<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="1252"%> Perto do Coração Selvagem

Quarta-feira, Abril 25, 2007


"Os dias nunca são iguais". Escrevo e lembro que já falei tanto disso por aqui. É verso de uma música do Wisnik, que deu aula-show de graça no sábado e eu não fui. Tava curando a ressaca e tentando lembrar o rosto da boca que beijei na noite anterior. Tô em mais uma daquelas fases sem maiores conseqüências ou delinqüências, onde o único interesse reside nos sentimentos transitórios e fugazes. Ou seja, ando afastando quem tenta ficar pro café da manhã ou marcar um simples-fim-de-semana-acompanhado com almoço, cinema, parque e confissões.

Me pego conjurando fórmulas mágicas, mantras e até orações convencionais que me livrem da rotina dos amores difíceis, do trabalho sem graça, de uma vida repleta de recordações (e sonhos que me acordam no meio da noite, quase sem fôlego). Leio Baudrillard e suas idéias de simulacro. Tomo chá numa madrugada gelada e coca-cola light com gelo numa outra madrugada quente (na mesma semana). Enjôo do meu tempero, mas não tenho grana pra comer fora todo dia. Atendo ao telefone sempre com uma náusea, uma fome, um.

Essa semana a bruxa em fotos inéditas desembarcou no Museu da Língua Portuguesa. Tenho sonhado com ela mais freqüentemente. E relido pouco sua obra (eu que relia três ou quatro vezes alguns de seus títulos a cada ano). Sobra tempo pra perder tempo. Olhar pro teto do apartamento minúsculo esperando que ele se abra. Esperando que um ser de outro planeta tenha compaixão de mim e me arranque de vez dessa realidade virtual em que se transformou minha vida. Quero a prática. O desequilíbrio diante do beijo nervoso de quem está nitidamente a fim de impressionar. Mas persiste a sensação de impotência diante da falta de tesão pelo mundo. Quero tanto. Talvez por isso esteja com tão pouco.

P.S.: ao som da voz gostosa de Mariana Aydar, cantando Rodrigo Amarante: "Deixa o Verão".

Coração na boca:

Segunda-feira, Abril 16, 2007


Se disser que eu desafino, amor, pode ter certeza que vou acreditar e deixar de cantar perto de você. Eu brinco com os instrumentos enquanto você cozinha. Toco o pandeiro enquanto você tempera o peixe. Sua casa é tão limpa que assusta. Asséptica, quase hospitalar. Penso enquanto tento tirar um som qualquer do violão. Acendo um cigarro, você manda apagar, fala do cheiro, abre a janela com certa rispidez. Não olha nos meus olhos, nem quando está com raiva.

Apuro meus sentidos, buscando os cheiros que fogem da cozinha para a sala pequena. Você continua indiferente, com a saia estampada de flores miudinhas na altura do joelho. Sempre gostei dos seus joelhos. Queria que me visse por dentro, agora. Mas toda concentração vai parar na porta da geladeira, quando pego uma cerveja e você tira a latinha da minha mão, lembrando que vamos tomar vinho branco no almoço. Todos dizem que bebo demais, que falo demais (me veio Ro Ro na cabeça, com sua eterna voz de solidão consentida).

Minto. Invento uma desculpa esfarrapada e saio do apartamento. Na calçada, pessoas sobem e descem a rua movimentada nesse sábado que poderia ser tão agradável se nós não. Lembro quando você fazia planos de ter filhos comigo e cortava meu cabelo no banheiro, com um carinho único. Quase sinto o toque que sua mão tinha antes. Suave. Queria agora um amor expresso, desses que a gente embala pra viagem. Não me engano mais com sua boca bem delineada pelo batom caro comprado com a grana da bolsa de "doutoranda" da Unicamp. Há muito não queria mais receber seus telefonemas cada vez mais raros.

Mas acabo sem ter onde passar o fim de semana nessa cidade que nunca foi minha. Vou ao seu ap, onde encontro os instrumentos deixados no canto da sala pelo teu mais novo ex-namorado. Como sou fraco, nessas horas. Me habituei a essa comédia de erros em que se transformou nossa relação desde o ponto final (ou as reticências?).

Conferi se a carteira estava no bolso. Parei o primeiro ônibus que passava no ponto em frente ao seu prédio. Vou ficar longe da tua limpeza, das tuas frases feitas, da tua superioridade em relação a nós e também desse peixe cheio de ervas e futilidades. Prometo, daqui por diante, nunca mais me perder de novo.

P.S.: ao som de "Juras", com Rosa Passos.

Coração na boca:

Domingo, Abril 08, 2007


O quarto em desalinho, reflexo de uma noite sem donos. Tenho fome, tenho dito. Hoje, quando você me pegou nos braços fui nau desgovernada. E os teus beijos? Sapos e príncipes... no reino das águas claras, claríssimas. E depois o desejo de deixar o número do telefone com alguém que não sei, sequer, o nome. Desatino de dias e noites estranhos. Eu juro que pensei que não era pra mim aquele tiro certeiro. Até você tocar minha mão no escuro do mundo. E foi como veio (tão fácil). Como a fala dos adolescentes do filme. Simples carinho (amo essa música tocada pelo teu violão). O beijo feriu meu lábio e o medo dos outros me enche de vazios. Quanta frase de efeito... não tenho remédio. Por isso me dou o direito de não de(re)sistir jamais... pois então... era uma vez...

PS.: ao som de "Espumas ao Vento", de Accioly Neto, interpretada por Elza Soares.

Coração na boca:

 

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