. Ele não se sentia responsável pelo Brasil. Em Paris costumava comprar maracujá e, vez ou outra, lembrava do que tinha deixado para trás: uma pequena família desarticulada. Mãe judia inconformada com as atitudes do filho rebelde, irmão mais velho funcionário público, cunhada e sobrinha.

Agora, quase anos 80, voltava anistiado e angustiado. Mãe morta, irmão triste, cunhada conformada e uma sobrinha que parecia um zumbi, com aqueles olhos arregalados e uma falta de expressão que o assombrava. Na manhã de sua volta, tentou demonstrar alegria. Mas só encontrou dificuldade.

...

Coração na boca:

Terça-feira, Setembro 19, 2006


Um

Antes mesmo de perceber que a blusa estava ao contrário, se sentia pelo avesso naquela primeira manhã sufocante de setembro. O quarto era pequeno, a cidade era pequena, a vida parecia estreitar-se cada vez mais. Quando se tem 16 anos o resumo da ópera é quase sempre assim: dramático e repleto de frases feitas e curtas. Vestia uma blusa ao contrário na manhã de setembro quando se tocou que dali a pouco era virada de década. Finalmente os anos 80... mas no que isso mudaria sua vida sem graça?

Entrou na cozinha com a blusa ao contrário pensando no fim do mundo, quando deu de cara com um barbudo estranho, tipo intruso mesmo, sentado à vontade na cadeira dela. Uma cadeira manca, desbotando a tinta verde que a mãe havia tentado para a mobília. Como estava pelo avesso não esboçou qualquer reação. Estar assim significava silêncios intermináveis com o mundo. Era seu código de alerta para que vivos e mortos se mantivessem distantes.

O tal barbudo era ensolarado, mesmo triste. Ria alto, e comia um maracujá enorme com açúcar, a polpa indefinida se espalhando sobre a mesa, também manca e desbotada como quase tudo na casa. Ouviu algo como: "ela cresceu" e mais adiante "não vai dar um abraço no tio?" Deu de ombros, voltou pro quarto, que nova confusão seria aquela?

...

Coração na boca:

Terça-feira, Setembro 05, 2006


Pra não falar de amor...

Hoje eu não quero falar de amor, pensar em amor, lembrar de coisas que um dia se apresentaram como possibilidade de... amor. É que mentira tem perna curta e eu não tô mais a fim de começar tudo de novo, acreditar naquele blá-blá-blá cheio de boas intenções, pra depois terminar em desafeto, falta de cuidado a ponto de: -putz! Não era bem isso que eu queria...

Acho que é porque tá frio e ontem foi ontem. E lembrei de tempos atrás quando eu era capaz de inventar mil surpresas sem a menor vontade de impressionar, apenas pra... ver você sorrir? É isso. Você sorria para dentro. E aquilo me incomodava... por isso eu bolava novas maneiras de encantar, fazer carinho quente bem debaixo da asa esquerda que eu julgava quebrada.

Mas o anel que tu me deste era de areia. A mesma que a gente pisou sem deixar grandes marcas. E isso agora incomoda. Aquela minha total disponibilidade e a sua incapacidade de se deixar amar. Hoje eu vivo olhando o céu, buscando gaivotas mesmo longe do mar. Lembra que você costumava desenhar gaivotas no quadro negro, na ausência do professor?

E fazia versos e tocava violão e me revirava por dentro. Descobria desde a tristeza dos meus olhos até o sonho mais escondido. Desde então nosso brinquedo preferido era fazer-de-conta... "-faz de conta que te amo"... mas hoje eu não quero falar de amor, pensar em amor, lembrar de coisas que um dia se apresentaram como possibilidade de... amor.

Coração na boca:

Sexta-feira, Setembro 01, 2006


A doce vida na Vila

Um dos baratos de trabalhar na Vila Madalena é bater perna na hora do almoço. Além dos lugares deliciosos que você encontra para comer (mesmo em dieta séria), você esbarra com figurinhas típicas do universo paulistano nos botecos cults e restôs naturebas em situações, no mínimo, inusitadas...

...ou seja, o carinha in do meio literário caindo de bêbado às 11 da manhã (fazendo a linha escritor-marginal-americano tão em voga entre os modernos); a modelo deslumbrante chorando ao sair do terapeuta que fica no prédio em que você trabalha; a VJ da MTV com cara de morta sem maquiagem; além de inúmeros atores-e-atrizes-promissores do teatro-cabeça-de-Sampa City. Ok, nem vou falar dos meus colegas jornalistas que por aqui são mais celebridades que muitos aspirantes à capa de revista!

Mas o melhor mesmo entre o sobe e desce das ladeiras é encontrar antigos colegas de faculdade (sim, saudosa Cásper Líbero dos anos 90); ex-amores (nem tantos, mas alguns que deixaram marcas mais profundas que aquelas-no-pescoço) e futuras possibilidades (pois é, que ninguém é de ferro e, em matéria de paquera, a Vila Madalena continua imbatível, em qualquer horário). Pra quem não conhece recomendo... pra quem bate ponto por aqui... até à vista, babies...

Coração na boca:

 

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