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Quarta-feira, Abril 30, 2008
Costumo ser indulgente com certos sentimentos. E intolerante em relação a outros. Hoje acordei com vontade de tomar chá, metido num roupão de flanela, com meu sapatinho-de-frio (feito pra usar em casa). Mas não pude. Fiquei com raiva de ter que sair na rua, onde o frio de 15 graus desafiava meu humor e minha capacidade de ser generoso e bom às 8h da manhã.
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Acabei de ler um livro que mistura discursos de Octávio Paz e Hannah Arendt. Gostei. Me fez pensar em temas menos mundanos (como a minha dor-de-cotovelo) e mais construtivos. Mesma sensação que senti ao ler a bela entrevista de Edgar Morin publicada na Folha de São Paulo, na última segunda-feira.
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Coisas assim (e mais os dois CDs que baixei do Wilco e Billy Bragg cantando músicas com letras de Woody Guthrie) me fazem voltar a ter fé na vida. Guardo as mágoas numa caixinha e esqueço no fundo do armário. Junto com alguns sonhos que se perderam no caminho.
Coração
na boca:
Terça-feira, Abril 29, 2008
Como apagar alguém da memória? Como esquecer cenas inteiras de intimidade, de leveza e também de desencanto? Minhas mãos tremem desde ontem. Voltei a ter aquela respiração meio-ofegante e não me alimento desde que... será que vou adoecer de novo? Será que é assim, vai ser sempre assim?
Na mesma cidade. No mesmo bairro. No mesmo espaço. Com a distância calculada de algumas horas. O tempo. Será que só o tempo vai me curar de você de uma vez por todas? Porque simplesmente não te esqueço como você me esqueceu, mesmo sem dizer adeus?
O chão se abre e se fecha cada vez que penso em continuidade. Nunca fui bom com os finais. Lembra? Pra mim eles são sempre desiguais. E agora fico à mercê do tempo. Logo do tempo. E da misericórdia dos dias melhores que ainda virão.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Abril 24, 2008
Impossível ouvir uma música do passado e não lembrar de paisagens e pessoas que ficaram coladas na memória. Hoje não li no ônibus. Resolvi mergulhar na melodia sofrida do Elliott Smith. Mas não é desse bardo encantadoramente triste que eu queria falar. É de uma das músicas do disco A Beira e o Mar, da Bethânia, lançado em 1984. Falo disco porque a primeira versão que tive da obra foi um LP.
A música?
Chama: Pra Eu Parar de Me Doer, do Milton e do Fernando Brant. Como boa parte do repertório, veio de um show antológico da Bethânia chamado A Hora da Estrela, roteirizado e dirigido pelo Naum Alves de Souza. É impossível não enxergar Macabéa e Clarice ao ler a letra e ouvir a sentida melodia. Isso me lembra que eu conheci livro e canção sem saber da ligação entre ambos, tudo no mesmo ano, não é louco?
Ouvi de novo a música ontem, ao baixar o álbum pro iPod. Fiquei imaginando em como o mundo dá voltas e acaba por não sair do lugar. Em como sou o mesmo garoto perdido daquele outro tempo, entre serras e noites de lua cheia. Sonhando em acordar uma madrugada e, pulando a janela do quarto, dar de cara com um mundo diferente. Inventado, imaginado.
Mas aprendi que a única forma de criar um mundo novo é dar tempo ao tempo.
Pra Eu Parar de Me Doer
(Milton Nascimento-Fernando Brant)
Mais que a dor do amor
Viver a dor, me doeu
Eu quero mesmo é ser feliz
Amar, amor
Quem não semear,
Não vai colher
Ai, de quem é um
E nunca será dois
Por não saber...
Quem irá me valer?
São pessoas, é a caminhada
Quem irá me valer?
São meus sonhos no pó da estrada
Quem irá me valer?
É o sorriso que guardo comigo
Quem irá me valer?
É o segredo de fazer amigos...
Coração
na boca:
Quarta-feira, Abril 23, 2008
My Blueberry Nights
Não desfez as malas, nem arrumou a cama como sempre fazia. O cheiro ainda estava forte no quartinho apertado. Quando, finalmente, encontraria um teto seu? Quando teria um amor que durasse mais que algumas horas? Entrou no box com raiva, olhando as marcas pelo corpo. Teve ódio da amnésia alcoólica. Queria lembrar o rosto. Queria tirar o gosto da boca. Um gesto... tantos comentários maldosos. A memória do beijo se perdeu em meio ao caos que tomou conta do lado de dentro.
Na primeira manhã em que se viu sozinho, decidiu que já não queria a companhia de quase ninguém.
Coração
na boca:
Quinta-feira, Abril 17, 2008
Dor elegante
Queria ter sido com você o que não fui com mais ninguém. Mas não deu. Talvez nosso encontro deva ser assim, na exata medida do descompromisso. É que você não é a pessoa mais delicada do mundo, embora pareça. Sua secura muitas vezes me deixa fora do eixo. É quando fico me perguntando o que ainda nos une. Mas aí vem o jantar preparado a quatro mãos, o pedido pra ficar mais "cinco minutos" na cama... abraçados, corações aos saltos, antes de levantar pra encarar o dia e o mundo de verdade fora do quartinho. Aí percebo que nossa relação é maior que os clichês. E como você diz, quando ficamos juntos é em nome da liberdade, não da obrigação.
Coração
na boca:
Terça-feira, Abril 08, 2008
Numa manhã cinza de abril...
Acordo cedo. Banho longo. Saio sem café. Ônibus. Trilha de Once no iPod. Primeiro ponto, segundo... - oi, lembra de mim?
Pois é, amigos queridos, o que era pra ser mais um trajeto de bocejos sonolentos e música melancólica, virou um reencontro inusitado, com direito a troca de olhares, palavras doces e um indisfarçável desejo de repetir o beijo na boca... ali mesmo, em pleno Butantã-USP (a linha mais cool de São Paulo) quase lotado.
Vocês acreditam em destino, o lugar-comum-razão-de-ser das comédias românticas? Eu já não tenho tanta certeza. Juro que esse encontro ao acaso me deixou com uma sensação estranha de que o Gil é que está certo quando canta: -mistério sempre há de pintar por aí...
P.S.: há quem diga que, com o outono, eu me torno previsível e excessivamente romântico, mas vai dizer que um fato assim não é inspirador?
Coração
na boca:
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