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Terça-feira, Maio 27, 2008
Fazendo as pazes com a (minha) realidade
Não lembro mais o dia da semana. Lembro ter sentido uma dor enorme. Mas não era no peito. Era uma dor difusa, que nascia na ponta dos dedos e se espalhava pelos braços e pernas até atingir em cheio minha cabeça. Tentei usar a cabeça, ser racional. Tudo que consegui foi desligar o computador e pedir ao chefe de redação para ir embora. Queria sair dali o quanto antes. Queria chorar na rua, enquanto não chegava em casa.
Lembro que fui a pé, entre a Rui Barbosa, no Bexiga, e a Haddock Lobo, nos Jardins, onde eu morava. Um ou outro passante observava minhas lágrimas caindo e meu rosto muito vermelho. Não lembro mais do ano. Mas lembro que era dezembro. E em dezembro as dores são mais sentidas. Cheguei em casa e tudo que fiz foi tirar a roupa e cair na banheira morna, quase quente. A mesma banheira de antes da perdição.
Pausa. Respiro.
Quase metade de 2008. Resolvo que vou de novo dar um rumo aos meus dias. Chega de descompromisso, de farras homéricas, de infelicidade no trabalho. Chega de saudade. Tenho poucos meses para deixar tudo em ordem: do saldo no banco ao coração rasgado. Passando pelo novo ap que ainda não encontrei, pela intolerância aos meus chefes imediatos, pelas frases mal-costuradas dos últimos tempos.
Estou ciente de que não sou uma pessoa infeliz. E contente em ter o que tenho diante de um mundo cada vez mais desbotado. Mistério, como diz o Gil, sempre há de pintar por aí... mas quero a sorte de dias mais tranqüilos e menos embaraços na hora de bater de frente com uma promessa concreta de felicidade. Não sou velho. Não sou jovem. Tenho o melhor dos dois mundos (como disse a alguns poucos que me são caros).
Não vou sujar minha barra tentando limpar a sujeira dos outros. Tenho uma lista enorme de motivos pra ser feliz. Vou aproveitar minha energia para partilhar mais, para escrever e-mails a amigos queridos, para conversar horas com minha mãe ao telefone, para voltar a cozinhar e morrer de prazer com isso. Para escrever, ler, ouvir, ver e sentir como sempre fiz: acreditando tanto na fantasia que ela acaba se transformando em realidade.
Coração
na boca:
Terça-feira, Maio 20, 2008
“Quando tudo entre nós terminou”
Reli hoje essa frase. Mais de uma vez. Era assim que começava seu último e-mail, perdido numa gaveta de guardados.
Quando tudo entre nós terminou eu achei que seria mais fácil. Voltar a sorrir sem medo de contrariar sua melancolia. Voltar a praticar certa leveza que nosso relacionamento havia roubado de mim em troca de tantos momentos ternos, mas tensos em certa medida.
Quando tudo entre nós terminou, tive medo de amar de novo, por medo de sofrer. Foi aí que vi o quanto de insegurança rondava meu coração, quando perambulava entre duas cidades, duas vidas, destinos tão pouco amparados.
Desde então vivo fugindo das declarações fofas de amor-eterno e das afinidades eletivas. Passei a dar preferência aos prazeres fugazes, ao riso farto provocado pelo vinho (e recentemente pelo gim com gelo). Mesmo sem lembrar direito do rosto que me beijou na noite anterior. É que me sinto protegido, sabe?
Sinto que não vou precisar chorar ao ler ou ouvir: “- quando tudo entre nós terminou”. Pra você deve ter sido bem mais fácil (embora sempre vá defender o contrário). Você sempre gostou das letras de samba com drama escorrendo das veias.
Eu continuo sendo assombrado pelos fantasmas de nós dois. Como diria Caetano, multiplicando os pés por muitos, mil... sambando como no retrato, que a luz de uma história incompleta imprimiu em nós.
Coração
na boca:
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