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Terça-feira, Novembro 28, 2006
Intimidade forjada, verdadeiro finjimento. Era isso que diziam dela. Obscura como a face escondida da lua. Depois voltou a tomar o vinho branco gelado, tentando aplacar o fogo do corpo.
Olhai com ternura os antigos retratos. A mãe disse em tom de conselho. Mas as profecias nessa família não se cumprem. Tomou banho o resto da noite, água corrente que descia da gruta fria, fria.
Já havia se habituado a morar num não-lugar. O pior agora era tentar esquecer as lágrimas que via escorrer do rosto dele, a cada despedida. Ontem, M. falou que morreria caso fosse enganada. Mal sabe ela que nós é que produzimos todos os enganos.
Coração
na boca:
Quarta-feira, Novembro 22, 2006
Desejo de eternizar metáforas. Como aquela que não ouso recordar, dentro do banheiro, rosto colado, respiração compassada. Compartilhar cama, mesa e banho requer sintonia, pactos silenciosos e certa ironia quando a melodia desafina. Queria decorar as palavras que você me ensinou no idioma dos teus ancestrais, da mesma forma que aprendo a cozinhar respeitando a métrica do corte de cada alimento.
Acordei sozinho ontem e hoje. O apartamento silencia meio tímido sem o seu alongamento matinal. É como um corpo vivo que perde parte de sua graça quando fica assim, pela metade. Eu? Eu uso a máquina nova para lavar roupa suja de outros tempos. Acesso páginas da rede que despertam meu lado obscuro e estremeço diante de sentimentos que ainda não nomeio.
Coração
na boca:
Segunda-feira, Novembro 13, 2006
Não era pra ser desse jeito, assim meio sem graça! Mas foi. Tomei vinho tinto, encarnado, e fiquei embriagado de outros tempos. E aí falei com você. Foi assim: estava com saudade há tempos e o vinho foi um belo pretexto! Quase saíram os versos: "...a razão porque mando um sorriso/ e não corro/ é que andei levando a vida/ quase morto..."
É Paulinho da Viola em tom maior, bem maior. Guardo na memória flashes de alguns primeiros encontros. Principalmente dos primeiros sorrisos. Sorriso sincero cola na retina, sabia? Aí vou colecionando cenas, sem editá-las.
Eu, você, o aeroporto. Eu, outro, uma calçada. Eu, ela, o colégio. Se pudesse abria links para as canções. Todo encontro que se preze tem fundo musical. Tem sim. E você ria, ao telefone, entendendo o pilequinho. Próximo, distante. Aqui mesmo, onde fechamos a ferida e estancamos o sangue.
Coração
na boca:
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