<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="1252"%> Perto do Coração Selvagem

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007


Quando ele não sente dor o semblante muda. Fica mais leve, apesar do cansaço. Os períodos de quimioterapia alteram o humor, trazem de volta a dor, deixam tudo confuso, cinza. O ambiente do hospital assusta. Prédio antigo da Santa Casa de Misericórdia. Percorro os corredores com o coração disparado. Ele sempre chora calado, mesmo sofrendo. Meu guerreiro tem apenas 16 anos, mas é um homem lúcido. Compreende que sua doença vai minando crenças, derrubando certezas, deixando o que é confuso ainda mais confuso. O corpo frágil me abraça como que buscando respostas. E eu invento caminhos para tornar suas horas menos dolorosas. Choro longe dele, tento disfarçar meu embaraço diante de perguntas simples: - tio, quando eu ficar bom posso...? Respiro fundo, estampo meu melhor sorriso e digo que ele pode tudo. Já, nesse momento, dentro ou fora do hospital. Ele pode voar, mergulhar, descer de paraquedas num terreno seguro, firme, se possível com uma bela paisagem de fundo. E como ele gosta de música, com uma trilha sonora de tirar o fôlego... essa doença pode até ser um rio cheio. Mas vamos continuar tentando atravessar...

Coração na boca:

Quarta-feira, Janeiro 03, 2007


O Princípio e o Fim

"Pois os anjos -novos a cada instante em inúmeras multidões- são, segundo uma lenda talmúdica,
mesmo criados para, depois de terem cantado seu hino na frente de Deus, cessar e desaparecer no nada".


Walter Benjamin in "Ankündingung der Zeitschift Angelus Novus"

Palavras da tradutora, Jeanne Marie Gagnebin:

"A atualidade dos anjos talmúdicos está à altura de sua intensidade, essa jubilação do hino cantado na frente do trono de Deus, e de seu aniquilamento consecutivo. Esses dois aspectos, o jubilatório e o aniquilador, são inseparáveis, ou melhor, é justamente a união de ambos que permite pensar, segundo Benjamin, o conceito de uma verdadeira atualidade: fulgurante, evanescente e destruidora. Os anjos são aqui os portadores de uma destruição necessária, sua própria, certamente e, mais profundamente ainda, a destruição de um tempo que teria a pretensão de si perpetuar a si mesmo".

P.S.: primeira iluminação do ano, relendo o livro "Sete aulas sobre linguagem, memória e história" - Jeanne Marie Gagnebin, ed.Imago.

Coração na boca:

 

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